quinta-feira, 31 de março de 2011

ASSEMBLEIA DE DEUS EM NATAL, SEDE DA PRIMEIRA CONVENÇÃO


Jefferson Magno Costa    
     (Reportagem realizada por mim em maio 1984 para o jornal MENSAGEIRO DA PAZ, e republicada neste blog como contribuição histórica ao Centenário das Assembleias de Deus no Brasil).    
     Sob os ventos alísios, às margens do rio Potengi e entre coqueiros que circundam a orla marítima, nasceu a cidade de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte. A cidade que em 1930 seria o berço da primeira Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil, e sede de uma poderosa igreja Assembleia de Deus, cresceu celebrando em seu nome e em sua história a festa magna do Cristianismo: o Natal do Menino Jesus.
     Com suas muralhas constantemente beijadas pelas ondas do Oceano Atlântico, desde o ano de 1598 o forte dos Reis Magos – como uma grande estrela do mar – viu a Cidade de Natal crescer entre as grandes plantações de cajueiro (o maior cajueiro do mundo encontra-se na praia de Pirangi, arredores de Natal), avançar sobre as dunas de areia finíssima, e estender-se pelas margens do Rio Potengi – o rio em cujas águas Adriano Nobre batizou, em 1918, os primeiros novos convertidos ao Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, naquela região.
     O grande historiador, etnólogo e folclorista norte-riograndense Luis da Câmara Cascudo escreveu que “a cidade do Natal é uma perspectiva indefinida. Sentimos que, tendo vida, está na fase de um crescimento progressivo, diário...” Este crescimento vem sendo observado na igreja Assembleia de Deus norte-riograndense.
     A Primeira Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil foi realizada na Capital do Estado do Rio Grande do Norte, e caracterizou-se pela ocorrência de dois grandes fatos de extrema importância na história das Assembleias de Deus brasileiras: a transferência da responsabilidade da Obra desenvolvida pelos missionários suecos no Norte e Nordeste do Brasil para Obreiros nacionais, e a extinção dos jornais Boa Semente e Som Alegre, que foram substituídos pelo Órgão Oficial das Assembleias de Deus no Brasil: o MENSAGEIRO DA PAZ.
     Após 20 anos de trabalho e lutas em meio a enormes regiões de difícil acesso, após percorrerem grandes distâncias, contraírem doenças, enfrentarem animais ferozes, desbravarem selvas, alcançarem povoados longínquos, sofrerem humilhações, ingratidões e até apedrejamentos, os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren concluíram que era chegada a hora de passarem às mãos de seus filhos na fé – os Obreiros nacionais – a Obra iniciada no Norte e Nordeste brasileiros, e se mudarem para o Sul e Sudeste do país, a fim de ali abrirem novas frentes de trabalho.
     No ano em que Daniel Berg e Gunnar Vingren chegaram ao Brasil – 1910 – a varíola cobria Natal de luto. Em seguida veio a epidemia de malária. Em 1930, ano da Primeira Convenção Geral, 40% da população de Natal sofria de febres e impaludismo. (O pastor Levi Pethrus, que veio da Europa especialmente para participar da Primeira Convenção, ficou hospedado em um bairro de Natal onde havia cerca de 1.500 vítimas da malária.)
     Zelosos pela Obra do Senhor, e confiantes em sua proteção, os homens de Deus vieram do Exterior e de vários pontos do Brasil, atendendo a convocação para participarem de uma das mais importantes convenções da História das Assembleias de Deus neste país. E nenhum mal atingiu qualquer um deles!
    Além do pastor Lews Pethrus, chegaram a Natal os missionários Gunnar Vingren, Daniel Berg, Otto Nelson, Joel Carlson, Nels Nelson, Samuel Nystrom e mais 16 pastores nacionais, que foram hospedados e ficaram sob a liderança do pastor Francisco Gonzaga da Silva.
     E assim, na cidade que cresceu diante do mar, onde jangadas de velas brancas riscam as ondas, partindo para a pesca; no bairro do Alecrim, “com suas ruas retangulares, sua extensão em claridade, sua possibilidade de desdobração” (no dizer de Luís da Câmara Cascudo), as Assembleias de Deus no Estado do Rio Grande do Norte  delinearam-se inconfundivelmente, impulsionadas pelo poder do Espírito Santo e conduzidas por mãos marcadas pelo trabalho, joelhos calejados na oração e corações sofridos, mas cheios de fé - as mãos, os joelhos e os corações dos pioneiros na colocação dos marcos da igreja que cresce no Estado Norte-riograndense e em todo o Brasil sob o poder de Deus.

JOVENS CONDUZINDO TOCHAS ACESAS
     A mocidade da Assembleia de Deus em Natal tem-se organizado no desempenho de atividades evangelísticas, e vem realizando um trabalho de longo alcance em diversos setores de sua área de ação. Os jovens do templo-sede foram divididos em 20 grupos (cada grupo é composto de dez rapazes e moças), e passaram a cooperar nas congregações mais carentes, ajudando os irmãos na distribuição de literatura, e no evangelismo pessoal de casa em casa.
     O líder da mocidade da Assembleia de Deus em Natal, pastor Elinaldo Renovato de Lima – que é também diretor da ESTEADEB, RN (Escola Teológica das Assembleias de Deus no Brasil) -, seguindo a orientação de Deus, direcionou o trabalho de evangelismo da mocidade para o setor estudantil, e hoje 38 colégios já foram alcançados pela Palavra de Deus.
     Após estabelecer-se um contato com a direção do colégio, consegue-se uma sala ou um auditório, e ali é realizado um culto, onde a Palavra de Deus é pregada, são entoados alguns hinos e efetuada a distribuição de folhetos. Em seguida faz-se o apelo. Muitos jovens têm aceitado Jesus Cristo como seu Salvador.
     Falando acerca das atividades desenvolvidas pelos jovens da AD em Natal, o pastor João Batista da Silva declarou que “Deus tem despertado a mocidade desta igreja para a obra de evangelização. Algum tempo atrás, o diretor do hospital Walfredo Gurgel – o mais concorrido dos hospitais de Natal – nos convidou a realizar cultos em um salão que antes estava sendo usado para a celebração de missa. Devido a falta de assiduidade do padre, o diretor do hospital concluiu que os pacientes não poderiam continuar sem assistência religiosa, e, através do irmão Lázaro, que é médico e membro desta igreja, viemos a saber que o salão nos fora franqueado. A mocidade passou então a realizar cultos ali. Hoje, já temos uns 60 crentes, e o Senhor já batizou um deles com o Espírito Santo”.
     Todos os domingos, das 14 às 17 horas, enquanto 17 grupos de jovens evangelizam, os três restantes reúnem-se no templo-sede, cumprindo uma espécie de revezamento dominical. Essas reuniões, sob a liderança do pastor Elinaldo Renovato de Lima, vêm sendo realizadas há quase dez anos.
     No decorrer das reuniões, os jovens ouvem mensagens, dão testemunhos, participam de estudos da Palavra de Deus, recebem orientação acerca de inúmeros problemas que afetam a mocidade evangélica, e dão um relatório das atividades desenvolvidas nas áreas de evangelização. São mais de 200 jovens empenhados em difundir a Palavra de Deus. Jovens que conduzem em seus lábios, em suas mãos e em seus corações, as tochas acesas do amor, da fé e do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
     A igreja Assembleia de Deus em Natal possui, em seu corpo de membros, um considerável número de irmãos detentores de diplomas de curso superior. Entre os 1800 membros que cultuam a Deus no templo-sede, há cerca de 15 professores universitários, dezenas de professores secundários, alguns arquitetos, engenheiros (a planta e os aspectos arquitetônicos do novo templo estão aos cuidados desses irmãos), advogados, médicos e dezenas de militares, entre eles, vários oficiais.
     Trabalhando nos hospitais de Natal, existem oito médicos, membros da Assembléia de Deus, que aliam o exercício profissional ao poder confortador e transformador da Palavra de Deus, evangelizando os doentes e seus colegas de profissão.

A CIDADE QUE EMERGIU DAS TREVAS PARA A LUZ
     Em Natal, quatro anos após a chegada de algumas famílias de evangélicos vindas de Belém, realizou-se o primeiro culto público dirigido por pentecostais, na humilde Rua do Arame, em 24 de maio de 1918. Naquela noite a cidade de Natal emergia das trevas para a luz. Era a grande vitória alcançada pelos irmãos que até então se reuniam no interior de suas casas. Adriano Nobre os liderava.
     A partir daquela data, aqueles irmãos iniciaram um trabalho que conta hoje com cerca de 35.000 membros em todo o Estado (o equivalente à população de Natal em 1930, quando foi realizada a primeira convenção), 41 igrejas na capital e 170 no interior, onde são realizados 400 cultos públicos semanais e 200 reuniões de oração, dispondo de um ministério composto de 23 pastores, 46 evangelista e 174 presbíteros, diáconos e auxiliares.
     Após o ano de 1918, os semeadores saíram a semear a Palavra de Deus, e o Evangelho foi conquistando os arrabaldes pobres, as ruas que já se estendiam em todos os sentidos, alcançando os bairros distantes, galgando as dunas, avançando sempre. Enfrentando as dificuldades, os semeadores da Palavras de Deus cumpriam o mandamento bíblico de levar o Pão divino a quem tinha fome, e dar de beber da Água da Vida a quem tinha sede.
     Tempos depois o irmão José Morais alugou uma casa na Rua América, passando a funcionar ali a sede da AD em Natal. Em seguida José Morais foi substituído por Josino Galvão, e este por Manoel Higino, que por sua vez foi substituído pelo missionário Bruno Skolimowski. Este último edificou o primeiro templo da AD em Natal, na Rua Amaro Barreto, 40.
     Em 1930, sob a direção do pastor Francisco Gonzaga da Silva, a Igreja Assembleia de Deus em Natal hospedou a Primeira Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil.
     O crescimento da Obra levou o pastor Gonzaga a iniciar a construção de um novo templo, cujas dimensões demandavam recursos aparentemente impossíveis de ser conseguidos pela igreja daquela época, mas Deus havia colocado no coração dos irmãos uma fé que desconhecia limites. Com os corações voltados para o Rei do Universo, os irmãos venceram as dificuldades, e finalmente, no dia 24 de janeiro de 1937 foi inaugurado, na Rua Manoel Miranda, 1425, Alecrim, o templo-sede da Assembleia de Deus em Natal.
     Sucedendo o pastor Francisco Gonzaga da Silva, o pastor Clímaco Bueno Aza assumiu temporariamente a direção da AD em Natal. Depois dele, Manoel Rodrigues de Menezes, Eugênio Pires e João Batista da Silva foram os pastores designados por Deus para levarem avante um trabalho que suplantou as dunas constantemente tangidas pelo vento, e, superior ao vôo das garças que se reunem em bandos nas margens do Rio Potengi, atingiu aos 151 Municípios do Estado do Rio Grande do Norte.
     O pastor João Batista da Silva (que está para completar 51 anos no exercício de cargos ministeriais na Obra de Deus), falando ao MENSAGEIRO DA PAZ, definiu a prioridade que tem norteado o trabalho da Assembleia de Deus no Estado do Rio Grande do Norte: a evangelização.
     “Quando eu aqui cheguei, orei a Deus pedindo-lhe que me revelasse o que de mais importante eu poderia fazer neste campo de trabalho. E o Senhor disse: evangeliza o Estado. Naquele tempo a Assembleia de Deus em Natal não tinha ainda iniciado trabalho na maioria dos municípios do Estado, e os Obreiros eram muito poucos. Hoje, pela graça de Deus, temos trabalho em todos os 151 municípios. É certo que não temos ainda um Obreiro em cada município, pois há irmãos que trabalham em dois ou três municípios.”
     Hoje, cerca de mil novos componentes da grande família de Deus são batizados por ano. Ano passado, 500 irmãos foram batizados com o Espírito Santo. Nos 41 templos da igreja Assembleia de Deus em Natal, há oito mil alunos matriculados na Escola Dominical, que recebem o ensino da Palavra de Deus ministrado por 503 professores. Os trabalhos contam também com a participação de duas bandas de música, 20 corais e cerca de 200 conjuntos musicais.
     Movidas por um grande propósito espiritual, por uma incansável dedicação em buscar a face do Senhor, as irmãs do Círculo de Oração de Natal unem suas vozes conjuntamente com as irmãs dos Estados vizinhos, e, com perseverança e fé, elevam suas súplicas ao Senhor. O trabalho que surgiu na cidade das 28 pontes, “a Veneza Brasileira” – Recife – irradiou-se por todo o Nordeste, e tem alcançado todo o Brasil.
     A irmã Maria Anita Batista da Silva, esposa do pastor João Batista da Silva, é a dirigente geral dos Círculos de Oração da AD em Natal. À frente de um desses trabalhos encontra-se a irmã Maria de Lourdes Costa, muita conhecida como "irmã Maria Pedro", de 84 anos, a dirigente mais idosa entre as dirigentes dos Círculos de Oração das ADs no Brasil (e minha avó paterna). 
     As Assembléias de Deus no Brasil surgiram como um milagre da fé, e só a fé explica seu atual crescimento. Acerca deste fenômeno, assim se expressou o pastor João Batista da Silva: “Estamos vendo hoje a operação direta de Deus sobre sua Igreja. Nós oramos, buscamos constantemente ao Senhor, não nos entregamos a lamentações nem falamos mal do governo, e essa atitude tem sido agradável ao coração de Deus. Por isso Ele nos tem abençoado.”
     Dentro do forte do Reis Magos, no interior de suas muralhas erguidas diante do inconfundível azul dos mares nordestinos, no meio da praça nobre das armas, há um poço que surgiu dentro dos arrecifes. Quando os holandeses chegaram ali, ficaram admirados diante daquele fenômeno curioso: água doce no meio de água salgada.
     Assim é o povo das Assembleias de Deus em Natal, no Nordeste e no Brasil: água doce em meio a água salgada – água brotada dentre as rochas da incredulidade, e purificada pela doçura da Palavra de Deus. 

Jefferson Magno Costa

quarta-feira, 30 de março de 2011

ASSEMBLEIA DE DEUS NA BAHIA: RESGATANDO VIDAS E ASTEANDO A BANDEIRA ENSANGUENTADA DE CRISTO EM TERRITÓRIOS QUE ANTES FORAM DECLARADOS DE SATANÁS

Jefferson Magno Costa
      (Reportagem realizada em maio 1984 para o jornal MENSAGEIRO DA PAZ, e republicada neste blog como contribuição histórica sobre o Centenário das Assembleias de Deus no Brasil).

     A expansão e consolidação das Igrejas Assembléias de Deus no Brasil ocorreram a partir da propagação da chama pentecostal trazida pelos missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren. O batismo com o Espírito Santo e o falar em outras línguas passaram a ser a marca registrada das Assembleias de Deus.
     Pregando o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo e fazendo novos discípulos, os missionários suecos foram pouco a pouco acendendo, em meio à vastidão das terras brasileiras, os luminares da salvação.
      O Movimento Pentecostal se apossou de regiões espiritualmente áridas e incultas, e templos foram sendo erguidos – como tochas acesas ao longo do caminho que conduz à Jerusalém eterna.
     Porém, como observou o escritor Emílio Conde, paralelamente a esse crescimento, “cresceram também os problemas que só o Espírito Santo podia solucionar. Cresceram os ataques de Satanás à Igreja de Cristo; cresceram os perigos para o grande exército divino, mas cresceu também o cuidado de Deus para com o seu povo, cresceu a vigilância do Espírito Santo sobre a Seara que se estende em todas as direções, cresceu e agigantou-se a vitória da causa de Cristo.
     “O Espírito Santo tem sido o responsável por todo esse progresso. Sua direção é manifestada, e o trabalho efetuado não pode ser atribuído à vontade exclusiva dos homens que foram usados nessa gigantesca Obra que atualmente está presente em todo o Brasil. Um movimento que desde o seu início foi combatido, odiado, desprezado, caluniado, desfigurado e excomungado, para alcançar o prestígio e a admiração que hoje desfruta, não pode ser movido por ideias e forças humanas, mas o próprio Deus é o centro de atração que o inspira e eleva”.

     A PODEROSA TRAJETÓRIA DO EVANGELHO EM SALVADOR
     Na cidade de Salvador, BA, na mais antiga metrópole e primeira Capital do Brasil, o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo tem florescido por entre as ruas históricas da Cidade Alta e da Cidade Baixa, sendo pregado por homens e mulheres simples e humildes, cujos pés caminham sobre as pedras irregulares de sinuosas ruas e ladeiras – as mesmas pedras outrora pisadas pelos governadores-gerais e pelos nobres, pela gente simples e pelos escravos: pedras que guardem o eco de um Brasil já extinto.
     Na história da implantação do Evangelho em Salvador, memorável foi a noite do dia 27 de maio de 1930, quando, na residência do missionário Otto Nelson, na Rua Carlos Gomes, 402, realizou-se o culto de fundação da primeira Igreja Assembléia de Deus nessa que já foi conhecida como “a cidade d’El Rei”.
     Nas mesmas terras onde, há mais de 400 anos, foram pronunciadas aos ouvidos dos indígenas as primeiras palavras de um idioma desconhecido, a Palavra de Deus foi poderosamente anunciada de forma clara e perfeitamente inteligível.
     Nas casas que se estendem na orla do mesmo mar onde foi escrito o primeiro documento histórico sobre o Brasil – esse imenso mar de onde os índios viram inesperadamente surgir estranhos navios de velas brancas e altas -, vozes resgatadas por Jesus Cristo passaram a entoar louvores de gratidão a Deus.
     Na cidade que surgiu do meio das matas pontilhadas de tabas, do meio da selva de árvores beijadas pela brisa marinha, a Palavra de Deus foi semeada e regada pelas orações dos salvos e reunidos pelo sangue de Jesus Cristo.
     E foi então que as hostes de Satanás passaram a ser poderosamente atacadas pelo Evangelho. A partir de 1930, Salvador – que é conhecida também como a capital dos cultos afro-brasileiros – tem ouvido palavras de esperança e salvação pronunciadas pelo grande número de salvos na pessoa de Jesus.
     A Congregação que começou louvando ao Senhor na Rua Carlos Gomes, prosseguiu glorificando a Deus na Rua dos Capitães, 43, na Rua Dr. Seabra, 75, e depois na Ladeira do Boqueirão, nº 7.
     Quando, a 17 de agosto de 1941, o templo da Rua Lima e Silva, no Bairro da Liberdade, foi inaugurado, grande parte da população de Salvador já havia se conscientizado de que entre eles vivia um povo diferente – um povo que cantava, orava e pregava o Evangelho a toda e qualquer pessoa, inclusive a bêbados, capoeiristas e malandros.
     O crescimento da obra de Deus na cidade de Salvador levou o missionário Otto Nelson e evangelizar também o interior do Estado da Bahia.
     Porém, desde 1926, os nomes de Joaquina de Souza Carvalho, Teodoro Santana e João Pedro eram conhecidos em alguns municípios baianos. Eles haviam crido e pregado sobre o batismo com o Espírito Santo, e, através deles e dos irmãos Catarino Varjão e Silvério Campos, o trabalho pentecostal se expandiu pouco a pouco na terra de Castro Alves e Rui Barbosa.
     Durante seis anos o irmão Otto Nelson serviu ao Senhor no Estado da Bahia, tendo presidido, em 27 de abril de 1936, a primeira Convenção Estadual. Tempos depois viajou para a Suécia, sendo substituído por Aldor Peterson.
     Em março de 1940, no decorrer da realização da Primeira Semana Bíblica, João de Oliveira foi recebido em Salvador como pastor auxiliar. Nesse mesmo ano realizou-se mais uma Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil. Em junho de 1943, durante a realização de uma Escola Bíblica presidida pelo missionário Nels Nelson, a Assembleia de Deus em Salvador teve a sua primeira grande experiência com a literatura produzida na CPAD: foram distribuídos na cidade 100 mil folhetos, alem de centenas de exemplares do jornal MENSAGEIRO DA PAZ.
     Em janeiro de 1950, o missionário Aldor Peterson foi substituído pelo pastor João Batista da Silva. O trabalho no interior do Estado há muito vinha contando com o inestimável apoio e orientação do missionário Eurico Bergstén, que ainda hoje, após muitos anos de dedicação à Obra de Deus no Brasil, presta relevantes serviços às Assembleias de Deus.
     Quando, em 1960, o pastor Rodrigo Silva Santana assumiu a presidência da Assembleia de Deus no Estado da Bahia, em diversos pontos da cidade de Salvador passou-se a ser visto um número cada vez maior de homens e mulheres purificados pelo sangue de Cristo e revestidos do Espírito de Deus, a pregar o Evangelho no interior de templos e congregações, e nas ruas.
     E então a cidade de Salvador, com suas esplêndidas construções do período colonial, tornou-se ainda mais bela. (O templo da AD em Ladeira do Boqueirão, fundado por Otto Nelson, reflete esse período.) Os bairros, avenidas, ruas e pontos históricos de Salvador passaram a ser habitados e transitados por um povo que tem em Jesus o centro e a razão de suas vidas.
     Hoje, é comum os transeuntes depararam-se com um ou vários crentes (a caminho da igreja, indo ou vindo do trabalho, do comércio, da evangelização) transitando próximo ao Largo do Pelourinho, da Praça da Sé, do Elevador Lacerda, do Mercado Modelo (três vezes incendiado, três vezes reconstruído), da Ladeira do Tabuão, da Feira de Água dos Meninos, da Baixa do Sapateiro, do Bairro da Liberdade, do Largo das Sete Portas, e outros – o grande exército de Deus que prega o Evangelho aos prisioneiros da agonia da noite espiritual que há séculos se abateu sobre a cidade de Salvador.
     São 25 mil membros da Assembleia de Deus da capital, que em 104 congregações elevam suas súplicas e seus cânticos de adoração ao Deus Todo-poderoso, Àquele que venceu a Satanás e retém em suas mãos as chaves da morte e do inferno.

CRESCENDO E LIBERTANDO OS CATIVOS
     A cidade de Salvador é marcada por um catolicismo tradicional (existem, em toda a cidade, cerca de 365 igrejas católicas – “grávidas de ouro”, na expressão de Jorge Amado), e pelo grande número de praticantes do candomblé e da umbanda, porém, na capital da Escravidão Espiritual, o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo está quebrando as cadeias satânicas, instaurando o reinado da luz na Cidade Negra da Bahia, lançando as sementes de salvação e paz em meio às avenidas e ruas onde a miséria e a dor são comuns, estampando-se entre arranha-céus e casas coloniais.
     O sertão baiano também tem sofrido terrivelmente a influência da idolatria. Neste aspecto, as cidades de Monte Santo e Bom Jesus da Lapa são os pontos mais críticos do Estado da Bahia. Porém, segundo o pastor Rodrigo Santana, em Bom Jesus da Lapa há um grande trabalho da Assembleia de Deus de Salvador.
     Recentemente, o MENSAGEIRO DA PAZ noticiou que, em Paratinga, BA, o padre daquela região proibira o sepultamento de crentes no cemitério local. (O corpo de um irmão ficou insepulto e exposto na praça durante 52 horas.) A notícia repercutiu nas principais cidades do país, despertando a atenção de políticos e o interesse da imprensa secular.
      Uma caravana composta de quatro ônibus transportou 170 crentes da AD em Salvador, que ralizaram em Paratinga uma série de cultos evangelísticos, distribuíram mais de dez mil folhetos evangélicos e 300 exemplares do MENSAGEIRO DA PAZ que noticiara a perseguição de crentes. Houve 48 decisões por Cristo naquela localidade. Na ocasião, o padre confessou-se arrependido do que fizera, mas as autoridades solicitaram o seu afastamento daquela paróquia.
     O pastor Rodrigo Silva Santana, falando ao MENSAGEIRO DA PAZ, tornou a salientar que “aqui no Estado da Bahia, o Evangelho continua triunfando, porque o Evangelho é poder de Deus, e toda e qualquer força que se levantar contra ele, só tem a perder na batalha, porque a vitória é nossa em Cristo Jesus”.
     Em todo o Estado da Bahia, são 80 mil almas salvas e remidas pelo sangue de Jesus, que se reúnem em 267 igrejas. O pastor Rodrigo é assessorado por 150 pastores e evangelistas, 1500 presbíteros e 2000 diáconos. Em todo o Estado são realizados cerca de 5344 cultos públicos semanais, e reuniões de oração e doutrina. Na capital, a igreja realiza, anualmente, cerca de 2000 batismos – aproximadamente 5000 em todo o Estado. Ano passado (1983), 1200 irmãos foram batizados com o Espírito Santo.
     O Departamento de Escola Dominical é um dos maiores, dentre as igrejas Assembleias de Deus do Nordeste. Ano passado foram matriculados 12.696 alunos. Os trabalhos contaram com 5433 visitantes, e o ensino foi ministrado por 712 professores.
     O Departamento de Louvor da Assembleia de Deus no Estado da Bahia conta com sete bandas de música, 4500 corais e cerca de 2000 conjuntos.
     A mocidade da Assembleia de Deus em Salvador está firme e constante na Obra do Senhor Jesus. A irmã Ivonilde Buarque de Gusmão Bergstén – coordenadora do Deptº Infantil da AD em Salvador – declarou ao MENSAGEIRO DA PAZ que todos os bairros nobres de Salvador foram evangelizados pela mocidade, numa operação que envolveu dezenas de jovens, quando foram distribuídos milhares de folhetos evangélicos. “As pessoas ricas de Salvador têm ido para o candomblé ou para os terreiros de umbanda, pois eles não querem sair lá do Bairro da Graça, da Pituba e outros, para vir assistir a um culto aqui no Bairro da Liberdade. Porém, se eles não vêm a nós, nós iremos a eles”, declarou a irmã Ivonilde.
    Acerca desse trabalho, comentou o pastor Rodrigo: “Nós damos graças a Deus porque o Evangelho tem penetrado não só na classe humilde e na classe média de Salvador, mas já começa a penetrar na alta classe, e nós estamos fazendo tudo para organizar congregações nos chamados bairros nobres, com o intuito de ali divulgarmos a Palavra de Deus, pois sabemos que as pessoas da alta classe têm alma e precisam de salvação, e só há salvação em Cristo Jesus”.
     Recentemente a igreja realizou, no Ginásio de Esportes Balbininho, sob a presidência do pastor Rodrigo Santana, o XII Congresso da Mocidade do Estado da Bahia, que desenvolveu o tema: “Jovens sem medo em dias escuros”. A mensagem de Deus foi entregue pelo evangelista Gilvan Rodrigues (que pregou em todas as noites e ministrou estudos bíblicos), pelo pastor Abraão de Almeida (que falou sobre Israel e as profecias) e o pastor Jabes Alencar.

     As mensagens evangelísticas tiveram como tema: A Segunda Vinda de Cristo; Cristo, o único poder; A verdadeira paz, e O poder do Sangue de Jesus. Cerca de 300 pessoas se decidiram por Cristo, e diversos irmãos foram batizados com o Espírito Santo. Dentre as pessoas que aceitaram a Cristo como Salvador estava uma jovem que planejava suicidar-se na noite em que Deus a levou para ouvir a sua Palavra.
     O Governador do Estado, João Durval Carneiro, foi representado pelo seu acessor. Estiveram presentes Obreiros e irmãos de diversos municípios de Bahia, além de um coral jovem de 300 vozes, bandas de música, conjuntos musicais e cantores.
     Em termos de assistência social, a SOBAD - Sociedade Beneficiente da Assembléia de Deus – tem socorrido milhares de irmãos necessitados, prestando um relevante serviço à comunidade evangélica de Salvador.
     A igreja tem tido sempre um bom relacionamento com os sucessivos governos do Estado. Recentemente, o pastor Rodrigo Silva Santana recebeu um convite para introduzir a Bíblia Sagrada na Assembleia Legislativa. Na ocasião, entregou uma poderosa mensagem da parte de Deus, falando da grandeza das Sagradas Escrituras e de quão valioso é observarmos os seus preceitos.
     Distribuindo mensalmente dez mil MENSAGEIRO DA PAZ, a Assembléia de Deus no Estado da Bahia ocupa o 2º lugar entre as igrejas que acreditam no poder da mensagem impressa. Nesse particular, a direção da CPAD parabeniza as congregações de Pirajá, Plataforma e Boqueirão – as três primeiras colocadas, no Estado da Bahia, em 1983 na distribuiçõa do Órgão Oficial das Assembléias de Deus no Brasil.
     O escritor baiano Jorge Amado escreveu certa vez que, em Salvador, “as pedras com que os escravos calçaram as ruas, quando o sol as ilumina ao meio-dia, têm laivos de sangue”. Sangue escravo que correu sobre elas nos dias de ontem. Mas as marcas dessa longínqua escravidão estão sendo apagadas pela aurora de luz redentora que se irradia das vozes dos irmãos que pregam o Evangelho, suplicam e entoam hinos de adoração a Deus – cânticos espirituais que se elevam da Congregação dos justos às alturas celestes, submergindo e silenciando os toques de atabaques nos terreiros de candomblé, que ressoam terrivelmente dentro da noite.

A ORAÇÃO QUEBRA AS CORRENTES DE SATANÁS
     As irmãs do Círculo de Oração da AD em Salvador são responsáveis por um importantíssimo trabalho de evangelização. Elas evangelizam de casa em casa, compram terreno, alugam ou constroem salões onde os novos convertidos passam a se reunir para glorificarem a Deus. Fazendo uso do dinheiro das ofertas do Círculo de Oração, as irmãs já abriram e entregaram ao ministério da igreja, sete trabalhos registrados em ata.
     A irmã Maria Andrelina, esposa do pastor Rodrigo Santana, e dirigente geral dos Círculos de Oração das Assembléias de Deus em Salvador, afirmou que nos trabalhos do Círculo de Oração, o Senhor continua curando, salvando e batizando com o Espírito Santo. “Quando estamos orando, estamos realmente falando com Deus. A oração é a chave que nos permite abrir as portas do Céu”, disse a irmã Andrelina.
     Na grande Salvador, há trabalhos do Círculo de Oração de segunda a sábado. A luta contra Satanás é travada todos os dias. A irmã Andrelina, juntamente com as irmãs que a assessoram, já orou por inúmeras pessoas que antes eram prisioneiras de Satanás, mas hoje estão libertas pelo sangue de Jesus.
     Várias pessoas conhecidas como pais-de-santo e mães-de-santo têm aceitado a Cristo como Salvador, e hoje pregam publicamente a transformação operada pelo poder de Deus.
     A obra de Deus tem crescido na cidade de Salvador, como fruto da inegável liderança inspirada pela sabedoria de Deus, e como resposta às inúmeras súplicas que se elevam ao Trono da Graça.
     Em toda a cidade, está formada uma corrente de oração que se estende da Estrada da Liberdade a São Caetano, Cidade da Palha, Itapagipe, Plataforma, Lobato, Itacaranha, Praia Grande, Periperi, Contos, Paripe e outros – uma poderosa corrente de oração que sobe a um céu de admirável beleza, rumo ao trono de Deus.
     A AD em Salvador tem-se empenhado e acredita na ação evangelístico-missionária. É o que se evidencia das palavras de seu líder, pastor Rodrigo Silva Santana:
     “A responsabilidade das Assembléias de Deus no Brasil é muito grande, no que tange à Obra Missionária. Não obstante as dificuldades surgidas ultimamente, não devemos desanimar nessa aspecto, porque reconhecemos que o mundo espera muito do Brasil. Estamos vivendo os últimos dias da história da Igreja aqui na Terra.
     “Sabemos que Jesus não tardará a voltar. Portanto, não devemos medir sacrifícios, mas sim procurarmos empreender todo esforço na conquista de almas para o Reino de Deus. Ninguém deve dormir mais nessas últimas horas que nos restam. Minha palavra a todos os evangélicos do Brasil é esta: trabalhem enquanto é dia, pois a noite vem, quando nada mais se poderá fazer”.
     E será tão-somente através das constantes lutas do rebanho de Deus que se encontra nessa histórica cidade; será tão-somente através das repetidas vitórias do reino da Luz sobre o reino das Trevas, que a Capital da Bahia, transformada pelo florescimento do Evangelho em seus bairros pobres, em suas ruas coloniais e em suas largas avenidas abertas diante de edifícios modernos, poderá ser vista e saudada pela palavra exaltada e lírica do mais ilustre dos seus filhos – Rui Barbosa:
     “Cidade augusta, empinada nestas encostas arredondadas e meigas como regaço de fada, verde ninho murmurado de eterna poesia, debruçada entre as ondas e os astros; cidade ilustre, diadema de estrelas, banhada de bênçãos, coberta de glória, prossegues a tua andada luminosa pela vereda da tua predestinação, saudada e festejada com respeito e carinho, dando sempre ao Brasil, de que foste berço e és orgulho, os conselhos da tua clarividência, o exemplo da tua prudência, os anseios do teu civismo, o sangue do teu sacrifício, sempre digna, sempre resoluta, sempre devotada, sempre heróica, sempre Cidade do Salvador”.
Jefferson Magno Costa

terça-feira, 29 de março de 2011

CRESCIMENTO DA ASSEMBLEIA DE DEUS EM PERNAMBUCO: O MILAGRE QUE TEM DESAFIADO TODAS AS CRISES


Jefferson Magno Costa

      (Reportagem realizada em maio 1984 para o jornal MENSAGEIRO DA PAZ, e republicada neste blog como contribuição histórica sobre o Centenário das Assembleias de Deus no Brasil).
     Quando Lucas, em Atos dos Apóstolos, resolveu narrar ao excelentíssimo Teófilo os grandiosos fatos que originaram o surgimento da Igreja Primitiva, ficou então revelada a causa máxima da expansão do Evangelho entre os judeus e no mundo: a atuação do Espírito Santo.
     O poder em forma de línguas repartidas de fogo que pousaram sobre os discípulos no Dia de Pentecoste se alastrou por todos os quadrantes da Terra, desde aqueles áureos tempos aos dias atuais.
     Há 100 anos, essa chama chegou ao Brasil, e nada ou ninguém tem conseguido deter seu avanço transformador e livre. Enchentes, seca, crise, desprezo, ódio, calúnia e agressões – nada tem conseguindo impedir o crescimento das Assembleias de Deus no Brasil, que caminham sob a força propulsora do Espírito Santo.
     Em seu avanço que desconhece limites, o Espírito de Deus tem semeando milhares de igrejas pentecostais em cidades e vilas, no pantanal Mato-grossense, nos pampas gaúchos, no centro-oeste, nas prósperas capitais do sudeste, no sertão nordestino e na selva amazônica.
     O que se vê hoje em todo o Brasil, foi assim descrito certa vez pela jornalista Sônia da Fonseca: “O povo fala de uma alegria inexplicável, nascida quando o Espírito Santo lhes tocou o coração para uma entrega total de vida a Cristo; enfermos tornam-se livres de suas doenças incuráveis, deixando médicos estupefatos ante seus diagnósticos sem sentido; novos obreiros nascem a cada momento de uma renúncia à vida secular, e rumam às missões desconhecidas para pregar o Evangelho a toda criatura; homens atravessam rios em canoas, enfrentam feras sem armas, sobrevivem ao veneno e à febres mortíferas, vencem o inimigo com o amor de Deus, pregam em todos os lugares, penetram nas tocas de assassinos e saem acompanhados de novos evangelistas, cujos revólveres e punhais foram trocados pela palavra de Deus.”
     Este é o fiel retrato da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no Brasil, que cresce em desafio a todas as crises.
     Com o propósito de conferir e registrar esse crescimento no Nordeste, o jornal MENSAGEIRO DA PAZ nos enviou como repórter a quatro das principais igrejas Assembleias de Deus naquela região: Recife, Abreu e Lima, Natal e Salvador. Os fatos ali registrados mostram que a crise brasileira, ou, particularmente, a seca nordestina, não tem impedido o avanço da Obra de Deus. Os problemas são inúmeros e seriíssimos, mas a chama pentecostal permanece acesa no coração do povo de Deus.
     Observa-se no Nordeste um verdadeiro fenômeno da multiplicação de igrejas evangélicas. Os pastores já concluíram que não adianta construir templos pequenos. O certo é construir templos grandes, pois templos pequenos já não podem acolher o grande número de pessoas que vêm aos pés de Cristo, sedentas da salvação e do poder de Deus.
     A Assembleia de Deus está socorrendo – apesar dos seus limitadíssimos recursos – milhares de pessoas carentes. Os irmãos nordestinos continuam fielmente a pregar quatro principais verdades bíblicas: Jesus Cristo salva, cura, batiza com o Espírito Santo, e breve voltará para levar sua Igreja para o Céu.

COMO RECIFE ENTROU PARA A HISTÓRIA DA ASSEMBLEIA DE DEUS
     Quando o casal de missionários suecos Joel Franz Adolf Carlson e Signe Carlson desembarcaram, em 1918, em Recife, a cidade embelezada há dois séculos por Maurício de Nassau, traziam em seus corações a tocha do Pentecoste, em suas bagagens a ferramenta que seria utilizada no desbravamento evangelístico daquela terra árida e inóspita – a Palavra de Deus-, e na alma a disposição necessária para permanecerem de joelhos diante do Senhor da Seara durante horas, ou dias, ou meses – até que Ele abrisse as comportas do Céu, e fizesse chover sua graça sobre os duros corações, onde dia após dia as sementes de vida eterna estavam sendo arduamente lançadas.
      Há oito anos os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren haviam chegado a Belém do Pará. Com eles haviam chegado também os janeiros, as auroras, o grandioso amanhecer do Pentecoste no Brasil.
     É curioso observarmos que, há quase dois milênios, em Belém da Judéia nascera Jesus; e agora, no início deste século, em Belém do Pará – melhor dizendo: Em Belém do Brasil -, a Assembleia de Deus brasileira estava nascendo, como fruto do trabalho daqueles missionários suecos.
      Em 1917, o irmão Adriano Nobre batizou os primeiros novos convertidos pernambucanos nas águas do Rio Capibaribe. No ano seguinte, após o regresso de Adeiano Nobre a Belém, Joel e Signe Calson chegaram à capital de Pernambuco.
     Uma frase bordada em um quadro pertencente à sala Joel Carlson (vi esse quadro no Lar Evangélico Estrela de Betel, em Abreu e Lima, PE) traduz, com beleza e profundidade, quão espinhoso e difícil foi o começo dos trabalhos iniciados por aquele casal: “Para nos mostrar as estrelas, precisou Deus fazer a noite”.
     Segundo a filha de Joel e Signe Carlson, irmã Rute Carlson Portela (com quem conversei longamente, e que traduziu para mim a frase escrita em sueco), aquelas palavras haviam sido proferidas pelo missionário Joel Carlson, durante uma de suas visitas à Suécia.
     Só ele sabia o profundo significado que aquelas palavras tiveram em sua vida. Lutando contra a barreira dos idiomas, a diversidade de meios, a cultura, os costumes, as distâncias, o desejo de desistir de tudo, mas pregando heroica e perseverantemente o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, aquele casal de missionários brilhou como estrelas no meio da escuridão produzida pela incredulidade, pela idolatria e pela ignorância.
     Do pequeno “mocambo” comprado em 1918, a igreja passou, em 1922, para um salão alugado, que antes fora um depósito de sal, e ali, debaixo de perseguições, calúnias e ameaças, eles passaram a ser “o sal da terra”, evangelizando os pecadores e atacando as hostes de Satanás.
     Incomodadas com o crescimento do trabalho desenvolvidos pelos missionários suecos, algumas denominações evangélicas moveram uma campanha difamatória contra a Assembleia de Deus, caluniando-a através de folhetos e outros impressos.
     Mas essa perseguição só serviu para aumentar o número de membros da igreja. Pessoas que vinham assistir aos cultos movidas pela curiosidade, desejosas de comprovarem a veracidade das calúnias, viam que a realidade era outra, e, após ouvirem a pregação da Palavra de Deus e serem alcançadas pelo seu poder, aceitavam a Cristo como Salvador, conforme aconteceu com um saldado enviado pelo Delegado de Polícia para espionar e fazer um relatório da “reunião dos crentes”. O soldado ficou tão maravilhado com o que viu, que aceitou Jesus como Salvador.
     Em 1928, quando a igreja já contava 1500 membros, foi inaugurado o templo do bairro da Encruzilhada, que passou a ser a sede da igreja. No ano seguinte, Nils Kastberg e esposa chegaram a Recife. Joel Carlson viajou então à Suécia, e foi substituído por Nils Katsberg, até 1931, data em que o missionáio Joel Carlson retornou á Recife, e reassumiu a liderança dos trabalhos. Em 1942, após batizar, sozinho, 187 novos convertidos, o irmão Joel contraiu febre tifo (transmitida por um dos batizandos) e, duas semanas após aquele batismo, o apóstolo do Evangelho no Estado de Pernambuco foi convocado aos domínios eternos dAquele que, “para nos mostrar as estrelas, precisou fazer a noite”.
    Após o falecimento do irmão Joel Carlson, com os olhos voltados para o futuro, os corações e as mentes cheios da glória de Deus, a igreja Assembleia de Deus em Recife continuou caminhando a passos largos, sob a liderança do pastor José Bezerra da Silva. Ele esteve à frente daquela pujante de dinâmica igreja durante 17 anos. Iniciou os trabalhos de mocidade, sugeriu a criação de Escolas Bíblicas Dominicais, e deu todo o apoio à criação dos Círculos de Oração. O pastor José Bezerra desenvolveu um trabalho cujas marcas são hoje inapagáveis na história da Assembleia de Deus em Recife.
     Em seguida vieram os pastores José Rosa, Manoel Messias, José amaro da Silva e José Leôncio da Silva – atual pastor presidente.
     O pastor José Amaro da Silva foi um homem que após ter sido operário durante vinte anos, “jogou fora esse tempo de serviço para falar de Jesus de porta em porta”, segundo comentou, na época, seu ex-patrão. Graças a esta decisão em benefício à causa do Mestre, José Amaro tornou-se um dos maiores líderes das Assembleias de Deus no Estado de Pernambuco, apoiando amplamente os trabalhos dos Círculos de Oração, impulsionando o evangelismo e dinamizando a Escola Dominical. Ele costumava dizer sempre: “Os pais não devem enviar seus filhos à Escola Dominical, e sim vir com eles.”
     Seus 21 anos de pastorado contribuíram para que a igreja Assembleia de Deus em Recife alcançasse grande progresso. Quando o Senhor o chamou às regiões celestiais, o atual (e majestoso) templo sede já se encontrava em adiantada fase de construção.
     O pastor José Leôncio da Silva (um homem humilde, simples, de gestos largos e acolhedores; quem o conversa com pela primeira vez conclui imediatamente que está diante de um pastor que apascenta suas ovelhas com um coração de pai) lidera uma igreja que conta atualmente com 120 mil membros em todo o Estado de Pernambuco (executando-se o campo de Abreu e Lima, PE). É assessorado (em todo o Estado) por sete pastores, nove evangelistas, 84 presbíteros, 238 diáconos e 180 auxiliares, que pregam a Palavra de Deus em 162 congregações na Capital (aproximadamente 400 em todo o Estado).
     A Assembleia de Deus em Recife é a igreja campeã na distribuição do MENSAGEIRO DA PAZ, adquirindo mensalmente 12.000 jornais, que são distribuídos em Recife e em todo o Estado de Pernambuco. “Nós incentivamos os irmãos a comprar, a ler e depois presentear o MENSAGEIRO DA PAZ a um pecador, pois isto é uma poderosa forma de evangelização. Além disso, nós enviamos exemplares do MENSAGEIRO DA PAZ às principais autoridades da cidade do Recife”, declarou o pastor José Leôncio.
     Trezentos cultos de pregação e 400 cultos de oração e doutrina são realizados semanalmente. A igreja batiza em média 3000 novos convertidos por ano. Ano passado (1983), o Senhor batizou 3500 irmãos com o Espírito Santo.
     O Departamento de Escola Dominical da Assembléia de Deus em Recife é caracterizado pelas mesmas gigantescas dimensões em que o trabalho ali se realiza. São 15.000 alunos matriculados, registrando-se cerca de 10.000 visitantes, um corpo docente composto de 2500 professores e 280 dirigentes.
     O Departamento de louvor é composto de quatro bandas de música, 600 corais e 200 conjuntos musicais (em todo o Estado). A mocidade das 162 congregações da Capital realiza 215 diferentes trabalhos.
     A Assistência Social tem dois ambulatórios para atender aos irmãos, dispõe de duas escolas que beneficiam milhares de alunos, um abrigo de velhos, e brevemente disporá de um orfanato.
     (Continua na próxima postagem)
     Jefferson Magno Costa

JULGAMENTO: O MAIS IMPORTANTE JULGAMENTO DA HISTÓRIA


Jefferson Magno Costa
     Há mais de mil e novecentos anos, dois homens estiveram frente a frente durante um julgamento. Um deles, cidadão romano, prepotente e conhecido por sua habitual brutalidade, tinha em suas mãos o governo da Judéia, subjugada há quase um século pelo poderio dos Césares, que de Roma dominavam quase todo o mundo conhecido.
     O outro homem era um simples galileu, de semblante sereno e atitudes pacíficas, silencioso diante dos seus acusadores. E parecia não ser nada mais do que isto. Sim, parecia.
     Porém, aquele homem não era outro senão o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo! Ele ali estava diante de Pilatos e dos descendentes de Abraão para dar testemunho da Verdade: “...Eu para isso nasci e para isso vim ao mundo, para dar testemunho da verdade...” ( João 18.37) foi o que disse ao governador da Judéia a mais alta personalidade que os homens já conseguiram levar a julgamento em toda a história do mundo: Jesus.
     Aquela afirmação despertou a curiosidade de Pilatos. Há muitos anos andava ele desesperançado de encontrar a Verdade. Nem os deuses gregos nem os deuses romanos lhe ofereciam qualquer certeza.
     Aliás, como mais tarde comentaria o orador francês Jaques- Benigne Bossuet, sob aqueles céus do paganismo tudo era deus, menos o próprio Deus. Um povo culto e rico como os egípcios, por exemplo, era tão cego e supersticioso em matéria de religião, que adorava até a cebola.
     Em tom de zombaria, deles havia comentado o poeta romano Juvenal: “Povo feliz, cujos deuses – as cebolas – nascem em suas próprias hortas!”
     Tampouco os contraditórios sistemas filosóficos tinham podido satisfazer a fome espiritual que corroia a alma do homem em cuja presença se encontrava Jesus. Já naquela época, Cícero, o maior orador romano, e um dos maiores em toda a história, após dedicar parte da sua vida ao estudo da filosofia, afirmara, com decepção e amargura: “Não há nenhum absurdo, por maior que seja, que não tenha sido justificado por algum filósofo.”
     O próprio Aristóteles, o mais culto, científico e sistemático entre os filósofos gregos (só não conseguiu superar Platão em espiritualidade e poesia), confessou, no final da vida: “Vivi na dúvida, e morro na incerteza”.
     Tanto Pilatos como os mais eminentes homens do seu tempo, e também todos os povos gentios daquela época, andavam às escuras, como cegos, apalpando as desgastadas muralhas erguidas de um lado e do outro do caminho que os conduzia ao abismo...
     Filósofos, poetas, estadistas, oradores, militares, cidadãos comuns e escravos – todos viviam tristemente convencidos de que, após a morte tudo se acabava... ou, se havia alguma esperança, essa era muito incerta, e estava apoiada na insustentável doutrina reencarnacionista.

"QUE É A VERDADE?"
     Por isso, ao ouvir a palavra “verdade” docemente pronunciada pelos lábios daquele galileu, Pilatos sentiu em sua alma o despertar das recordações do tempo em que andara à procura de um caminho seguro, verdadeiro. E dentro do seu coração corrompido e amargurado brotou novamente a esperança.
     Mas isso foi só por alguns instantes, porque antes mesmo de formular a mais importante pergunta que ele fizera em toda a sua vida, e ouvir a grande resposta que Cristo lhe daria, seu coração endurecido estremeceu, ferido pela dúvida, e no mais profundo de sua alma soberba Pilatos rejeitou a verdade que inesperadamente lhe surgira na pessoa daquele homem misterioso e sublime que ali estava para ser julgado por ele.
– Que é a verdade? – perguntou distraidamente o orgulhoso governador, e em seguida, sem esperar a resposta de Jesus, dirigiu-se aos judeus para dizer-lhes que não havia achado no réu crime algum. Sim. Não encontrara Pilatos em Jesus qualquer motivo pelo qual pudesse condená-lo, e muito menos esperaria encontrar nele aquilo que tanto procurara em toda sua vida.
     Não. Ele ali era juiz, aquele homem era réu. Nada mais havia a ser tratado ou esclarecido entre os dois, pensou.
     E lavando as mãos, o fraco governador obedeceu covardemente aos rugidos e uivos dos judeus enfurecidos que pediam que ele soltasse Barrabás. Ele o fez, e condenou Jesus Cristo ao suplício da cruz.
     Todavia, jamais o governador da Judéia poderia imaginar que um dia os papéis estarão trocados, e ele se dobrará diante daquele simples galileu, que retornará do Céu com poder e grande glória, constituído Juiz dos juízes e Senhor dos senhores sobre todos os povos pelo Deus Eterno!
     Com um gesto de indiferença, Pilatos fechou para sempre a única porta por onde poderia ter sido resgatado da situação torpe e desesperançada em que se encontrava.
     Porém, desde aquele dia eternamente memorável, Jesus Cristo, o Salvador da humanidade, tem permanecido inabalável diante do mundo e de todos os Pilatos, repetindo sempre na voz dos seus inumeráveis seguidores: “Eu vim para dar testemunho da verdade.”
     Jesus Cristo é a verdade, Sua Palavra é a Verdade, Ele veio revelar a verdadeira face do pai das luzes, “em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tiago 1.17). E nós somos suas testemunhas:
     "E sereis minhas testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (Atos 1.8).

NECESSIDADE DE UMA DEFESA
     Hoje, mais do que nunca, é necessário santificarmos a Cristo em nossos corações, e sobretudo estarmos “sempre preparados para responder com mansidão e temor a todo aquele que nos pedir a razão da esperança que há em nós” (1 Pedro 3.15).
    Diante dos corações sem fé e das mentes duvidosas; diante do ateísmo, do descrédito em que muitos querem lançar a Bíblia, do tempestuoso oceano de falsas doutrinas que ameaça afogar milhões de seres humanos, e da atitude de irreverência e rejeição à mensagem do nosso Salvador, faz-se necessária uma defesa do Cristianismo, uma sólida, clara e eficiente demonstração de que a nossa fé está fundamentada na verdade.

O VALOR DA PREGAÇÃO APOLOGÉTICA
      Aliás, é necessário lembrarmos que em toda a pregação cristã existe um elemento de defesa. Quando Pedro ergueu sua voz diante da multidão que se havia formado atraída pelo rumor do Pentecostes (Atos 2.14-41), realizou uma das mais brilhantes defesas do Cristianismo em toda a sua história. As quase 3000 conversões resultantes mostraram o quanto as pregações apologéticas são eficientes.
      Denomina-se apologética a ciência que estuda os meios de fazer uma defesa. Essa defesa é conhecida como apologia. Pregar o evangelho, ou seja, dar testemunho da verdade, não é outra coisa senão apresentar uma defesa da nossa fé. Mas essa defesa engloba ao mesmo tempo, um ataque contra o pecado e uma proposta de salvação ao pecador. E ele só poderá alcançar a salvação crendo em Jesus Cristo.
     Portanto, devemos seguir o conselho do profeta Oséias: “conheçamos e prossigamos em conhecer ao Senhor...” (Oséias 6.3), para que dia a dia possamos ser melhores testemunhas do Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo.
     Jefferson Magno Costa

segunda-feira, 28 de março de 2011

MARIA DE LOURDES COSTA: “O VERDADEIRO AMOR AO PRÓXIMO REQUER DEMONSTRAÇÕES”

Jefferson Magno Costa
     (Entrevista realizada em 1984 para a revista Círculo de Oração, na época um dos periódicos da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Tornamos a publicá-la como material útil às comemorações do Centenário das Assembleias de Deus no Brasil).
     No dia 29 de maio de 1984, Maria de Lourdes Costa, minha avó paterna, completou 85 anos de idade. Ela nasceu em Caicó, interior do Estado do Rio Grande do Norte, e aceitou Jesus como Salvador em Natal, no dia 7 de setembro de 1944, quando os bondes ainda cruzavam a cidade, e o aeroporto fora transformado num ponto estratégico que decidiu a vitória dos Exércitos Aliados contra as tropas de Adolfo Hitler, durante a Segunda Guerra Mundial. Naquela época as irmãs de oração se organizavam em grupos e saíam pelas ruas de Natal para evangelizar, visitar e orar pelos enfermos. Em 1952 a irmã Maria de Lourdes Costa, que fazia parte de um desses grupos de visitas, foi batizada com o Espírito Santo e ingressou nos trabalhos do Círculo de Oração, e permanece nessas atividades até hoje. Ela é membro da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Natal, que tem como presidente o pastor João Batista da Silva. A irmã Maria de Lourdes Costa é a dirigente mais idosa de todos os trabalhos de Círculo de Oração das Assembleias de Deus no Brasil.


JMC – Irmã Maria, durante esses seus 32 anos de atividades nos trabalhos do Círculo de Oração, o que o Senhor Jesus tem realizado?


MLC – O Senhor tem operado maravilhas, tem curado câncer, tuberculose, leucemia, dor de cabeça crônica, tem curado inúmeras irmãs e irmãos que haviam sido desenganados pelos médicos, tem batizado com o Espírito Santo, tem aberto portas de trabalho. Ele tem estado conosco todos os dias. Há irmãs que pedem oração num dia, e no trabalho seguinte vêm agradecer. Jesus tem feito maravilhas como resposta às nossas orações até à distância. Uma irmã, que mora em São Paulo, mandou pedir-nos que orássemos para que o Senhor fizesse seu esposo voltar para casa, pois ele a havia abandonado, e também deixara Jesus. Então nós oramos, e em seguida a irmã nos escreveu, contando que o Senhor chamara o seu esposo para os seus caminhos, e o fizera voltar para o lar. Muitos evangélicos, pertencentes a outras denominações, ao ouvirem dizer que o Senhor está operando entre nós, têm vindo para a Assembleia de Deus à procura de bênçãos, e as recebem sempre, porque o nosso Deus é um Deus maravilhoso e de poder.

JMC – E quanto à irmã, as bênçãos têm sido muitas em sua vida?

MLC – Muitas bênçãos tenho recebido do meu Senhor. Tive que trabalhar muito para criar 12 filhos, pois enviuvei logo após a minha conversão, e vi-me diante da responsabilidade de alimentá-los e educá-los. Hoje, graças a Deus, tenho advogado, médicos e professores na família. O Senhor tem estado comigo durante todos esses anos. Para criar meus filhos eu abri um fabrico de cuscuz de farinha de milho. Certa vez os apertos financeiros levaram-me a fazer um empréstimo. Porém, um parente meu necessitou urgentemente daquela importância, e eu tive que socorrê-lo, ficando assim impossibilitada de saldar minhas dívidas. E isto muito me angustiou. Fui, então, à igreja e coloquei o meu pedido de oração junto ao púlpito, mas não assinei. Disse só que estava passando por uma luta, e escrevi no final: “Uma serva do Senhor”, e depois sentei-me em um dos últimos bancos. Quando o irmão levantou-se para orar pelos pedidos de oração, leu o meu pedido, e disse: “Irmãos, este pedido de oração pode ser de uma irmã viúva, uma irmã que o marido deixou, uma irmã que está passando necessidades. Vamos fazer uma oração especial por este pedido.” Eu voltei para casa crendo que o Senhor ia abrir as janelas do céu. Um dos meus filhos deu-me 50 mil réis (moeda daquela época) para ajudar-me, mas aquela quantia ainda não era suficiente para que eu pudesse pagar a dívida. Mas eu continuei esperando no Senhor, e fazendo cuscuz, que era vendido em tabuleiros (recipiente de forma quadrada; bandeja grande, de madeira) pelos empregados. Então o Senhor fez com que minha freguesia aumentasse a ponto de eu ter que triplicar a quantidade de massa de milho no fabrico de cuscuz, assim como aconteceu com o azeite de viúva, no tempo do profeta Eliseu (2 Reis 4.1-7). E o dinheiro foi aparecendo em grande quantidade. Quando chegou o dia de efetuar o pagamento, pedi às minhas filhas que o contassem. Só sobrou os 50 mil réis que meu filho me havia dado. O Senhor nos havia providenciado a quantia exata para pagar a dívida no banco! No dia seguinte, minha freguesia voltou ao normal, como prova de que o Senhor havia aberto as janelas do Céu para me socorrer especificamente naquele aperto.

JMC – Segundo sua experiência, como se deve fazer para que os trabalhos de Círculo de Oração beneficiem a todos os que neles tomam parte?


MLC – Nos trabalhos do Círculo de Oração, devemos orar com fé diante do Senhor, devemos pedir oração com liberdade e contar as bênçãos com liberdade. Só recebe a bênção aquele que tem fé. Além do mais, a dirigente do Círculo de Oração deve ter também liberdade para beneficiar as irmãs necessitadas. Não concordo com aquelas que se esforçam para anotar sempre no talão de ofertas recebidas e que serão enviadas à igreja sede, uma quantia cada vez maior, destinada a outras finalidades, enquanto as irmãs carentes – muitas delas ficam o dia todo na igreja, orando conosco – passam fome em suas casas. Já visitei irmãs de resguardo que só tinham farinha com café para comer. Eu não posso ver isto. Eu tiro do dinheiro da oferta e socorro essas irmãs. Certa vez, mandei todo o dinheiro da oferta para um irmão que estava em casa operado, e às quatro horas da tarde ainda não havia se alimentado, nem ele nem sua família, pois não tinham dinheiro. Eu disse para as irmãs que trabalham comigo: “Vocês são minhas testemunhas de que o dinheiro da oferta está sendo mandado para este irmão”. E graças a Deus, naquele dia aquele irmão pôde comprar o necessário para se alimentar durante um mês.

JMC – Então a senhora defende que o trabalho do Círculo de Oração deve também voltar-se para a assistência social?

MLC – Sim, e eu já disse várias vezes ao meu pastor que só sei trabalhar com apoio e liberdade para ajudar os necessitados. Não foi assim que Jesus nos ensinou? Com a ajuda do Círculo de Oração, eu tenho ajudado muitas irmãs viúvas a construírem suas casas. Quando eu podia sair de casa com mais frequência (agora a idade quase só me dá condições de sair para os trabalhos da igreja), eu pedia a uma irmã, a um irmão de boa condição financeira, alguma ajuda para socorrer as viúvas e os necessitados da igreja. Consegui doações para construir casa para uma irmã cega, que morava com a nora, mas a nora dava-lhe muitos empurrões. No Natal do ano passado, senti muita tristeza porque estava doente e não podia sair nem tinha dinheiro para comprar tecido para os vestidinhos das irmãs necessitadas. Mas eu orei neste sentido, e o Senhor tocou o coração de alguns irmãos e irmãs, que vieram me trazer 37 cortes de tecido, e assim as irmãzinhas puderam vestir roupa nova no Natal. Chegamos, às vezes, até a comprar a prestação para dar um par de sapatos a um irmão necessitado.


JMC – Esta é a maneira que a irmã usa para demonstrar seu amor por Jesus Cristo?

MLC – Sim, pois o verdadeiro amor exige demonstração. Nós, que trabalhamos no Círculo de Oração e fazemos parte da comissão de visitas, fazemos o trabalho espiritual, mas e o trabalho material? Quando eu saía para visitar algum irmão ou irmã doentes, não sabia ir com as mãos vazias. Eu não teria condições de chegar na casa de uma irmã, ler a Palavra, orar, consolá-la, ir até a cozinha e ver que naquela casa não havia nada para se comer, e depois voltar sem ter deixado alguma ajuda. Não. Eu só sei trabalhar ajudando também materialmente minhas irmãs e irmãos na fé.

JMC – No seu convívio com o povo de Deus, o que mais tem lhe chamado a atenção?

MLC – A fé ilimitada que os irmãos e irmãs têm na pessoa de Jesus. Ouvi um irmão contar certa vez que resolveu esperar que o Senhor, assim como havia providenciado alimento para Elias, providenciasse o almoço para ele e sua esposa, pois não tinham dinheiro e nem tinham o que comer. O irmão disse para a esposa: “Minha velha, hoje é o dia do nosso aniversário de casamento. São 55 anos de bênçãos. Pois quem vai enviar o nosso almoço é o Senhor Jesus”. A esposa respondeu: “Ah! você está com essa fé toda? Pois eu não tenho tanta fé assim.” “Minha velha, respondeu ele, procure a toalha mais nova e estenda-a sobre a mesa; coloque os melhores talheres, porque hoje o Senhor providenciará um banquete para nós”. Ela obedeceu. O irmão foi para a sala ler a Bíblia. Algumas horas depois, quando aquela irmã já estava impaciente, passou um carro e parou à frente da casa ao lado. Em seguida a vizinha chamou a irmã para dizer que, por não se haver lembrado que seu pai estava aniversariando naquele dia, preparara o almoço, mas o carro que chegara ali há poucos instantes viera buscá-la, e por ela estar com a geladeira desligada por problemas elétricos, o almoço iria estragar-se caso a irmã não o aceitasse. E assim aquele casal foi presenteado com um verdadeiro banquete, providenciado por Deus.

JMC – Entre tantas demonstrações do zelo e do cuidado de Deus para com a irmã, a senhora poderia contar-nos alguma experiência em especial?

MLC - O nosso Deus tem um grande zelo por nós. Certa vez eu estava regressando para casa conduzindo uma bolsa, contendo documentos e o dinheiro para pagar uma dívida que não podia passar do dia seguinte, e comprar alimento para os meus filhos. Eu conduzia também uma sacola com algumas costuras. Vinha muito cansada e resolvi descansar um pouco, sentando-me em um dos bancos de uma praça. Eram 11 horas da manhã, as ruas estavam movimentadas. Após descansar o suficiente para refazer minhas forças, levantei-me, peguei a sacola com as costuras e fui para o ponto de ônibus. Quando, já no interior do ônibus, prepararei- me para pagar a passagem, percebi que a bolsa contendo o dinheiro não estava comigo. Então pedi ao motorista para descer do ônibus e voltei ao local onde estivera sentada antes. Quem me via de longe, podia até pensar que eu estava louca, porque ia andando e falando: “Jesus, guarda minha bolsa, tem misericórdia de mim. Como é que eu vou fazer dar de comer aos meus filhos, sem o dinheiro para pagar aquela dívida, e sem meus documentos, Senhor?” Quando cheguei próximo ao banco da praça, não vi nenhuma bolsa. Havia muita gente passando, e outras pessoas estavam sentadas ali. Então sentei-me no banco e comecei a orar e a chorar. Então fui abaixando a cabeça lentamente para chorar mais ainda. Foi então que vi junto ao pé do banco um papel grande, que certamente viera rolando, soprado pelo vento, e parara ali, abraçando o pé do banco. Quase sem nenhuma esperança, levantei aquele papel. Minha bolsa estava debaixo dele! O Senhor a havia guardado com tudo dentro! Fiquei tão feliz que, ao voltar para casa, peguei o ônibus errado.

JMC – Conte-nos sobre um sonho que a irmã teve, quando viu o Grande Coral que está formado no Céu.

MLC – Sonhei com um Grande Coral no Céu. A multidão de seus componentes era tão grande que não dava para ver onde terminava as laterais, e até onde as fileiras de coristas se estendiam para trás. Nesse coral vi quando a irmã Amélia Pires, esposa do Pastor Eugênio Pires (ambos já dormem no Senhor) veio ao meu encontro e disse: “Irmã Maria, sua voz está fazendo falta nesta Grande Coral. Estamos à sua espera.”
Quando o Senhor achar que já está na hora de eu partir para fazer parte desse Grande Coral composto pelos salvos e remidos pelo sangue de Jesus, partirei alegremente.

JMC– Que palavra a irmã deixa para as demais irmãs e servas de Deus?


MLC – Que todas se esforcem para continuar a servir fielmente ao Senhor. O testemunho que as mulheres evangélicas dão em casa é muito importante, pois a vizinhança está sempre a nos observar. Há casos em que o esposo chega em casa cansado, faminto, e a esposa, ao invés de recebê-lo bem, trata-o com indiferença ou com cara feia, reclamando sua demora, perguntando onde ele estava, e isto não se faz. A mulher sábia edifica a sua casa, mas a louca a destrói. Isso eu digo sempre no Círculo de Oração. É necessário muito cuidado para não ser incompreendida pelo marido, quando se tratar de nos afastarmos de tudo para nos consagramos a Deus, principalmente se o marido for descrente. Nós devemos servir ao Senhor com sabedoria, nunca esquecermos de suas promessas, e jamais cessarmos nossas súplicas. Só assim poderemos alcançar as bênçãos nesta vida, e a coroa de glória que está reservada para nós no Céu.
     (Obs. Dois após esta entrevista, a irmã Maria de Lourdes Costa partiu para fazer parte do Grande Coral do Céu).
Jefferson Magno Costa

sábado, 26 de março de 2011

POBREZA: JESUS MENDIGOU ALGUMA VEZ? (Ajuda para sua pregação)


Jefferson Magno Costa
     Na história da exegese bíblica (explicação ou interpretação minuciosa e esclarecedora de uma palavra, de um versículo ou de um longo trecho da Bíblia), há um versículo, entre milhares de versículos estudados pela exegese, que esconde uma sutil diferença de siginificado entre a forma como ele foi traduzido e é entendido nos dias atuais, e o siginificado teologicamente mais profundo que ele esconde desde o dia em que foi escrito. 
     É o versículo 9 do capítulo 8 da Segunda Carta de Paulo aos Coríntios: “Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis”.
     A curiosa diferença exegética recai sobre a expressão se fez pobre. Quem chamou pela primeira vez a atenção dos estudiosos da Bíblia para o siginificado mais profundo que a apóstolo Paulo quis dar a essa expressão, foram os dois maiores pregadores e intérpretes bíblicos da língua grega, mundialmente respeitados e aclamados como doutores nas ciências bíblicas, João Crisóstomo (349-407) e Gregório Nazianzeno (329-389).
     Eles afirmaram que o mais entranhado e profundo significado da expressão que em português foi traduzida como se fez pobre, é mendigou
      Esses dois pregadores das Sagradas Escrituras, que conheciam profundamente a língua materna deles, o grego, e a grande riqueza do contexto bíblico neotestamentário no qual o apóstolo Paulo tinha vivido, e sob cuja influência escreveu as suas cartas, esclareceram que afirmar teologicamente que Jesus mendigou não é o mesmo que dizer que Ele pediu esmolas para ter com que se manter. Se bem que, se de fato pedir esmolas fosse uma das condições estabelecidas por Deus para nossa redenção, Jesus o teria feito tranquilamente.  
     O fato é que Jesus jamais mendigou no sentido em que todos nós entendemos o que é mendigar, pois os evangelhos deixam bem claro que o nosso Salvador, até a idade de 30 anos, viveu da profissão que aprendera com José, a de carpinteiro, conseguindo o seu sustento com o trabalho de suas mãos.
     E quando iniciou seu ministério de pregação, passou a receber ajuda financeira de várias pessoas, especialmente das mulheres. Elas sustentavam o ministério do Senhor Jesus, conforme registra o evangelista Lucas (Lc 1.26-30). Portanto, Jesus não precisou mendigar, conforme o significado comum dessa palavra.
      Ora, se Jesus não necessitou pedir esmolas para se sustentar, o que Ele teria mendigado? Eis aí um altíssimo mistério relacionado à nossa salvação. E foram esses mesmos dois maiores luminares da teologia grega, Gregório Nazianzeno e João Crisóstomo, que nos deram a melhor resposta e esclarecimento sobre a questão. Por serem gregos, puderam penetrar a força e a riqueza de significado do texto escrito em sua própria língua. A explicação que esses dois intérpretes da Bíblia apresentaram pode ser resumida da seguinte forma: 
     O Filho de Deus não só se fez pobre para nos tornar ricos, mas humilhou-se a ponto de mendigar. Mendigar o quê? Mendigar nossa carne e nosso sangue.
     Antes de tornar-se um de nós, Jesus era Espírito. Para nos resgatar, era necessário que Ele sofresse na carne as consequências dos pecados que nós havíamos cometido na carne. Nosso resgate exigia preço de sangue. Jesus não tinha sangue. Portanto, por não ter carne e por não ter sangue, Ele mendigou, pediu emprestado à nossa natureza a carne e o sangue que não tinha, para nos resgatar na cruz do Calvário e nos enriquecer com Suas infinitas riquezas divinas e celestiais que não tínhamos.
     Devido ao pecado de Adão, a humanidade estava prisioneira do pecado e pobre. Como cativa, gemia no cativeiro; como pobre, não tinha recursos para pagar seu próprio resgate. E qual seria o preço desse resgate? O sangue do Unigênito Filho de Deus, conforme estabelecera a Justiça Divina. E é aqui que entra o termo mendigar.
     Não dispondo, nem podendo dispor, enquanto Deus, do valor decretado para realizar nosso resgate, Jesus mendigou (pediu, pegou emprestado) à natureza humana, a carne e o sangue, que uniu à sua Pessoa divina.
      Com isto, conforme comentou altissimamente o apóstolo Paulo, nós, que éramos cativos e pobres, com a pobreza e mendicância de Jesus, tornamo-nos livres e ricos. Jesus, mendigando como pobre, obteve o necessário para realizar a nossa redenção. Com o que adquiriu de sua mendicância, nos remiu.
     Portanto, na obra de Redenção da humanidade, que foi a maior demonstração do amor divino (João 3.16), Deus não se contentou só em dar o que tinha, mas também mendigou o que não tinha, para também os dar. Deu a Sua Pessoa divina, que era o que tinha, e mendigou nossa carne e nosso sangue, que era o que não tinha, para os apresentar ao Pai como preço de nossa Redenção.
     Ninguém é mais rico que o nosso Deus: "Porque a terra é do Senhor e toda a sua plenitude", 1Coríntios 10.26. Tudo lhe pertence, porque tudo foi criado por Ele: "Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez", João 1.3.
     No entanto, em Jesus, na essência de sua natureza espiritual e divina, a carne e o sangue não faziam parte. São dois elementos da natureza humana. Por isso, o Filho de Deus desceu até a sua criaturinha, e pediu emprestado (no grego, "mendigou", segundo Gregório e Crisóstomo) nossa carne e nosso sangue, e vestido da natureza humana, remiu essa natureza decaída e apresentou-a outra vez ao Pai, dando condições de os que O reconhecerem como Salvador e aceitarem o Seu sacrifício na cruz do Calvário, habitarem eternamente com Ele no Céu.      Jefferson Magno Costa

quinta-feira, 24 de março de 2011

A CERTEZA DA EXISTÊNCIA DE DEUS DENTRO DE NÓS

Jefferson Magno Costa
     A certeza da existência de um Ser infinito e perfeito foi colocada dentro do ser humano, criatura finita e imperfeita. Essa ideia que todos temos do Ser infinitamente perfeito é que nos faz reconhecer as imperfeições que existem em todas as criaturas, especialmente em nós.
     Pela ideia que temos acerca da existência desse Ser infinito, concluímos que nenhuma coisa, de todas quantas nos cercam, lhe é igual, e somos levados a distinguir o mal e o bem. Essa ideia é o testemunho da existência de Deus ecoando dentro de nós.
     Pois só Deus teria poder para colocar dentro do homem algo que é contrário à sua inclinação, algo que está acima de sua natureza, e é infinitamente superior ao seu entendimento.
     "Eis aqui o espírito do homem (escreveu o filósofo francês Fénelon): débil, incerto, limitado, cheio de erros. Quem tem posto a ideia do infinito e do perfeito em um ser tão limitado e tão cheio de imperfeições? Quem tem posto em mim essa ideia do infinito? Ela está em mim, mas não sou eu." (François de Fénelon. Demonstração da Existência de Deus. Porto, Tipografia de Manoel José Pereira, 1871, p. 83.)
    
ORAÇÃO ANTES DA MORTE
     A oração que se segue foi encontrada no bolso de um soldado norte-americano desconhecido. Ele tombou em pleno campo de batalha, estraçalhado por uma granada. Dele só havia restado, intacta em um de seus bolsos rasgados e ensanguentados, uma folha de papel contendo esta oração em forma de poema.
     Tendo sido um homem que antes jamais se preocupara com Deus ou com o destino de sua alma na eternidade, o que o teria levado a pensar no seu Criador horas antes de morrer, senão a voz da consciência, e o testemunho da Criação?


Escuta Deus:
Jamais falei contigo.
Hoje quero saudar-te. Bom dia, como vais?
Sabes, disseram que tu não existes,
e eu, tolo, acreditei que era verdade.
Nunca havia reparado a tua obra.


Ontem à noite, da trincheira rasgada por granadas
vi teu céu estrelado
e compreendi então que me enganaram.
Não sei se apertarás a minha mão.
Vou te explicar e hás de compreender.


É engraçado: neste inferno hediondo causado pela guerra
achei a luz para enxergar teu rosto.
Dito isto, já não tenho muita coisa a te contar:
só que... que... tenho muito prazer em conhecer-te.


Faremos um ataque à meia-noite.
Não sinto medo.
Deus, sei que tu velas...
Ah! é o clarim! Bem, Deus, devo ir-me embora.
Gostei de ti, vou ter saudades... Quero dizer:
será cruenta a luta, bem o sabes,
e esta noite pode ser que eu vá bater à tua porta!


Muito amigos não fomos, é verdade.
Mas... sim, estou chorando.
Vês, Deus, penso que já não sou tão mau.
Bem, Deus, tenho que ir. Sorte é coisa bem rara.
Juro, porém: já não tenho medo da morte.


(Raimundo Cintra e Rose Marie Muraro. As Mais Belas Orações de Todos os Tempos. Rio de Janeiro. Livraria José Olímpio Editora, 2S edição, 1970, p. 139).


DESEJO DE ETERNA FELICIDADE
     Além de dentro do homem existir essa voz que reprova suas más ações, e a ideia de que acima de nós há um Ser superior e perfeito, devemos nos lembrar também que dentro de toda pessoa existe um desejo de total felicidade.
     Porém, conforme sabe muito bem a experiência humana, não é possível chegar-se à plena felicidade aqui na Terra. Deve existir então alguma coisa ou um Ser capaz de satisfazer essa sede de felicidade, pois a natureza não criaria algo impossível de ser atingido.
     Conclui-se, portanto, que a felicidade pela qual todos anseiam, existe. Não nas coisas criadas, e sim fora deste mundo há um Ser com totais poderes de satisfazer plenamente o desejo de felicidade dos seres humanos. Este ser é Deus.
     Foi ele quem colocou no coração do homem o desejo de felicidade eterna. É por esse motivo que o ser humano vive sempre faminto de algo que está além do mundo e muito acima dele mesmo.
     Na tentativa de satisfazer esse anseio, muitas vezes as pessoas mergulham nos prazeres que o mundo lhes oferece; porém, no fim de tudo elas sempre se sentem frustradas, e reiniciam sua busca de felicidade eterna, como um prisioneiro que mede todos os limites de sua prisão, e conta, com impaciência, todas as horas do seu exílio.
     O ser humano sempre buscará a Deus em todos os tempos, por todos os caminhos e no mais profundo de sua consciência. Porém, apesar de estar ciente de que a Natureza, além de o sustentar com suas dádivas e sua força, tem sido dominada em parte pela tecnologia e está a serviço da humanidade, o homem sabe que através dela não conseguirá descobrir qual é a finalidade de sua existência.
     Na própria sociedade onde vive, e na qual busca proteção, ele reconhece que corre o perigo de ser aniquilado. Nela, o ser humano também não conseguirá saber qual é a razão de sua vida.
     Se ele tivesse sido dotado de poderosas asas que lhe permitissem voar, certamente seu desejo de desvendar o Mistério o conduziria às moradas do Altíssimo, às regiões superiores onde vive Aquele que exerce domínio sobre todas as coisas.
     Sua consciência lhe diz que há um Deus soberano, oculto na obscuridade do Mistério, mas sua inteligência limitada, finita, não pode chegar até ele. O escritor francês Littré expressou esse desejo e essa insatisfação do ser humano ainda não alcançado pela graça, ao escrever:
    "O Absoluto, o Infinito é como um oceano que vem bater às nossas praias, para o qual não temos nem barcos nem asas."
     Porém, esse "barco", essas "asas" sobre os os quais fala Littré poderão ser dados ao homem por Jesus Cristo. Ele é a maior revelação de Deus à humanidade, a única resposta a todos os anseios do ser humano, o único caminho que conduz a Deus: "... Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai, senão por mim", disse Jesus (João 14.6).
     Deus fez uso de vários meios para testemunhar de sua existência ao ser humano, porém, de nenhum desses meios ele fez um caminho de salvação, a não ser através de seu Filho Jesus Cristo. Encerramos este artigo citando a bela oração do escritor inglês Martineau (1802-1876):
     "Ó Deus, que és, que eras e que hás de ser, perante as gerações que se levantam e passam; de geração em geração os vivos te buscam, e sabem que tua fidelidade não tem fim. Tu, fonte única da paz e da justiça, tira o véu de todo o coração, e une a todos nós em verdadeira comunhão com os teus profetas e santos, que confiaram em ti e não foram decepcionados..." (Citado por Leonel Franca, in O Problema de Deus. 2a. edição, Rio de Janeiro, Livraria Editora Agir, 1955, p. 58.)
     Jefferson Magno Costa

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