terça-feira, 17 de abril de 2012

PREGAR: POR QUE É NECESSÁRIO MUITAS VEZES O PREGADOR TORNAR-SE UM TROVÃO NO PÚLPITO

Jefferson Magno Costa

      Perguntaram certa vez a João Batista quem ele era. João respondeu: "Eu sou a voz do que clama no deserto" (Jo 1.23). Assim se definiu João Batista. Eu achava que a definição ideal do pregador seria: "aquele que argumenta" e não "voz do que clama". Por que João Batista se definiu fundamentando-se no clamor e não no argumento? Por que não se definiu apoiando sua atividade de pregador na argumentação, e sim nos brados? Porque sobre muitas pessoas neste mundo, o falar alto tem muito mais poder do que os argumentos.
    Vejamos uma prova disto em um exemplo envolvendo o Senhor Jesus.
    Assim que Ele concluiu a exposição da parábola do semeador, começou a clamar (bradar): "Dizendo ele estas coisas, clamava: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça" (Lc 8.8). Jesus passou a clamar, e não se deteve mais em argumentar sobre a parábola, conforme fizera até ali, porque sobre aquele auditório os brados tinham mais poder do que os argumentos.   
    Vejamos outro exemplo bíblico.
    Quando Pilatos examinou as acusações que os escribas e fariseus apresentavam contra Jesus, lavou as mãos e disse: "...nenhuma culpa, das de que o acusais, acho neste homem" (Lc 23.14). Enquanto Pilatos, na sua polidez e serenidade de governador, declarava isto tranquilamente, a atitude dos escribas e fariseus, acompanhados do povo, era outra: "Mas eles instavam [insistiam] com grandes gritos, pedindo que fosse crucificado. E os seus gritos, e os dos principais sacerdotes, redobravam" (Lc 23.23).
    Portanto, Cristo tinha a seu favor os argumentos e o parecer consciencioso de Pilatos, e contra si os gritos da multidão. E qual deles prevaleceu? Os gritos da multidão. O parecer sereno e racional de Pilatos não foi suficiente para o livrar, mas os gritos tiveram poder suficiente para o colocar na cruz.
    Tendo os gritos tanto poder sobre a humanidade, é necessário que em algumas ocasiões os pregadores clamem, bradem, gritem. 
     Certamente, foi por reconhecer que os pregadores muitas vezes terão a necessidade de gritar, que o profeta Isaías os chamou de nuvens: "Quem são esses que vêm voando como nuvens?..." (Is 60.8).
     A nuvem tem relâmpago, tem trovão e tem raio. Relâmpago para os olhos, trovão para os ouvidos, raio para o coração. Com o relâmpago ilumina, com o trovão assombra, com o raio mata. Mas o raio alcança a um, o relâmpago a muitos, o trovão a todos. Assim deve ser a voz do pregador: um trovão do céu que assombre e faça tremer o mundo. (Trecho do Sermão da Sexagéssima, pregado em 1655 na Capela Real, em Lisboa, pelo maior pregador da língua portuguesa, Antônio Vieira. Adaptado e atualizado para o leitor do século 21).

Jefferson Magno Costa

quinta-feira, 12 de abril de 2012

MARIA SLESSOR, A MISSIONÁRIA QUE ARRANCOU TRIBOS AFRICANAS DAS MÃOS DE SATANÁS

Jefferson Magno Costa
     É madrugada. A alguns quilômetros da orla marítima, uma mulher e seis crianças negras caminham para a margem de um rio. Chove. Homens e mulheres africanos perguntam:
     - Por que nos abandonas, mãe?
     Maria Slessor pára junto à canoa, volta-se, contempla aqueles semblantes escuros e fala docemente:
     - Não fiquem tristes. Sei que vou para o meio de povos ferozes e adoradores do Maligno, mas eles também precisam ouvir falar de Jesus. Alegrem-se. Eu voltarei. Mas se não voltar, nós nos encontraremos nas margens do Grande Rio, diante do Grande Pai. E ali seremos todos de uma só cor, alvos como o marfim.
     Em companhia das seis crianças, Maria entra na canoa, e parte, sob o olhar silencioso da tribo de Creek Town.
     Maria Slessor nasceu na Escócia, em 1848. Era loura, de cabelos lisos e olhos azuis. Aos onze anos de idade foi obrigada a trabalhar na tecelagem para ajudar financeiramente sua mãe, pois seu pai, alcoólatra inveterado, após a morte de Roberto, o filho mais velho, abandonou a senhora Slessor e os quatro filhos restantes.
      Aos 14 anos Maria já era considerada uma hábil tecelã. Não sabia ela que futuramente Cristo a incumbiria de tecer as vestes brancas da salvação no coração dos negros africanos.
     Sua mãe era evangélica, membro da igreja de Aberdenn, e costumava contar aos filhos alguns incidentes da Missão Africana, viasando despertar-lhes o interesse pela obra missionária.
     Atentos, eles ouviam a senhora Slessor falar-lhes de um rei africano e dos seus chefes de cor; das terras e das boas-vindas que costumavam oferecer aos missionários enviados; dos pretos de Calabar; de como Hope Waddell fora morar corajosamente no meio dos pântanos, e ali brilhar como uma luz, pregando aos selvagens o Evangelho de Cristo, e o quanto a Missão necessitava de obreiros e de manutenção.
     Às cinco da manhã, Maria se levantava e ia para a fábrica, onde permanecia até às dezoito horas. Levava sempre a Bíblia consigo, lendo-a no caminho, quando ia e quando voltava, e durante os intervalos do seu trabalho.
     Nessa época tornara-se membro da igreja de Wishart. Ali, pouco tempo depois, começou a dirigir uma classe bíblica para meninos rebeldes. Para atrair aqueles que se recusavam terminantemente a frequentar a classe, ela promovia reuniões ao ar livre.
     Certa vez um grupo de rapazes perversos resolveu acabar com uma dessas reuniões. O líder do grupo aproximou-se de Maria, sob o olhar dos demais, inclusive das crianças, e começou a girar uma corrente em cuja ponta estava presa uma bola de ferro. E a girava velozmente, avizinhando-a da cabeça de Maria, mas esta, encarando-o firmemente, não denunciava nenhum sinal de medo. 
     "Ela tem coragem" disse o rapaz, desistindo e abaixando o braço com que segurava a corrente. Em seguida sentaram-se todos, e juntamente com as crianças assistiram à reunião.
     Esse incidente contribuiu para mudar a vida daqueles moços, salientando também a coragem daquela que, não temendo lidar com garotos rebeldes nem enfrentar rapazes insubordinados, desafiaria, em plena selva, a agressividade e as lanças dos negros africanos.
     A missão de Calabar, na África Ocidental, tinha sido fundada no ano de 1846. Kurumã estava sendo evangelizado por Robertt Moffat, enquanto David Livingstone, "o fogo das mil aldeias", abria caminho através de todo o restante do Continente.
     O sonho da senhora Slessor era que Roberto, seu filho mais velho, fosse à África auxiliar o trabalho desses missionários. Mas a morte prematura do rapaz fê-la pensar que nunca teria um filho missionário.
     Quando, em 1874, Maria Slessor completou 26 anos, foi pedida em casamento. Mas neste mesmo ano o Império Britânico foi abalado com a notícia da morte de David Livingstone. Fizeram então apelo a voluntários para o continente africano, e Maria, decidindo entre a obra missionária e o casamento, optou pelo primeiro e ofereceu-se como missionária para Calabar.
     Nessa época, ela era aluna da Escola Normal de Edimburgo, e a coragem em seguir para um lugar conhecido como "sepultura dos brancos" deixou forte impressão em todos.
     Em agosto de 1876, no cais de Liverpool, Maria embarcava em um navio que a levaria a um continente que em nada se assemelhava à sua bela Escócia. Tornava-se então realidade o sonho da senhora Slessor.
     Pelas areias brancas de Cabo Verde, pelo Desembocadouro dos Escravos, pela Costa do Marfim e pela Costa do Ouro, a bordo do navio "Etiópia", dois olhos azuis deslizavam sua curiosidade pela misteriosa paisagem que delineia a navegação costeira.
     Maria Slessor, recebendo brandamente no rosto a aragem fresca das praias africanas, contemplava interessadamente aquelas florestas que se erguiam, hostis e impenetráveis, margeando toda a costa.
     Chegando a Calabar, desembarcou e foi conduzida a Duke Town, uma vila litorânea onde residiam alguns missionários. Ali ela viveu durante quatro anos, ajudando nos cultos e estudando a língua local e alguns dialetos nativos.
     Era madrugada ainda quando Maria se levantava para tocar o sino, convocando os crentes à oração. O seu espírito, entretanto, ansiava por um trabalho de maior alcance, a liberdade pioneira, o desbrava-mento daquele solo enegrecido pelo pecado.
     Muitas vezes ela caminhava para a mata fechada e contemplava demoradamente as árvores que se erguiam ao longe, indecifráveis, sumindo no horizonte além. Era ali que se travavam, entre tribos que praticavam a feitiçaria e o canibalismo, os choques mais horrendos e cruéis já contemplados pela natureza humana.
     E era ali que ela deveria estar, entre eles, modificando-lhes as práticas da ignorância e falando-lhes do amor de Jesus.
     Foi de um vilarejo chamado Cidade Velha que lhe veio o primeiro convite para ir evangelizar e morar entre os negros. Ela aceitou, agradecendo a Deus. Agora poderia expandir plenamente a sua vocação missionária.
     Seguiu para lá acompanhada de um guia e alguns carregadores. Quando a vereda por onde caminhavam se dividiu em duas, eles se depararam com um crânio humano enfiado em uma estaca. Ali estava designada a entrada da Cidade Velha.
     Durante mais de dois anos, Maria Slessor viveu naquele povoado como a única mulher branca entre negros, alegre por estar no meio deles, comendo na mesma mesa e falando-lhes da obra salvadora de Jesus.
     As paredes de sua casa eram de taipa e o teto de palha, e havia sempre várias crianças dormindo ali - órfãos e desprezados que Maria abrigava. Pensando nestas e nas outras crianças, fundou uma escola onde lhes ensinava não só o idioma deles, mas também a darem os primeiros passos nos caminhos eternos.
     Aos domingos pela manhã, dois meninos carregando um sino em um pau de bambu, percorriam toda a vila até o local da reunião, trazendo atrás de si um número sempre crescente de negros curiosos que se achegavam para ouvir a "Mãe Branca".
     E quando a noite se declinava sobre o povoado, recebia sempre em sua fronte escura a claridade do cântico daqueles nativos que cultuavam a Deus à luz das tochas vermelhas.
     Certa vez uma canoa pintada de vivas cores e conduzida por quatro negros de pele oleosa e rostos pintados de vermelho aproximou-se das margens do rio que banhava o vilarejo.
     Era a canoa do rei Ocon, chefe da tribo Ibaca, que a enviara juntamente com o convite para que Maria fosse morar em sua tribo. Ela aceitou. Esta seria uma grande oportunidade de evangelizar um povo que desconhecia Cristo.
     Logo, toda a Cidade Velha ficou alvoroçada e entristecida. Mas às três horas da madrugada, despedindo-se de todos, Maria era conduzida rio acima, sob a cobertura de uma esteira improvisada para protegê-la da chuva e da água levantada pelos remos.
     Por um longo espaço de tempo aqueles homens remaram, e quando a madrugada enrubescia as primeiras horas do dia, sob o latido de cães e o cantar dos galos, chegaram a Ibaca.
     Deram-lhe uma casa semelhante à outra onde morava anteriormente. Multidões vieram das vilas vizinhas para ver sua pele branca. Pela manhã e à noite realizava cultos; durante o dia dava remédios aos doentes, fazia curativos em suas feridas ou lhes aconselhava o que deviam fazer.
     Homens, ao natural ferozes e barulhentos, ficavam em completo silêncio ao verem Maria aproximar-se para lhes contar histórias. Ali, ela falou o Evangelho de Cristo a todos os que se achegaram para vê-la.
     Pelos fins de 1882, um tufão passou com extrema rapidez sobre a vila e derrubou a casa de Maria. Ela foi levada a Duke Town, mas o seu estado de saúde se agravou, fazendo-se necessária a sua volta à Escócia.
     Depois de três anos, recuperada e novamente pronta para enfrentar as dificuldades, voltou à África, desta vez dirigindo-se para a tribo de Creek Town.
     Viveu durante seis meses nesse povoado, até quando soube que o rei Eio, chefe da tribo Coiong, praticante da magia negra, a convidara para evangelizar sua tribo.
     Todos se opuseram à sua ida, alegando que aquela tribo não merecia confiança e que o convite era uma cilada. Mas ela não se impressionou, e, acompanhada de seis crianças e alguns carregadores, embarcou na canoa enviada pelo rei.
     Quando alcançaram a desembocadura de Equenque, a canoa foi abandonada, e, sob uma pesada chuva e o choro das crianças, iniciaram a jornada a pé, através de mais de uma légua de mata fechada.
     Sentindo no corpo as roupas encharcarem-se e os pés atolarem-se na lama, Maria avançava cantando trechos de hinos, a fim de encorajar as crianças. Mas em certos momentos era tão grande o seu cansaço que ela só conseguia pronunciar: "Pai, tem misericórda de mim!"
    Chegaram finalmente à tribo. Reinava ali um silêncio profundo. Maria gritou e dois escravos apareceram. Um deles acendeu o fogo e trouxe-lhe água, enquanto o outro correu com a notícia de que a "Mãe Branca" era chegada.
    É noite. Em uma área larga, no centro da tribo, há uma multidão de negros sentados, formando um grande círculo. As casas, distribuídas de modo a formar uma larga circunferência, erguem-se em volta dos ombros escuros. No centro da reunião há uma mesa coberta com uma toalha branca, e, em cima desta, acha-se aberta uma Bíblia.
     Quatro tochas presas a estacas se erguem de um lado e do outro da mesa. As chamas brilham nos rostos atentos. Junto à mesa há vários chefes sentados. E de pé, com os cabelos adquirindo tonalidade de ouro sob a vermelhidão das tochas, Maria Slessor prega ao maior ajuntamento de tribos negras já conseguido de uma só vez.
     O olhar azul contempla a multidão silenciosa e atenta. "Para alumiar os que estão no assento das trevas e na sombra da morte, para corrigir os nossos pés no caminho da paz" (Lucas 1.79), é o trecho lido naquela noite pelos lábios que ainda se abririam inúmeras vezes para pregar a Palavra da Vida.
     Maria Slessor viveu ainda muitos anos entre as tribos africanas. Através de sua voz, milhares de negros tomaram conhecimento de Jesus Cristo e milhares o aceitaram como o Salvador. Ela foi, depois de David Livingstone, a missionária que mais conduziu negros aos alvos caminhos da salvação.
     Em janeiro de 1915, cansada e ainda em plena África, ela foi ao encontro dAquele que, na grandiosidade do seu sacrifício, foi erguido no madeiro para constituir-se na esperança de todos os povos.

Jefferson Magno Costa

terça-feira, 10 de abril de 2012

O QUE SUSTENTA A TERRA NO ESPAÇO?


Jefferson Magno Costa
      Além de crerem em muitas tolices e infantilidades, as nações antigas, que tiveram o povo hebreu como peregrino, escravo e vizinho, faziam uso de diversas fantasias para explicar como a Terra permanece suspensa no espaço. 
     Os egípcios não a imaginavam de forma redonda (apesar de acreditarem que ela havia surgido de um ovo), e sim de forma plana e quadrada, com cinco gigantescos pilares sustentando-a, um em cada canto, e o quinto no meio. Uma nação, cuja arquitetura produziu as imensas e admiráveis pirâmides, jamais poderia admitir que a Terra não tivesse embaixo de si um alicerce sólido.
      Da mesma forma os gregos, com toda a sua evolução científica, artística e filosófica, não conseguiram explicar de maneira menos fantasiosa o modo como a Terra mantém-se suspensa no espaço.
       Diziam eles que um gigante chamado Atlas fora condenado por Zeus (o deus supremo dos gregos) a sustentar a Terra eternamente sobre os seus ombros, conforme os padeiros carregam cestos de pão – com a cabeça sempre curvada para frente. Porém, se alguém lembrasse de perguntar em que o gigante Atlas apoiava os seus pés, os gregos não sabiam responder, e mudavam de assunto.
      Os antigos hindus também faziam uso de uma explicação interessante, quando a conversa caía sobre esse tema. Diziam eles que a Terra estava apoiada sobre as costas de um imenso elefante. O elefante, por sua vez, estava apoiado no casco de uma grande tartaruga, e esta nadava nas águas de um imenso oceano cósmico, espacial.
      Diante de tantas explicações tolas, era de se esperar que a Bíblia tivesse sido afetada por tais crendices, pois os judeus viveram entre esses povos. Porém, quão grandiosamente acima dessas infantilidades estiveram os homens a quem Deus usou como escritores da Bíblia!
     Quão grandiosamente acima de todas essas fantasias estava o patriarca Jó quando escreveu, por volta do XVI Séculos a.C., sob a inspiração do Espírito Santo: “Ele (Deus) estende o norte sobre o vazio, e faz pairar a terra sobre o nada” (Jó 26.7).
      Nenhum cientista teria definição melhor para a invisível força da gravidade do que esta empregada por Jó. Mas como o velho patriarca veio a saber isto? Ele aprendeu com o maior físico do Universo: Deus!

Jefferson Magno Costa

terça-feira, 3 de abril de 2012

SADU SUNDAR SINGH, O APÓSTOLO DOS PÉS SANGRENTOS

Jefferson Magno Costa

 
Rampur, cidade da índia. É noite. Entre elevadas montanhas cobertas por verdejantes florestas, na planície estende-se a cidade. O vento que distante sopra sobre a face azul dos lagos suaviza ali as noites quentes de verão. Mas no inverno a chuva precipita-se generosamente sobre as árvores, as ruas, os telhados, tudo.
Naquela noite em Rampur, o frio era intenso. Reunido com um grupo de criados no pátio de sua mansão, ao redor de um pequeno fogo, o sardar Sher Singh conversava. Absorto, não percebia que na penumbra dois olhos escuros resplandeciam, contemplando-o. Era Sundar Singh, seu filho mais novo. Súbito, todos se voltaram.

DESTRUINDO A BÍBLIA DOS CRISTÃOS
Com os olhos fixos nas labaredas do fogo, o moço aproximou-se lentamente. Trazia nas mãos um livro. Quando se avizinhou de todos, furiosamente pôs-se a arrancar as páginas do livro e a arremessá-las nas chamas, bradando:

- Assim e assim destruo o livro dos estrangeiros, o livro de ensinamentos perversos que eles procuram obrigar-nos a aceitar. Odeio a todos eles.
A face amorenada do sardar, cuja nobre cabeça achava-se envolta por um turbante vermelho, foi tomada de ligeira contrariedade. Mas, não saindo de sua majestosa mansidão, fitou os olhos brilhantes e escuros do filho, semelhantes aos seus, e perguntou:
- Que está fazendo, meu filho?
- Estou queimando a Bíblia dos estrangeiros. Eles estão procurando fazer-me cristão, mas eu nunca o serei.
- Sundar Singh - replicou o pai, - isto é uma loucura. A Bíblia é um bom livro e os estrangeiros são bondosos, apesar de sua religião não ser a mesma que a nossa. Veja como eles lhe ensinam tão bem na escola!
- Eles me mandam ler a história do seu Cristo. Eu não quero. - Não é a nossa religião Sik a melhor do mundo? Não estão os nossos livros sagrados cheios dos mais retos ensinamentos? Não somos nós o povo mais antigo da Índia? Como ousam esses cristãos induzir-nos a sermos infiéis aos ensinamentos dos nossos antepassados?

O FILHO DO GOVERNADOR
Sher Singh era o governador de um dos três principais estados siks, da religião de Putiala, na Índia, cujo distrito tinha como centro Rampur.
Era de Rampur que o sardar governava um território de um milhão e meio de habitantes, cujo solo era constituído, em sua grande parte, de planícies cultivadas que se estendiam até as montanhas de Simla.
Foi nas dependências de sua mansão, entre jardins onde desabrochavam as mais belas flores da Índia Setentrional que, em 3 de setembro de 1889, nasceu Sundar Singh, o seu terceiro e último filho.
A mãe de Sundar Singh desde cedo procurou incutir no filho o sentido de religiosidade. Ensinou-lhe as orações que deveria fazer ao levantar-se, ao meio-dia, antes de dormir e nos momentos difíceis.
Lia para ele trechos do Gita, e quando ia visitar o velho sadu do bosque próximo, levava-o consigo. Assim cresceu Sundar Singh, nesse clima de intensa religiosidade. Aos sete anos sabia o Gita de cor. E muitas vezes, já adolescente, seu pai o surpreendia na madrugada, curvado junto à lâmpada de óleo, lendo, no silêncio da casa adormecida.
Diferente de seus dois irmãos, Sundar Singh não nascera com qualquer aptidão para a vida pública, e isso preocupava seriamente seu pai.
Ao contrário de sua mulher, que diariamente ia ao Gurdvara – templo sik - e se demorava mais em suas orações do que em qualquer outra atividade, o sardar era um homem prático, dedicado às coisas práticas.
Sua intenção era preparar os filhos para que o substituíssem no governo de Putiala. Mas Sundar Singh era anti-social ao extremo. Isolado sempre, empalidecia lendo e meditando muito.


"SENHOR, TENHO SEDE DE TI!"
- Meninos de sua idade só pensam em brincar e se divertir! – disse-lhe seu pai certa vez. - Como é possível ser tão dominado pela mania de religião? Mais tarde você terá tempo de sobra para pensar nisso. Sundar Singh permanecia calado. Seu irmão mais velho o criticava, apoiando o pai, e dizia: "Ele deve ter pegado essa mania da mamãe ou do velho sadu".
A mãe de Sundar era a única que o compreendia. Em suas orações sempre pedia que o seu filho mais novo permanecesse profundamente religioso.
Aos 14 anos de idade, uma ocorrência dolorosa fez Sundar Singh mais silencioso ainda: a morte de sua mãe encheu-o de amargura e o deixou duvidoso até da existência de Deus. Passou a visitar com mais frequência o bosque, para ouvir as palavras do sadu.
Mas a cada dia suas dúvidas aumentavam, sua revolta crescia, e o velho filósofo do bosque nada podia fazer por ele. Aos 15 anos já conhecia o Granth dos siks, o Corão, e cerca de 52 Upanishads. Mas não tinha paz.
- "Nem um instante penso viver sem ti, Senhor! Tenho tudo quando me sinto perto de ti, porque tu, Senhor, és o meu tesouro! Suspiro por ti, oh! Senhor! Tenho sede de ti. Somente em ti meu coração descansa".
Essas palavras lidas nos velhos livros, falavam de uma paz imperecível. Mas Sundar Singh não sabia onde encontrá-la.
- Meu filho, não percas tempo agora com estas coisas. Mais tarde conseguirás entendê-las; mais tarde... - dizia-lhe o velho Sher Singh.


"NÃO QUERO LER NADA SOBRE O DEUS DOS CRISTÃOS"
Em Rampur havia uma missão americana onde funcionava a Escola Presbiteriana. Dizia-se que os mestres da missão ensinavam bem. Não era aconselhável que um sik mantivesse contato com cristãos, porém, já que na cidade não havia escola melhor, o sardar resolvera matricular seu filho ali.
No primeiro dia de aula, após sentar-se no lugar que lhe indicaram, a primeira coisa que a professora deu a Sundar para ler foi o Novo Testamento.
Sundar Singh leu em silêncio o ponto assinalado: "Pai nosso que estás no céu, santificado seja o teu nome..." Parou. Avançou rapidamente mais algumas linhas e viu o nome de Cristo. Era o livro dos cristãos! Olhou com ódio para a professora e empurrou o Novo Testamento para longe, temendo o contato. 
- Leia - insistiu a professora.
- Por que o leria? Sou um sik e o meu livro sagrado é o Granth.
- Mas o que quero não é fazê-lo cristão. Você pode ler o Novo Testamento e continuar sendo um sik. Porém o regulamento desta escola exige que o livro-texto seja este.
Sundar saiu da sala de aula imediatamente. Quando o seu pai soube do caso, simplesmente deu-lhe dinheiro e o obrigou a comprar uma Bíblia. No outro dia, estava ele na sala de aula, pronto para acompanhar a leitura.
Mas a partir desse dia começou a odiar os cristãos. Zombava da Bíblia, não ia à aula, perseguia os colegas crentes, apedrejava as reuniões ao ar livre.


VISITADO POR JESUS
Todas estas reações culminaram naquele ato de rebeldia, quando diante de seu pai, furiosamente despedaçou a Bíblia e lançou suas páginas ao fogo.
Naquela noite de rigoroso inverno, ele se trancou em seu quarto, disposto a saber quem era aquele Cristo de quem tanto falavam, se existia realmente ou não. Se não obtivesse resposta, se suicidaria.
Já eram passados quase três dias, Sundar estava dobrado no chão, o rosto repousado no assoalho, quando uma voz lhe falou em perfeito hindustani:
- "Até quando me perseguirás? Eu vim para salvar-te. Oras para conhecer o Caminho. Por que não me segues?"
Sundar ergueu o rosto e olhou em volta, assustado, e murmurou:
- "Jesus Cristo não está morto, mas vive; Ele está aqui. Eu ouvi a sua voz! Eu ouvi a sua voz!"
É o próprio Sundar quem conta: "Caí aos seus pés e senti essa paz maravilhosa que não havia encontrado em outro lugar. Era essa paz que eu buscava. Aquilo era o próprio Céu! Quando me levantei, a visão tinha desaparecido, mas a paz e a alegria permaneceram comigo para sempre."
Quando saiu do quarto e contou o ocorrido a seus irmãos, eles o criticaram furiosamente:
- Estás louco. Que blasfêmia!
Mas o pai lhe disse com calma:
- Meu filho, tu não podes estar pensando nisso. Talvez estejas um pouco febril e tenhas sonhado. Há poucos dias destruíste uma Bíblia e juraste que odiavas os cristãos. Descansa, e isto logo passará.
- Eu não estou louco nem sonhei, meu pai - respondeu Sundar firmemente. - Fui louco, louco por ter lutado tão rudemente contra os ensinos de Jesus! Louco por pensar que tinha de procurar e achar Deus, quando em todo esse tempo Ele estava me procurando.
- Silêncio! - disse o sardar severamente. - Retira-te, não queremos mais ouvir isso.
- Meu pai, eu o obedecerei em tudo, exceto nisto!
- Retira-te! já disse. Ele curvou-se e saiu. O sardar comentou com os dois filhos:
- Isto passará. É apenas um delírio. Ele tem sido fiel à nossa religião e não a trocará por outra!


EXPULSO DA FAMÍLIA POR NÃO NEGAR A CRISTO
Mas o velho Sher Singh estava enganado. Seu filho cada dia se mostrava mais fervoroso, orando muito, lendo a Bíblia, falando do amor de Jesus dentro de casa, nas ruas, a qualquer pessoa que encontrasse.
O sardar reuniu então a família, e em presença de todos tentou obrigar Sundar a desistir de tudo aquilo que o havia modificado ultimamente.
Fez- lhe belas promessas, ofereceu-lhe dinheiro. Um tio riquíssimo, presente à reunião, prometeu-lhe que o faria seu herdeiro universal, caso Sundar Singh negasse aquele Jesus Cristo tão adverso à religião sik. Mas Sundar, diante da perplexidade de todos, respondeu:
- Eu não posso rejeitá-lo. Seguirei a Cristo por onde Ele me conduzir.
A ira incendiou a face de Sher Singh. E sob o silêncio de todos, o sardar falou:
- Pois eu, neste momento, em nome dos siks, em nome da família, destituo-te do meu testamento, declaro-te maldito, e proíbo-te de continuares mais um minuto que seja em nossa presença e sob este teto!


EM TREINAMENTO NA ESCOLA DA MORTE E DA VIDA
Antes de deixar a casa, Sundar Sing pegou sua Bíblia, algumas frutas e saiu para enfrentar os rigores da noite. Procurou, depois de andar algumas horas, um abrigo onde pudesse descansar.
Só encontrou uma árvore. Ali acomodou-se como pôde e adormeceu. Pela madrugada acordou sentindo dores insuportáveis no estômago. As frutas que comera! Eles as
haviam envenenado! Preferiam matá-lo a vê-lo manchar o nome da família.
Com dificuldade, levantou-se. Apesar do frio intensíssimo, um calor queimava-lhe o rosto e calafrios percorriam-lhe todo o corpo. Precisava chegar à missão americana.
Eles tinham medicamentos e o ajudariam. Tentou andar, caiu; levantou-se e saiu cambaleando novamente. Quando caiu inconsciente à soleira da porta da missão, não viu que quatro mãos
cristãs o levaram para dentro.
Três anos depois, Sundar Singh era um jovem alto, majestoso, de barba escura e olhos admiráveis. Estudara durante esse tempo na escola da missão. Naquele momento conversava com o diretor:
- Irei para o meu próprio povo. Vestirei um hábito de sadu (em hindi significa puro, reto), e sairei, como o meu Mestre fez, pregando o Evangelho em todas as cidades e vilas. Ao ver-me nesses trajes eles sentirão que lhes pertenço, que sou justamente um deles, e estarão mais prontos a escutar- me do que se eu usar um casaco preto, um colarinho duro e sapatos.


MISSIONÁRIO ENTRE O SEU POVO
E assim, usando hábito de sadu indiano, e com os pés descalços, Sundar Singh caminhou para Rampur. Quando Sher Singh soube que seu filho pregava na praça, diante de um ajuntamento de curiosos, correu para vê-lo.
Mas Sundar Singh já desaparecera, rumo à aldeia seguinte. Apenas pôde distinguir as marcas dos pés de seu filho, curiosamente impressas no pó. Era fácil identificá-las. Estranhos sinais escuros as diferenciavam das outras. Olhou com cuidado: os pés de seu filho sangravam!
Sundar Singh atravessou todo o Pun-jab, caminhou através das montanhas de Cachemir, atravessou florestas, cruzou o Beluquistão, dormiu em cabanas de pastores e atingiu Jallallabd, sempre falando de Jesus Cristo, o seu Mestre e Salvador.
Cruzou o Indus, viu as planícies de arrozais sem fim, penetrou em Putiala e foi deter-se em Kotgar. Depois rumou para o Himalaia.
Envoltos em nuvens, sob neves eternas e cobertos de gelo, os picos do Himalaia erguem-se para o céu. Bancos de neve ocultam precipícios e vales profundos.
Soprando sobre florestas de ciprestes e coníferas, o intenso vento fere como a ponta de um chicote. Há riscos constantes e tremendos nas subidas das serras; serras tão íngremes que muitas vezes forçavam Sundar Singh a caminhar lentamente, apoiando-se nas encostas para não cair; as mãos dormentes de frio, os pés sangrando.
Há gargantas abissais que se abrem para tragar o viajante, e o perigo do sono sobre a neve. O Himalaia foi o maior desafio na vida de Sundar Singh, pois, para além de suas montanhas de gelo, o budismo domina o Tibete, e naquele país, os lamas são autoridades absolutas e não admitem que forasteiro algum fale de outra religião em seu território.
Mas Sundar Singh foi, mas Sundar Singh cruzou o Himalaia, chegou ao Tibete, levou Cristo a cada cidade, a cada povoado, de aldeia em aldeia, de cabana em cabana; falou de Cristo até ao próprio Lama.
Foi preso, passou três dias no "vale da sombra da morte". Alguém o libertou misteriosamente e ele continuou a pregar. Levado novamente à presença do Lama, foi ameaçado de morte e expulso. Saiu de Tibete, mas saiu pregando, sempre pregando, falando do amor de Jesus Cristo e prometendo voltar.


ULTRAPASSANDO FRONTEIRAS PARA ANUNCIAR A SALVAÇÃO OFERECIDA POR JESUS CRISTO
Certa vez passou dez dias em total jejum, orando. Encontraram-no inconsciente. Socorreram-no. Mas a partir daquele dia, o poder do Espírito Santo desceu sobre ele e o induziu a pregar em todas as igrejas do mundo.
A Igreja do Sul da Índia o convidou. Ele foi e chegou a falar para 32 mil pessoas de uma só vez. De lá foi à Birmânia. Da Birmânia subiu à China. Da China passou ao Japão.
A Igreja do Ocidente queria ouvi-lo. Ele visitou- a. Foi à Inglaterra e depois à Holanda. Em Haia a elite cultural o ouviu pregar. Em Estocolmo hospedou-o o príncipe Oscar, irmão do rei. Todos queriam vê-lo e ouvi-lo. Tornara-se uma personalidade mundialmente famosa. Chegou a pregar para duzentos pastores em um só culto.


O HOMEM QUE PARECIA COM JESUS 
Sua bondade, suas vestes longas, sua face amorenada, seus olhos brilhantes faziam-no parecer o próprio Jesus em visita a todas as igrejas do mundo.
Certa vez, na Inglaterra, prometeu visitar uma senhora, esposa de um homem ilustre. À hora marcada tocou a campainha da casa onde o esperavam. Atendeu-o uma empregada, vinda poucos dias antes da aldeia. O sadu deu seu nome e ela correu à patroa:
- Lá fora está um homem procurando a senhora. O nome é uma embrulhada que não se entende, mas o jeito dele faz pensar que bem pode ser o próprio Jesus!
Quando soube que seu pai se convertera, voltou à índia e ficou em sua casa alguns dias, em repouso. Mas seu coração estava sempre voltado para o Tibete. Dias depois, tentou novamente voltar àquele país, porém perdeu-se no caminho.
A neve ofuscante quase o cegou e ele voltou para casa, doente. Restabelecido, tentou outra vez. Caiu no meio do caminho e foi trazido novamente para casa, por viajantes tibetanos, quase morto.
O médico proibiu-o de fazer qualquer viagem. Ele passou a escrever, a orar e a meditar, passeando no jardim de sua grande casa.
Mas os frios ventos que sopravam no norte, vindos diretamente dos campos de neve do Himalaia, pareciam um gemido, uma súplica, pedindo-lhe que avançasse, pedindo- lhe que fosse novamente levar a Palavra de Cristo ao povo do Tibete. Em uma das rotineiras visitas do seu médico, Sundar Singh disse-lhe:
- Não posso enfraquecer o espírito com esta vida aqui. Devo dar-lhe uma explicação mais completa, doutor: afinal de contas, por que apegar-me-ia eu à vida? Estou bastante forte para viajar de novo e, se necessário, morrer por Jesus.
O médico nada pôde fazer para que ele desistisse daquela viagem.
- Voltarei de novo no outono, se tudo for bem, disse ele, ao se despedir.


DESAPARECIDO NO HIMALAIA
E foi. E nunca mais voltou. Não encontraram o seu corpo em parte alguma. Não houve notícia de que tenha cruzado com algum viajante ou que tivesse passado em algum lugarejo. E provável que o Himalaia seja hoje a sua sepultura.
Sobre o gelo, sangue: pés feridos em caminhos de brancura, rasgando o alvor da neve. A noite, o frio, o vento, a solidão, o gelo, o gelo, o gelo...
Rubros de sangue, violentados pelos climas glaciais, sobre as montanhas os pés de Sundar Singh deixaram um rastro vermelho, um doloroso rastro de sacrifício pelo Evangelho, testemunho vivo dos caminhos de luz que conduzem a Jesus Cristo e às Planícies da Paz.
Ó vós que na Índia, sobre o Himalaia, no Tibete ou em qualquer outro vale de escuridão, trilhais os caminhos da morte... ouvi a voz desse que clamou sobre as montanhas, entre os viajores, nas aldeias, nas cidades, nos continentes, anunciando a Redenção.
 Aquela voz que se perdeu entre os abismos frios; aqueles pés sangrentos que pela última vez pisaram a face da neve, vê-los-emos nas ruas da Jerusalém eterna, no dia em que, entre glórias e hosanas, contemplarmos no Céu a majestosa e serena face de Cristo!
Jefferson Magno Costa

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