quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

CEGUEIRA: UM CEGO GUIANDO OUTRO CEGO, QUAL É O MAIS CEGO? (Ajuda para sua pregação)


Jefferson Magno Costa
     Em João 15.14, ao criticar os escribas e fariseus, Jesus comentou que a atitude deles era semelhante a de um cego guiando outro cego. O guiado era cego, e o guia também era cego.
    Então, qual desses dois cegos era mais cego: o que guiava ou o guiado? Muito mais cego era o guia. Porque o cego que se deixava guiar reconhecia que era cego, enquanto o que se tornara guia do outro estava tão longe de reconhecer sua cegueira, que achava que podia emprestar seus olhos cegos ao cego que ele guiava.
     O primeiro era cego uma só vez; o segundo, duas vezes. Uma vez porque o era, e outra vez porque não o reconhecia.
     O cego que reconhece sua cegueira não é totalmente cego, porque pelo menos vê (ou reconhece) o que lhe falta: a visão. O ponto mais extremo da cegueira é padecê-la e não a reconhecer. Tal era o estado daquele cego que guiava o outro cego. Ele perdera o sentido da cegueira.
     Quando a natureza tira de uma pessoa o sentido da visão, dá a ela o sentido (ou a consciência) da cegueira, para que o cego reconheça que é cego e busque a ajuda dos olhos alheios.
     Porém, os escribas e fariseus estavam tão completamente cegos, que não só tinham perdido o sentido da visão, mas também o sentido da cegueira: o da visão, porque não viam, e o da cegueira, porque não a viam em si mesmos.
(A. V. adapç. do trec. do serm. da Quin. Quart-fei. da Quar. Lisb. 1669)
Jefferson Magno Costa

REFLEXÃO BÍBLICA/ PROVA: ANTES DE SUPRIR NOSSA NECESSIDADE, DEUS PROVA NOSSA FIDELIDADE

Jefferson Magno Costa
     Todos os que servem fielmente ao Senhor, podem, a qualquer momento, sentir falta do necessário para sua subsistência. Mas isto não significará que Deus retirou da vida dessas pessoas o seu cuidado e a sua provisão. Deus nos prova para que demonstremos se lhe somos fiéis. Ele nos prova “... para saber o que estava no teu coração, se guardarias os seus mandamentos, ou não”, Dt 8.2b.
A Palavra de Deus está cheia de exemplos de personagens bíblicos que antes de serem abençoados, foram provados.
     Abraão foi um homem muito rico por ter servido fielmente ao Senhor, mas primeiro foi provado com o desterro e até com o quase sacrifício do seu único filho. José tornou-se o poderoso e rico governador do país dos faraós por ter servido fielmente ao Senhor, mas primeiro foi provado com o cativeiro.
Davi foi um rei muito rico por ter servido fielmente a Deus, mas primeiro foi provado com as perseguições. Jacó tornou-se um patriarca riquíssimo por ter sido servo fiel do Senhor, mas antes foi provado com muito trabalho.
     E a muitos personagens do Novo Testamento aconteceu o mesmo. Certa vez, a um imenso grupo deles Jesus Cristo não deu de comer no primeiro dia, nem no segundo, mas somente no terceiro (Mc 8.2).
     Depois que provou a constância e a paciência com que O seguiam, então lhes deu o pão abundante, multiplicado pelo milagre. Primeiro os provou, e depois os proveu. Em Deus não há prover sem provar.
Se você está em prova, mantenha-se fiel ao Senhor, e não se esqueça: ela é sinal de que a qualquer momento chegarão em sua vida a abundância e a provisão de Deus.
     (A.V. adapt. do trech. do Serm. Da Quart. Dom. da Quar. Mar. 1657)
Jefferson Magno Costa

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O QUE É BELO PARA VOCÊ PODE NÃO SER BELO PARA MIM: UMA AMPLA DISCUSSÃO ENTRE A TEOLOGIA CRISTÃ E A FILOSOFIA GREGA SOBRE O QUE É A BELEZA

Jefferson Magno Costa
     Por que será que Jacó, após ter trabalhado sete anos para receber Raquel como esposa, mas em seu lugar recebeu Lia das mãos daquela raposa velha chamada Labão, aceitou trabalhar mais sete anos pela filha mais nova do seu tio? Por amor a Raquel, seria a resposta mais plausível.
     O relato completo dessa sublime história de amor está registrado nos 30 primeiros versículos do capítulo 29 de Gênesis. O fato é que quando Jacó viu Raquel, foi amor à primeira vista. Ela era “formosa de porte e de semblante” (ARA).
     A beleza da moça foi um fator decisivo para o nascimento do amor que o primo sentiu pela prima durante toda a sua vida.
     Curiosamente, as duas edições bíblicas mais lidas em língua portuguesa, a Almeida Revista e Corrigida e a Almeida Revista e Atualizada, usam dois termos de sentido antagônico para nos informar algo sobre os olhos de Lia. A filha mais velha de Labão tinha “os olhos baços” (ARA), ou “tenros” (ARC).
     Se eram “baços”, podemos crer que eram de visão fraca, o que talvez levasse a moça a semicerrá-los para enxergar melhor. Ou talvez ela sofresse de uma doença muito comum naquela época: conjuntivite crônica. Porém, se eram “tenros”, eram “brandos, ternos, delicados”, segundo definição do Dicionário Houaiss.
     Acima de qualquer discussão de beleza ou feiúra, Lia não era nenhuma mulher para se jogar fora. Jacó poderia muito bem ter-se dado por satisfeito quando a recebeu como esposa, pois ela demonstrou ser uma excelente companheira, uma mulher amorosa, submissa ao marido e temente a Deus.
     Suportou pacientemente as demonstrações de preferência de Jacó pela esposa mais nova (e certamente, mais bonita). Porém, Deus tomou o partido da desprezada Lia tornando-a fértil, enquanto a preferida Raquel chorou muitos anos na esterilidade (Gênesis 29.31). Lia deu a Jacó seis filhos e uma filha.
     Dois desses filhos, Judá e Levi, foram pais de reis e sacerdotes de Israel, e da descendência de Judá nasceu Jesus.
     Como o assunto que estamos tratando aqui é o da beleza, vejamos se os antigos gregos, que se tornaram mundialmente famosos por suas reflexões filosóficas sobre a beleza, podem nos ensinar algo de relevante e útil sobre o assunto.
     A história registra que o mais importante diálogo que os gregos já tiveram sobre a beleza, ocorreu durante um banquete em que o filósofo Sócrates esteve presente. Esse debate foi imortalizado na obra do filósofo Platão, discípulo de Sócrates, e publicado com o nome de O Banquete.
      Bom seria que viajássemos no túnel do tempo até a Atenas de Socrates, e participássemos desse banquete. É o que vamos fazer agora.
     Portanto, deixemos Jacó e sua abençoada família naquela bíblica cidadezinha da Mesopotâmia, Padã-Harã, e entremos na capital cultural da Grécia, Atenas.
     Perguntemos às pessoas que passam por nós com ar distraído e dando a impressão de que já estão bêbadas, se sabem onde é a casa de Agaton. Alguém nos aponta uma direção. Caminhemos para lá. 
      Como sei que, no tempo histórico em que estamos, banquete de grego quase sempre termina em cenas impróprias para um cristão, sugiro que não batamos à porta, e sim que saquemos as nossas Bíblias, recuemos alguns passos, corramos e entremos precipitadamente porta à dentro.



“PREPARAS UMA MESA PERANTE MIM NA PRESENÇA DOS MEUS INIMIGOS”
      Prezado leitor: Esqueci de lhe dizer que quem estava invadindo conosco aquele banquete pagão era um grande amigo nosso, uma das maiores glórias da teologia e da filosofia cristãs.
     Após converter-se ao cristianismo em 386 d.C., nosso amigo passou a ser considerado o segundo ou o terceiro maior apologista da fé cristã. Ele era capaz de citar de cor quase toda a Bíblia.
     Estou falando de Aurélio Agostinho. Eu sabia que por ele estar conosco dentro de uma sala onde o próprio Sócrates se encontrava, “o bicho ia pegar”.
     Ali também estavam presentes Fedro, retórico; Ágaton, poeta e dono da festa; Aristófanes, comediógrafo; Aristodemo, discípulo de Sócrates; Erixímaco, médico; Pausânias, artista plástico, e o militar Alcibíades.
Entre os convidados, nenhuma mulher. Esse fato deixou-me com um pé atrás, e levou Agostinho a erguer a sobrancelha esquerda.
     A presença de mulheres em banquetes gregos no tempo de Sócrates era raríssima. Enquanto os homens compareciam a essas reuniões para comer, beber, cantar e filosofar, as mulheres ficavam trancafiadas em casa... falando mal deles, certamente.
     Para nos fazer companhia, eu também poderia ter convidado o ilustre teólogo e filósofo judeu-português Iehudad Abravanel, nascido em Lisboa em 1465, que passou a ser conhecido entre os demais filósofos e teólogos da Europa como Leão Hebreu.
     Na tentativa de estabelecer uma concordância entre a Bíblia e a filosofia de Platão e Aristóteles, Leão Hebreu escreveu os sublimes Diálogos de Amor, que estaremos publicando em breve.
     Mas Agostinho era mais do que suficiente para nos acompanhar como representante da fé cristã. Aquele homem alto, espadaúdo, de braços musculosos, pele morena e cabelos crespos, cujas avantajadas narinas davam a impressão de que, a qualquer momento, iriam soltar labaredas de fogo e cinzas incandescentes, fazia-me lembrar aquele anjo do Senhor que, em um único ataque, aniquilou 185 mil inimigos assírios (2Reis 19.35).
     Fisicamente, aqueles gregos, com suas túnicas brancas e rosadas, não eram páreo para nós. Porém, intelectualmente... é o que iríamos ver.
     Ao transpormos a porta, Aristófanes ou Erixímaco, não lembro qual dos dois, perguntou a Agostinho se ele também estava ali para beber em honra a Dionísio (o Baco dos romanos), o deus do vinho e da embriaguês.
     Imediatamente, Agostinho respondeu usando uma de suas mais lindas descrições do cristão em busca do nosso Deus:
     “Quando eu busco a meu Deus, não busco forma de corpo, nem formosura transitória, nem brancura de luz, nem melodia de canto, nem perfume de flores, nem unguentos aromáticos, nem mel, nem maná deleitável ao paladar, nem outra coisa que possa ser tocada ou abraçada. Nada disso busco, quando busco a meu Deus. Porém, acima de tudo isso, quando busco a meu Deus, busco uma luz sobre toda luz, que os olhos não veem; e uma voz sobre toda voz, que os ouvidos não ouvem; e um perfume sobre todo perfume, que o nariz não sente; e uma doçura sobre toda doçura, que o paladar não conhece; e um abraço sobre todos os abraços, que o tato não alcança. Porque esta luz resplandece onde não há lugar, e esta voz soa onde o ar não a leva, e este perfume é sentido onde o vento não derrama, e este sabor deleita onde não há paladar, e este abraço é recebido onde nunca será desfeito”.
     Percebi imediatamente que o bravo e douto Agostinho entrara ali para higienizar e moralizar aquele banquete pagão. E sobretudo para "cristianizar" o tema que seria tratado no banquete. A beleza seria discutida sim, mas a partir de sua fonte principal e maior, o Deus dos cristãos. 
     Agostinho e eu poderíamos muito bem olhar para Jesus, e exaltando-o como Soberano entre vivos e mortos, entre todos os deuses pagãos e diante daqueles ilustres debatedores gregos, dizer: "Senhor, todas as minhas fontes estão em ti", Salmo 87.7. 

AGOSTINHO E SÓCRATES FRENTE A FRENTE NO BANQUETE
     Ao ouvirem aquela sublime descrição que o teólogo africano Aurélio Agostinho apresentou sobre a busca que a alma cristã empreende para encontrar o seu Deus, todos aqueles homens permaneceram calados por algum tempo, demonstrando estar possuídos dos sentimentos mais diversos.
     Enquanto olhava diretamente para Sócrates a fim de ver qual seria sua reação, Aristodemo tinha o ar de espanto. Fedro permanecia de cabeça baixa, visivelmente impactado pelo que ouvira. O comediógrafo Aristófanes, como era de se esperar, esboçava um sorriso de ironia. Abanando-se nervosamente com um leque, o artista plástico Pausânias não escondia sua admiração.
     Enquanto cochichava algo no ouvido de um dos seus servos, Ágaton deixava bem claro que desejava saber quem eram aqueles dois invasores de sua mansão e do seu banquete (no caso, eu e Agostinho), por que estávamos ali, e o que queríamos.
     O médico Erixímaco mantinha-se impassível, olhando fixamente para nós, tentando descobrir se já nos conhecia.
     Visivelmente bêbado, e com uma taça de vinho na mão, Alcebíades era o único que parecia não ter nenhum interesse por nós.
     Foi então que Sócrates levantou-se do divã onde já estava acomodado para saborear as iguarias e a bebida que lhe seriam servidas, deu alguns passos em nossa direção e, dirigindo-se mais ao meu amigo Aurélio Agostinho do que a mim, disse:
     — Ilustres e desconhecidos visitantes, em nome de todos os presentes, e em especial em nome de nosso amigo e anfitrião Ágaton, dou-lhes as boas-vindas. Alguns minutos antes de os senhores entrarem nesta sala, havia sido proposto que cada um de nós faria um discurso sobre a beleza, mas vejo que teremos de desviar por alguns minutos o nosso assunto para um tema que também nos é especialmente interessante, pois está intimamente ligado à beleza, e é a origem dela: Deus.
     — Minhas reflexões —continuou Sócrates — têm-me levado a algumas conclusões sobre esse ser que está acima de todos nós. Querem ouvi-las?
     Amigo leitor, na preocupação de preparar a sua mente e o seu espírito para esse momento inigualável em que o mais arguto filósofo pagão conversará sobre Deus com o mais genial e perspicaz teólogo cristão (depois do apóstolo Paulo, é claro), cabe informar que, de todos os homens que falaram sobre Deus antes da Era Cristã, o mais profundo dentre eles foi Sócrates. A prova disto está nos Diálogos do seu discípulo Platão.
     Sócrates mesmo não deixou nada escrito. Tudo o que ele ensinou foi imortalizado nas obras de Platão.
     O grande pregador e teólogo francês Bossuet chamava-o de “divino”, e outros teólogos chegaram a compará-lo a Moisés. “Era Moisés meditando e filosofando em grego”, observou genialmente certa vez o pregador britânico Charles Spurgeon.
     Coube ao esplendoroso teólogo e pregador francês do século XIII, Bernardo de Clarivaux, fazer o elogio do mestre e seu discípulo, Sócrates e Platão.
     Em um texto de suas insuperáveis pregações sobre o livro de Cantares, Bernardo de Clarivaux declarou que aqueles dois homens, apesar de terem vivido no epicentro da cultura pagã, foram “frontes iluminadas pelos esplendores do gênio, aureoladas pela glória do saber, consagradas e abençoadas pela memória dos homens, mas que também se curvaram, humildes e reverentes, diante das provas da existência de Deus, e, a seu modo, o adoraram”.
     Mas o fato é que, sem terem conhecido a Cristo, esses filósofos viveram na penumbra, interrogando e buscando sempre.

SÓCRATES RECONHECE A EXISTÊNCIA DO VERDADEIRO DEUS
     Ao contrário do que muitos ateus pensam, as maiores inteligências que o mundo já viu, os gênios que deixaram as marcas mais profundas de sua passagem sobre a face da terra, reconheceram a existência de Deus.
     Apesar de a maioria desses homens jamais ter alcançado o pleno conhecimento da verdade (pois suas mentes não haviam sido banhadas na fé e na graça daquele que lhes daria a mais completa revelação de Deus – Jesus Cristo), eles vislumbraram a existência de Deus como alguém que, de dentro da escuridão da noite, contempla uma porta fechada e, ao ver o brilho que escapa pelas frestas da porta, sabe que por trás dela brilha uma luz.
     A Porta é Cristo. A Luz é Deus. Sócrates foi um desses homens que parou diante da Porta e contemplou alguns vislumbres da Luz, mas permaneceu do lado de fora.
     Após ficar de pé diante de nós, o maior filósofo grego perguntou a mim e ao meu amigo e gigante da teologia cristã, Aurélio Agostinho, se queríamos ouvir as conclusões a que ele chegara após investigar e meditar sobre Deus. Em uníssono, eu e Agostinho dissemos que sim.
     É muito importante lembrar ao leitor que essas conclusões que Sócrates iria nos apresentar foram um dos motivos que, alguns anos após aquele banquete, levaram os juízes atenienses a condenarem o grande filósofo à morte.
     Sócrates foi acusado de estar levando os jovens de sua época a não acreditarem no politeísmo – crença na existência de muitos deuses –, e sim a aceitarem como verdade o monoteísmo – crença na existência de um só Deus.
     Após alisar as dobras do manto à altura de sua monumental barriga, Sócrates deu um passo à frente, levantou o braço direito, e com o dedo indicador apontado para o céu, disse:
     – Acredito na existência de um único Deus todo-poderoso, dotado de sabedoria e bondade absolutas, provadas com a sublime harmonia do universo e com a maravilhosa organização do corpo humano. Se abrirmos nossos olhos, veremos a luz. Mas em seguida o nosso olhar será naturalmente direcionado para cima, para a origem da luz natural, que é o Sol. Da mesma forma, quando os olhos do espírito se abrem, veem a verdade. E o segundo olhar do nosso espírito volta-se para onde se origina toda a Verdade, para o sol dos espíritos, para Deus.
      — Existe na alma um ponto central — prosseguiu o célebre filósofo grego —uma região onde Deus se manifesta ao ser humano, tocando-o nesse ponto e suspendendo-o até Ele. Esse ponto eu costumo chamar de “a voz da consciência”, ou “a lei natural gravada no coração do ser humano”. Com relação à fé na existência de um só Deus, há nos diversos povos uma harmonia unânime que faz da humanidade uma só família.
      — A crença em um só Deus é anterior a qualquer civilização — continuou Sócrates —. Os viajantes não descobriram um povo sequer sem reconhecerem nele pelo menos a existência de um culto, mesmo o mais simples, mesmo o mais grosseiro.
      — Quanto a esta evidência — prosseguiu o filósofo —, todos os sábios não têm mais que uma voz. Há uma filosofia universal, uma sabedoria natural e comum; ela é a mesma no meio de todos os povos, entre todos os homens dóceis à luz da razão; é ela que nos conduz ao reconhecimento da existência de um único Deus.
     Enquanto ouvia aquelas sublimes e inesquecíveis palavras, contemplei o rosto do meu amigo Agostinho e dos demais homens presentes naquela sala. Todos estavam impactados e maravilhados. Após alguns minutos de silêncio, Agostinho falou.

ALIMENTO ESPIRITUAL SERVIDO EM PLENO BANQUETE PAGÃO
 Antes que meu amigo Aurélio Agostinho abrisse suas asas de águia e alçasse um altaneiro e triunfante voo, revelando, diante daqueles doutores do paganismo, suas grandiosas experiências com o nosso Deus, o Deus dos cristãos, pedi licença a Agostinho, e disse algo que aqueles gregos precisavam saber:
     — Senhores, o que vocês ouvirão a seguir dos lábios do meu amigo Agostinho faz parte de uma obra de sua autoria. O que ele falará aqui está escrito nas páginas de um dos mais belos, profundos e inspirados livros da história do cristianismo, que tem como título Confissões.
     Agostinho agradeceu-me efusivamente aquele aparte, e olhando bem dentro dos olhos de Sócrates, disse:
     — Antes de apresentar qualquer conceito sobre o único e verdadeiro Deus, permita-me, caro filósofo, repetir aqui as palavras que usei na introdução do meu livro Confissões. É uma oração; são palavras que eu diria de joelhos, diante do meu Deus:
     “Tu és grande, Senhor, e mui digno de ser louvado! Grande é o teu poder, e não há quem possa descrever tua sabedoria. E assim mesmo o homem quer louvar-te, quando ele é tão-somente parte de tuas criaturas.
     "O homem, que anda rodeado e cingido pela morte, e traz consigo o testemunho do seu pecado, o testemunho que lhe avisa como tu resistes aos soberbos, mesmo assim quer louvar-te. Tu, na verdade, o moves, e o levas a te render louvores.
     "Pois tu nos criaste para ti, ó Senhor, e a nossa alma vive inquieta, enquanto não repousa em ti!
     “Senhor meu, faze-me esse imenso favor: ensina-me qual destas duas coisas devo fazer em primeiro lugar: Devo conhecer-te primeiro, ou primeiro que tudo te invocar?
      "Mas como poderá chamar-te para que o ajudes aquele que não te conhece? Porque aquele que te invocasse, não te conhecendo, poderia facilmente errar, chamando uma coisa por outra.
     "E creio que aqui está o porquê de muitos invocarem outros deuses, e não a ti, único e verdadeiro Deus. Ah, Senhor! Dize-me se é necessário invocar-te para depois conhecer-te.
     "Porém, como, pois, invocarão aquele em quem não creram?, pergunta o apóstolo Paulo (Romanos 10.14a); e como crerão naquele de quem não ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? (Romanos 10.14b)
     “Louvarão o Senhor os que o buscam, porque estes o acharão; e achando-o, o louvarão.
     "Senhor, eu te buscarei, invocando-te; e invocar-te-ei, crendo em ti, porque acerca de ti tem pregado a minha fé, a qual tu me deste e inspiraste através da humanidade de teu Filho, que é o teu Pregador por excelência.
     “Mas como invocarei o meu Deus e Senhor meu? Por certo para a habitação de mim mesmo tenho de o chamar, quando o chamar.
     "Mas que lugar há em mim, para que seja possível vir a mim o meu Deus? Será que é possível vir a mim o Deus que fez os Céus e a Terra? Onde, Senhor meu, há em mim espaço em que possas caber?”
     Enquanto Agostinho elevava-se nas sublimes asas da inspiração, Sócrates o escutava de cabeça baixa e os olhos semi-cerrados. Olhando com mais atenção para o rosto do filósofo, vi indícios de lágrimas nos cantos dos seus olhos, que ameaçavam deslizar por sua face.

AGOSTINHO CONVIDA SÓCRATES A MORAR NA CIDADE DE DEUS
     Aproveitando aquele momento raro em que Sócrates, o mais ilustre filósofo pagão, estava visivelmente impactado pelas palavras de Agostinho, o mais inspirado e genial teólogo cristão, pedi licença a Agostinho, e solicitei que ele resumisse para Sócrates e os demais ouvintes a proposta temática de outro dos seus monumentais livros: A Cidade de Deus.
     Usando seu imenso poder de síntese, Agostinho resumiu essa obra, que é considerada a visão teológica mais rica e sólida que algum cristão já concebeu sobre a participação de Deus na História:
     "Dois amores fundaram e congregam duas cidades neste mundo: o amor próprio, egoísta, que leva ao desprezo de Deus fundou e agrupa a população da Cidade terrena; e o amor a Deus, altruísta, que leva ao desprezo de si próprio, fundou e agrupa a população da Cidade celestial.
     "Ambas cidades existem neste mundo. Seus habitantes convivem e caminham lado a lado.
     "Porém, uns, para a condenação eterna; outros, para a Jerusalém eterna. A população da primeira gloria-se em si mesma; a população da segunda, gloria-se em Deus.
     "A gloriosa Cidade de Deus prossegue em seu peregrinar através da impiedade e dos tempos, vivendo cá embaixo pela fé, e com paciência espera a firmeza da Mansão eterna. (...)
     "Nesta obra, que ainda estou escrevendo, ó Sócrates, pretendo defender essa Cidade eterna contra os homens que preferem adorar as divindades do paganismo, e rejeitam o divino Fundador da Cidade de Deus.
     "O Rei e Fundador dessa gloriosa Cidade revelou a seu povo essa norma da suprema lei: 'Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes', Tiago 4.6.
     "Falarei, portanto, da Cidade terrena, senhora dos povos escravos e, por sua vez, dominada pela paixão de dominar.
     "Coisa alguma calarei do que a razão determinante dessa obra solicitar, e minha inteligência permitir. Ambas as Cidades enlaçam-se e confundem-se no mundo, e isto perdurará até que o Juízo Final as separe.
     "Nesta obra desmascararei todos os deuses do paganismo. Mostrarei que o povo judeu, sob o poder do Deus único e verdadeiro, e não sob a influência dos muitos e falsos deuses, multiplicou-se grandemente no Egito, e foi tirado de lá debaixo da mão poderosa e da grande glória do Senhor.
     "As mulheres judias, para terem os seus filhos, não invocaram a deusa Lucina, e sim ao verdadeiro Deus. Seus filhos mamaram sem a ajuda da deusa Rumina, e mantiveram-se sãos e salvos no berço sem a ajuda da deusa Cunina. Sem a ajuda das deusas Educa e Potina, as crianças receberam comida e bebida de suas mães.
     "Foram educadas sem a ajuda dos deuses pueris cultuados por gregos e romanos, casaram-se sem a influência dos deuses conjugais, e sem a ajuda do deus Príapo, uniram-se a suas mulheres.
     "Os judeus, sem invocarem o deus Netuno, mas guiados pelo Senhor, atravessaram o mar Vermelho a pé enxuto. Quando receberam o maná do céu, não adoraram nenhuma deusa Mânia.
     "Ilustre filósofo Sócrates, convido-o a tornar-se cidadão dessa Cidade Eterna, governada pelo único e verdadeiro Deus" — concluiu Agostinho.
     Jefferson Magno Costa

sábado, 19 de fevereiro de 2011

TENTAÇÃO: O QUE OS AMIGOS DE JÓ FIZERAM CONTRA ELE SEUS AMIGOS TAMBÉM PODEM FAZER CONTRA VOCÊ (Ajuda para sua pregação)

Jefferson Magno Costa
     Seus amigos são seres humanos? Caso sejam, tenha muito cuidado com eles. Porque alguns dos nossos amigos também podem agir como tentadores. Não estou generalizando. Estou falando de alguns. E esses, quando tentam, têm mais poder para derrubar do que o próprio diabo. O que os amigos de Jó fizeram com ele prova isto.
     Proibido unicamente de tirar a vida de Jó, em nenhuma outra ocasião o diabo teve mais ampla liberdade para tentar um ser humano com toda a sua artimanha e fúria do que quando tentou o patriarca de Uz. Seu objetivo era levar Jó a blasfemar contra Deus.
     O demônio atacou o patriarca na área dos seus bens materiais, arrebatando-os todos de uma só vez. Tentou na área de sua família, matando todos os seus filhos na mesma ocasião. E tentou-o na área da saúde, cobrindo o corpo do patriarca de lepra, tornando-o uma verdadeira chaga viva.
     E o que fez ou disse Jó após sofrer todos esses terríveis ataques? “Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá; o Senhor o deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jo 1.21).
     Para surpresa do diabo, Jó demonstrou que seu coração continuava cheio de amor, de humildade, de reverência e de resignação diante da vontade de Deus para com ele. E coroou sua atitude adorando ao Senhor com o rosto no pó (v. 20).
     A Bíblia registra o grandioso testemunho de que o demônio, mesmo desabando toda a sua fúria sobre o que Jó possuía de mais precioso, não conseguiu levá-lo a blasfemar contra Deus: “Em tudo isto Jó não pecou nem atribuiu a Deus falta alguma” (v. 22)
     Estava Jó naquele estado de indescritível dor e miséria extrema, quando chegaram três amigos para visitá-lo e consolá-lo. Segundo comentários de antigos rabinos, aqueles três homens eram príncipes, e considerados sábios ilustres em seus países.
     Os três amigos de Jó ficaram sete dias e sete noites sentados diante dele, sem dizerem palavra, em respeito ao seu imenso sofrimento. Mas depois falaram, e falaram muito.
     E o que as palavras desses amigos conseguiram produzir no ânimo de Jó? Produziram o que o diabo não tinha conseguido produzir com todas as suas tentações e fúria.
     Conseguiram levar Jó a perder a paciência, a perder a resignação, a perder o autocontrole. Tiraram Jó do sério. Tiveram mais sucesso em infernizar a vida do grande patriarca de Uz do que o príncipe dos infernos tinha conseguido com todos os seus ataques. Como tentadores, mostraram-se mais capazes que o Tentador.
    Puseram-se a argumentar contra o patriarca, acusaram-no, caluniaram-no, levaram-no a uma situação de tanta aflição e aperto, que quase Jó deixou de ser Jó; quase sua firmeza diante das adversidades e sua reverência a Deus naufragaram embaixo do tsunami de palavras provocativas, injustas e insensatas daqueles três amigos.  
    Levaram Jó a dizer coisas tão indignas de sua santidade e de sua sabedoria, a fazer questionamentos tão atrevidos sobre aspectos da Providência e da Justiça divinas, que levou Deus a repreendê-lo asperamente.
    O próprio Jó reconheceu depois essa fraqueza, e declarou ter-se arrependido (Jo 42.3,6). E quase que o Senhor libera um severo castigo sobre aqueles três homens loucos. Só não o fez por ser Deus misericordioso (Jó 42.7,8).
     O versículo 8 do capítulo 42 revela como Jó e os seus amigos ficaram nessa história toda diante da justiça de Deus:
     "... e oferecei holocausto por vós, e o meu servo Jó orará por vós; porque deveras a ele aceitarei, para que eu vos não trate conforme a vossa loucura; porque vós não falastes de mim o que era reto como o meu servo Jó".
      Aquilo que o diabo havia tentado com todos os seus mais eficazes meios e não conseguira (usou, inclusive, a boca da mulher de Jó como última tentativa de levar o patriarca a blasfemar contra Deus, Jó 2.9), os três amigos, sentados tranquilamente diante do patriarca, quase conseguiram.
     Jó, que saíra vencedor, glorioso, triunfante de dentro da nuvem de poeira dos ataques do diabo, quase foi transformado em um monte de pó e cinzas debaixo do ataque daqueles três amigos.
     O demônio era demônio e inimigo; os homens eram amigos, mas homens. E só o fato de serem homens foi suficiente para tentarem a Jó com mais eficácia do que o próprio demônio.
     As tentações do demônio foram para Jó triunfo, exemplo e coroa; e as "consolações" dos amigos quase foram para o patriarca derrota, mau-exemplo e caixão.
     E se isto fizeram a Jó amigos tão sábios e preocupados com a situação financeira, a família, a saúde, alma e a salvação do amigo, o que não poderão fazer amigos néscios, que só pensam em si mesmos, no próprio sucesso, na própria riqueza, na própria felicidade, que não se importam com a alma, a honra e a salvação do amigo tanto quanto não se importam com a alma, a honra e a salvação deles mesmos?
     Que Deus nos guarde de tais amigos tanto quanto nos guarda do diabo.
     (Adapt. do serm. do Sáb. Quart. da Qua. de A.V. Lisb. 1652)
Jefferson Magno Costa

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

AFASTAMENTO: AI DAQUELE DE QUEM DEUS RESOLVER SE AFASTAR!


Jefferson Magno Costa
     O Senhor é longânimo com o pecador, e espera pacientemente que ele se arrependa dos seus pecados e procure o seu perdão. Mas a paciência de Deus tem limite.
     Esse assunto aparece na Bíblia como um detalhe sutil e curioso. A primeira vez que Deus revelou que existe uma medida de tolerância estabelecida por ele para os pecados dos seres humanos, foi em Gênesis 15.16b: “...porque a medida da injustiça dos amorreus não está ainda cheia”.
     Muitos séculos depois, Jesus tornou a falar sobre esse tema da medida da tolerância de Deus para com a iniquidade dos pecadores quando repreendeu as injustiças e impiedades praticadas pelos escribas e fariseus.
     Jesus disse que, apesar de eles se denominarem justos, não passavam de pecadores que enchiam dia após dia a medida de tolerância que Deus estabelecera para os seus pais (e para eles):
     “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que edificais os sepulcros dos profetas e adornais os monumentos dos justos, e dizeis: Se existíssemos nos tempos dos nossos pais, nunca nos associaríamos com eles para derramar o sangue dos profetas. Assim, vós mesmos testificais que sois filhos dos que mataram os profetas. Enchei vós, pois, a medida de vossos pais. Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?” (Mt 23.29-33).
     Quando a medida da paciência de Deus para um determinado pecador se enche, ele retira a sua longanimidade que estava sobre essa pessoa, e afasta-se dela... e ai dela! Em Oséias 9.12b está escrito: “...ai deles, quando deles me apartar!”
     Ah se todos nós entendêssemos o significado de um ai de Deus! Se todos soubéssemos quão alto e quão profundo é esse ai! Tão alto que ecoa por toda a imensidão do Céu, Trono e morada do Altíssimo, do qual o pecador será deserdado para sempre. E tão profundo que penetra até os abismos do Inferno, onde o pecador será lançado para arder enquanto Deus for Deus.
     Porém, antes que tudo isto aconteça, basta um ai de verdadeiro arrependimento para que Deus perdoe todos os pecados de qualquer pecador.
     Porém, se antes que esse arrependimento aconteça a medida da paciência de Deus for preenchida, e Deus der as costas ao pecador e se afastar dele, esse ai de arrependimento será inútil ou sequer existirá.
     Pois sem a atuação do Espírito Santo de Deus, ninguém se converte a Deus (Jo 16.8).
     Que nenhum de nós permita que a medida da longanimidade de Deus para conosco seja preenchida. Antes, busquemos imediatamente e todos os dias o seu perdão e a segurança do seu amor e da sua misericórdia. 
(A. V. Trecho do Serm. do Quart. Sáb. da Quar. 1640)
Jefferson Magno Costa

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

TENTAÇÃO: SOMOS MAIS PERIGOSOS PARA NÓS MESMOS DO QUE OS DEMAIS TENTADORES

Jefferson Magno Costa
     Além do diabo, existe outro ser do qual devemos nos guardar cuidadosamente? Sim. E vale salientar que essa pessoa é mais perigosa para nós do que os demais tentadores. Quem será ela? Nós mesmos.
     O ser humano de quem mais devemos nos guardar sou eu de mim mesmo, é você de você mesmo. Observe o comentário do apóstolo Tiago: “Mas cada um é tentado, quando atraído e engodado pela sua própria concupiscência” (Tg 1.14).
     Somos filhos de Eva, e como bons filhos de Eva, estamos sempre acusando o diabo de ser invariavelmente o agente das tentações que sofremos, e o responsável por nossa queda (Gn 3.13).
     Porém, dentro da nossa complexa natureza humana se escondem intenções e desejos disfarçados, e muitas vezes, para justificarmos as consequências dessas intenções e desses desejos, caluniamos o diabo.
     No pórtico de um dos oráculos dos antigos gregos em Delfos, estava escrito: "Conhece-te a ti mesmo". Devemos nos empenhar nisto todos os dias.
     Não querendo inocentar aqui o diabo, que de inocente não tem nada, e é o Tentador por excelência, e tampouco é nossa intenção deixá-lo desempregado, o fato é que, se considerarmos ao pé da letra o que disse o apóstolo Tiago, muitas vezes nós mesmos assumimos o papel do próprio diabo para conosco.
     Quer guardar-se da tentação? Então guarde-se de si mesmo, vigie-se, proteja-se de sua própria concupiscência.
     Deus pôs Adão no jardim do Éden, e era de se esperar que Ele o tivesse colocado ali para que o primeiro homem tão-somente usufruísse das delícias do jardim. Mas não é isto que o texto bíblico diz: “E tomou o Senhor Deus o homem, e o pôs no jardim do Éden para o lavrar e o guardar” (Gn 2.15).
     Ora, mas de quem Adão deveria guardar o Paraíso? Do diabo? Não, pois sendo o diabo um ser espiritual, seria impossível Adão vê-lo e guardar o Paraíso de suas artimanhas e investidas. Aos anjos do Senhor competia essa função (Ap 12.7).
     Adão deveria guardar o Paraíso dos animais? Não, porque todos eles, antes da Queda, eram-lhe obedientes e submissos (Gn 1.28; 2.19,20).
     Adão deveria guardar o paraíso dos homens? Não, porque ainda não havia outros homens sobre a face da terra.
     Ora, se Adão não tinha que guardar o Paraíso dos homens, nem dos animais, nem do diabo, de quem ele deveria guardar então? Dele mesmo. Pois foi exatamente de quem ele não guardou. E por isso perdeu o Paraíso. Guarde-se Adão de Adão, e o Paraíso estará guardado.
     Alguém pode argumentar: Adão deveria ter guardado o Paraíso de Eva. Mas quem era Eva? Deixemos que Adão responda: “osso dos meus ossos, e carne da minha carne” (Gn 2.23). Portanto, Eva era o próprio Adão.
     Se ele tivesse tomado conta de sua mulher, pois esta era uma das responsabilidades que Deus lhe dera como guardião do jardim, Eva, o lado mais fraco dele mesmo, não teria ficado sozinha e se tornado vulnerável ao ataque da serpente.
     Portanto, ao não tomar conta de Eva, Adão não tomou conta de si mesmo, não guardou a si mesmo.
     Você é homem, é ser humano? Então guarde-se do seu apetite carnal, guarde-se da sua curiosidade, guarde-se da sua concupiscência, guarde-se dos seus olhos, guarde-se dos seus ouvidos, guarde-se de todos os seu sentidos, guarde-se de sua maior fraqueza, seja ela qual for.
     Guarde-se especialmente de sua ambição, que pode tornar-se tão grande que o levará a dar ouvidos à serpente e querer "ser como Deus" (Gn 3.5).
     A escolha foi de Adão. A liberdade de escolher entre obedecer ou desobedecer a Deus pentencia a ele. O livre-arbítrio estava sob o seu controle. Porém, Adão não guardou-se de si mesmo, deixou-se arrastar por sua natureza inclinada à desobediência, não vigiou a si mesmo.
     E foi derrubado por ele mesmo. Eclesiaste 7.29 diz que Deus criou o homem reto, mas ele se meteu em muitas astúcias. E em Gênesis 8.21 o próprio Senhor reconhece que "a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice".
     Durante todos os anos antes de ser declarado rei, Davi guardou-se da perseguição e da fúria de Saul, e até guardou-se algumas vezes de matá-lo, mas depois caiu, porque não guardou-se de si mesmo, de sua carnalidade, de sua fraqueza por sexo (2Sm 11.1-4).
   Durante muitos anos, Sansão guardou-se muito bem de todos os ataques e do ódio dos filisteus, mas terminou sendo lamentavelmente derrotado, porque não guardou-se de si mesmo, de sua fraqueza pelas belas mulheres, pelas astuciosas filhas dos seus inimigos (Jz 16.18-22).
     Portanto, guarde-se Sansão de Sansão, guarde-se Davi de Davi, guarde-se Adão de Adão, e guarde-se cada um de si mesmo.
     (A. V. Trecho do Serm. do Sab. Quat. da Quar. Lisb. 1652)
     Jefferson Magno Costa

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

PASTOR: SÓ QUEM APASCENTA E DEFENDE AS OVELHAS É PASTOR; QUEM SÓ APASCENTA E NÃO AS DEFENDE NÃO É PASTOR


Jefferson Magno Costa
     Quem tem a obrigação de apascentar as ovelhas? O pastor. E quem tem a obrigação de defender essas mesmas ovelhas? Também o pastor.
     Logo, o mesmo pastor que tem o cuidado de as apascentar, terá que ter também a responsabilidade de as defender.
     Esse é o legítimo ofício do pastor: Tocar levemente a ovelha com o cajado para a encaminhar, e brandir fortemente o cajado contra o lobo para o fazer fugir.
     Mas há quem ache que a primeira função, a de apascentar, deveria ser de alguns pastores, e a segunda função, a de defender, deveria ser de outros pastores. Isso até parece opinião ou conselho de lobo!
     Quando Davi andava no campo apascentando as ovelhas de seu pai, e vinha o urso ou o leão para as devorar, o que ele fazia? Será que ia a Jerusalém buscar um ministro do rei Saul para as defender? Se Davi agisse assim, não seria digno de ser chamado pastor.
     Era ele quem as apascentava, e era ele quem as defendia. E as defendia de tal maneira que as arrancava das garras e da boca das próprias feras.
     Porque se o lobo ou o leão tinha engolido o cordeiro pela cabeça, ele arrancava-o da garganta da fera puxando-o pelas patas; se o engolira pelas patas, ele arrancava-o puxando pelas orelhas. Isso é o que descreve o profeta Amós, que também se exercitara no ofício de pastor:
     “Assim diz o Senhor: Como o pastor livra da boca do leão as duas pernas, ou um pedacinho da orelha, assim serão livrados os filhos de Israel, que habitam em Samaria, no canto da liteira, e na barra do leito” (Am 3.12).
     Portanto, está muito enganado quem pensa que a obrigação do pastor é só apascentar, conforme parece significar a raiz etimológica do nome pastor.
     Só quem apascenta e defende as ovelhas é digno de ser chamado pastor; e quem não defende, ainda que apascente, não é digno de ser assim chamado.
     Quando Jesus comparou o pastor com o mercenário, fez as seguintes observações: “Eu sou o bom pastor; o bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. Mas o mercenário, que não é pastor, de quem não são as ovelhas, vê vir o lobo, e deixa as ovelhas, e foge; e o lobo as arrebata e dispersa” (Jo 10.11,12. ARA).
      O grande detalhe que deve ser observado aqui é o fato de Jesus dizer que o mercenário não é pastor. Mercenário era aquela pessoa que, por um salário previamente combinado, apascentava as ovelhas.
      Ora, se o mercenário também apascentava as ovelhas, por que será que Jesus diz que ele não é pastor? Porque, mesmo que apascente, ele não as defende. Ao ver o lobo se aproximando, foge.
     Está tão profundamente entranhado no ofício de pastor a obrigação de defender as ovelhas, que se ele as defende, é pastor; se não as defende, não é pastor.
     Como Cristo, em João 10.11,12, começa falando sobre Ele mesmo, que é o bom pastor, o correto seria esperar que Ele fizesse a comparação entre o bom pastor e o mau pastor, e dissesse que o bom pastor é aquele que defende as ovelhas, e o mau pastor é aquele que não as defende.
     Mas o Senhor Jesus não fez a comparação entre ser bom ou ser mau, e sim entre ser ou não ser. Diz que o que defende as ovelhas é bom pastor, e não diz que o que não as defende é mau pastor. Por quê?
         Porque o que não defende as ovelhas não é pastor bom nem mau. Simplesmente não é pastor.
     Não podemos dizer que um lobo é bom homem ou mau homem, porque não é homem. Da mesma maneira, não podemos dizer que aquele que não defende as ovelhas é bom ou mau pastor, porque não é pastor. Se não é pastor, o que será então?
     (A. V. Trecho do Serm. Da Epif. Cap. Re. 1662)
     Jefferson Magno Costa

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