terça-feira, 6 de setembro de 2016

A FORÇA DA LONGANIMIDADE


Jefferson Magno Costa

Longanimidade é outra das divisões do fruto do Espírito Santo (um gomo, como se esse fruto fosse uma laranja), e caracteriza uma pessoa que enfrenta as adversidades da vida com coragem, perseverança e confiança em Deus. Longanimidade também está relacionada com generosidade e bondade. Quem tem a grande paciência para suportar ofensas e calúnias pode ser considerada uma pessoa longânime.

Nosso ego deve ser resistido
A maior e mais verdadeira prova de amor que podemos dar é negarmos todos os dias o nosso eu e nos esforçarmos para sermos simpáticos e convivermos com pessoas que não vão com a nossa cara, que fingem que não nos veem quando passam por nós, que nos criticam e falam mal de nós pelas costas. É exatamente a essas pessoas que devemos doar a nossa atenção, os nossos cuidados, o nosso amor.

Pois foi exatamente isso que Jesus nos ensinou: “Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem” (Mt 5.44). Devemos compreender, aceitar, apoiar, conviver e amar essas pessoas. Isso é resistir ao nosso ego. O amor afirma, o ódio nega.

Como cultivar a longanimidade?
A longanimidade, esse preciosíssimo componente do fruto do Espírito, nos transforma na pessoa que nos queremos nos tornar, na pessoa que nós queremos ser. Na arte de viver, é preciso aprender ouvir, sorrir e ter paciência. Todavia, ter paciência é difícil, mas o resultado é gratificante. Com a passagem do tempo aprendemos a ter paciência. Quanto menos tempo de vida nos resta, maior é a nossa capacidade de esperar.

Ter paciência é o primeiro passo rumo à realização de um sonho. Aprendamos, portanto, a ter paciência e a esperar. Nem tudo acontece quando queremos. O tempo tem sido meu professor, sua principal lição tem me ensinado a ter paciência, ensinado a esperar. A colheita requer um tempo. Nós, como servos de Jesus Cristo, temos de aprender a ter paciência, saber ouvir e nos colocarmos no lugar do outro, por mais problemático que ele seja, pois quem ouve e compreende tem o dom de se colocar na mesma situação, entender o problema, e dar força para juntos encontrarmos a solução. Deus tem o melhor para cada um de nós. Basta termos paciência, e tudo chegará no momento certo.


A longanimidade é uma bênção

Quem é longânimo também é fiel. O segredo da fidelidade é a eterna vigilância com relação a nós mesmos, e com relação aos nossos compromissos com Cristo. A Palavra de Deus diz em Apocalipse 2.10: “Nada temas das coisas que hás de padecer. Eis que o diabo lançará alguns de vós na prisão, para que sejais tentados; e tereis uma tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida”.

Jesus também disse que era para amarmos uns aos outros. Quando se ama, a longanimidade e a fidelidade não custa nada. “É comum ter um amigo, mas a sua fidelidade é rara”, disse o fabulista grego Fedro (15a.C.-50d.C.) E quanto ao amor do esposo pela esposa é tão absurdo dizer que ele não pode amar a mesma mulher durante toda a sua vida, quanto dizer que um violinista precisa de diversos violinos para tocar a mesma música. “Só a pessoa que manda com amor é servida com fidelidade”, disse o grande teólogo espanhol Francisco de Quevedo (1580-1645).


A credibilidade é fruto da longanimidade

O que é credibilidade? É a qualidade daquilo ou de quem é digno de confiança. Por exemplo: A Bíblia é o livro mais crível, de maior credibilidade sobre a face da Terra: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade” (Jo 17.17). A pessoa que é digna de credibilidade consegue ou conquista a confiança de alguém; possui crédito. Quantos de nós somos dignos de credibilidade? Quantos de nós possuímos crédito?

Certo professor disse aos seus alunos: “Transportai um punhado de terra todos os dias e no final de alguns anos construireis uma montanha”. O que vale a pena possuir vale a pena esperar. A longânime perseverança faz com que as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem. Quem não é longânime corre o risco de ser um traidor. A traição de um amigo é mais dolorosa do que um amor não correspondido. O caso de Judas e Jesus é o maior de todos os exemplos.


Quem é longânimo ama sem ser amado

Podemos definir o inferno com três letras: amor não correspondido. É incrível como Alguém possa romper o seu coração por amor a alguém, e Ele continuar amando essa pessoa com cada um dos pedaços do Seu coração. Foi isso que Jesus Cristo fez por nós: Ele nos amou primeiro quando nós ainda éramos seus inimigos e não o conhecíamos: “Nós o amamos porque ele nos amou primeiro” (1Jo4.19. Veja também: Rm 5.6-9).

Somente aqueles que receberam a Salvação e aceitaram Aquele que pagou o seu preço conhecem o real valor da Salvação! “A Salvação é um mistério de Deus oculto desde a fundação do mundo para ser revelado numa Cruz!” disse o pastor Salomão. Outro pastor, em uma pregação, disse: “Quando a Bíblia entra no homem e o homem na Bíblia, todo o impossível passa a ser possível. Se você ainda está procurando o seu milagre é porque você ainda não entendeu que o maior milagre é a sua salvação! – disse o pastor Francinaldo Araújo.

Talvez haja apenas um pecado capital: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso; devido à impaciência, muitos não poderão voltar para lá. Jesus tinha a força perante a qual os outros se dobravam: a calma. Paciência e perseverança têm o efeito poderoso de fazer as dificuldades desaparecerem e os obstáculos sumirem. Aquele que tiver paciência terá o que deseja. Um momento de paciência pode evitar um grande desastre; um momento de impaciência pode arruinar toda uma vida (Provérbio Chinês). A paciência é a única solução para os males que não têm solução. Com paciência e perseverança, muito se alcança. 

Amor não correspondido

Para você que se pergunta se tem algo pior do que amor não correspondido, eu respondo: Tem sim. Aids, fome, racismo, terrorismo, homofobia, câncer, desastres naturais, violência, maus tratos humanos, miséria, mortes. Tudo isso é muito pior do que um amor não correspondido. Mas você não pensa assim, não é mesmo? Claro que não.

Para você que tem casa, comida, o que vestir, dinheiro para sair no final de semana, banda larga na internet, parentes ao seu lado, saúde e uma cama quentinha para dormir nas noites frias, a única coisa que pode faltar na sua vida é (caso você ainda não o tenha) Jesus. Porém, pratique uma atitude de amor: Ofereça o seu Jesus para as outras pessoas, e elas e você serão felizes, pois Ele é quem nos salva, nos cura, nos ensina a verdadeira longanimidade, e nos leva para o Céu.

O grande escritor francês Gustave Le Bon disse que “o homem que não sabe dominar os seus instintos, é sempre escravo daqueles que se propõem a satisfazê-los”. Falando sobre o controle dos impulsos, a Palavra de Deus nos ensina em Provérbios 17.27,28: “Retém as suas palavras o que possui o conhecimento, e o homem de entendimento é de precioso espírito. Até o tolo, quando se cala, será reputado por sábio; e o que cerrar os seus lábios, por sábio”.

Na condução das questões humanas, não existe lei melhor do que o autocontrole, já disse um grande doutrinador religioso. Um grande campeão de boxe declarou que “o verdadeiro campeão vence calado por que sabe que é no silêncio que encontra o autocontrole, e sabe também que o pódio onde ele empunhará o cinturão de campeão é só uma questão de tempo e disciplina...”

O grande pregador britânico John Stott afirmou certa vez que “o autocontrole é, antes de tudo, o controle da mente. O que semeamos em nossas mentes, colhemos em nossas ações. ‘Ler É Viver’ foi o lema de uma recente campanha publicitária. É um testemunho do fato de que a vida não consiste apenas em trabalhar, comer, dormir. A mente tem de ser também alimentada. E o tipo de comida que nossas mentes receberem determinará que tipo de pessoa seremos. Mentes sadias têm um apetite sadio. Temos de satisfazê-las com alimento saudável, e não com drogas e venenos intelectuais perigosos”.

Quando se tem autocontrole, não é qualquer comentário que nos faz perder a paciência. E não devemos esquecer que temos um Deus que pode fazer tudo dar certo. E a nós Sua graça nos basta. Tenham paciência: o futuro é hoje.


Aprendendo a ser longânime

Quem é longânime é constante, paciente e persistente. Exercer a constância é exercitar a permanência. A pessoa constante não é aquela que pratica uma resignação passiva. Longanimidade é um atributo de Deus, conforme Salmo 86.15: “Mas tu, Senhor, és um Deus cheio de compaixão, e piedoso, e sofredor, e grande em benignidade e em verdade”. Longanimidade é parte do fruto do Espírito Santo (Gálatas 5.22).

Olhem que belíssima oração o apóstolo fez aos seus amigos e irmãos em Cristo (Cl 1.9-12): “Por esta razão, nós também, desde o dia em que o ouvimos, não cessamos de orar por vós e de pedir que sejais cheios do conhecimento da sua vontade, em toda a sabedoria e inteligência espiritual; para que possais andar dignamente diante do Senhor, agradando-lhe em tudo, frutificando em toda boa obra e crescendo no conhecimento de Deus; corroborados em toda a fortaleza, segundo a força da sua glória, em toda a paciência e longanimidade, com gozo, dando graças ao Pai, que nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz”. Longanimidade significa colocar-se sob um fardo ou aflição e transformá-lo em Glória.

Como servos de Deus, devemos ser longânimes (pacientes) com todas as pessoas. Bombardeados pelas adversidades, devemos nos manter sob o controle da longanimidade, conforme o apóstolo Paulo fala em Romanos 5.3-5: “E não somente isto, mas também nos gloriamos nas tribulações, sabendo que a tribulação produz a paciência; e a paciência, a experiência; e a experiência, a esperança. E a esperança não traz confusão, porquanto o amor de Deus está derramado em nosso coração pelo Espírito Santo que nos foi dado”. Quem ama pratica a longanimidade, pois “O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece, 5 não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal; 6 não folga com a injustiça, mas folga com a verdade; tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. (1Co 13 4-7).

Longanimidade é uma qualidade aplicada com mais frequência a Deus. Seu significado original é “afastar a fúria enquanto se sofre uma ofensa ou injustiça”. Quem, senão Deus, pode ser completamente longânime? Somente Ele é “grande em benignidade” e “tardio em irar-se” (Sl 86.15). No entanto nós, cristãos, também podemos nos tornar longânimes pelo poder do Espírito Santo.

domingo, 14 de agosto de 2016

O ESCRITOR EVANGÉLICO E A LÍNGUA PORTUGUESA




Excelentíssimo senhor Presidente da Academia Evangélica de Letras do Brasil, Reverendo Guilhermino Cunha; excelentíssimas demais autoridades presentes; caríssimos convidados, nobres confrades e confreiras:
Ninguém hoje espere ingenuamente tornar-se um escritor hábil, seguro do seu ofício e influenciador de sua geração sem, antes, esforçar-se para conhecer as regras e as riquezas expressionais de sua língua.
Só conseguiremos atuar impactante e eficientemente como escritores evangélicos se nos esforçarmos para redescobrir e dominar os amplos recursos da língua portuguesa.
É nosso dever estudá-la permanentemente, com a mesma persistência que o aclamado poeta François Coppé demonstrou no estudo do francês. Ele chegou a responder a uma norte-americana que lhe perguntou se ele falava inglês: “Não, minha senhora... Continuo a aprender francês”.
 A língua que foi enaltecida por Camões, Antônio Vieira, Manuel Bernardes, Herculano, Camilo Castelo Branco, Almeida Garret, Machado de Assis, Eça de Queiroz, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Fernando Pessoa, Drummond, Florbela Espanca, Luís Fernando Veríssimo, Henriqueta Lisboa, Cecília Meireles e tantos outros escritores notáveis na antiguidade e na modernidade necessita hoje mais e mais de embaixadores evangélicos que a enobreçam, que a enriqueçam, que a prestigiem, que a divulguem pelo mundo inteiro por meio de obras-primas de interesse cristão e universal.
  Assim fizeram em inglês os nossos irmãos em Cristo John Bunyan, com O Peregrino; John Milton, com O Paraíso Perdido; C. S. Lewis, com a série As Crônicas de Nárnia, e outras obras. Isto só para citarmos alguns dos grandes escritores evangélicos que escreveram e ultrapassaram as fronteiras evangélicas, conquistando também milhares de leitores no mercado secular.
  Nós, escritores evangélicos, estamos em dívida para com nossa língua, a portuguesa; língua que o poeta Manuel Bandeira usou para, em um soneto, honrar o imortal autor de Os Lusíadas, Luís Vaz de Camões. Disse Bandeira:

Quando n'alma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.

Gênio purificado na desgraça,
Tu resumiste em ti toda a grandeza:
Poeta e soldado... Em ti brilhou sem jaça
O amor da grande pátria portuguesa.

E enquanto o fero canto ecoar na mente
Da estirpe que em perigos sublimados
Plantou a cruz em cada continente,

Não morrerá sem poetas nem soldados,
A língua em que cantaste rudemente
As armas e os barões assinalados.

 “Minha pátria é minha língua”, disse o genial poeta português Fernando Pessoa. E também é a nossa, a pátria dos escritores evangélicos brasileiros. O gramático Napoleão Mendes de Almeida fez uma oportuna advertência no prefácio de sua Gramática Metódica. Disse ele:
“Conhecer a língua portuguesa não é privilégio de gramáticos, senão de todo brasileiro que preza sua nacionalidade. É erro de consequências imprevisíveis acreditar que só os escritores profissionais têm a obrigação de saber escrever. Saber escrever a própria língua faz parte dos deveres cívicos.”
Todavia, não é minha intenção deixar subentendido aqui que só escrevem bem aqueles que possuem conhecimentos gramaticais tão sólidos como os de um Napoleão Mendes de Almeida, os de um Celso Cunha ou os de um professor Pasquale Cipro Neto, e outros. Não cheguemos a tanto; a não ser que tenhamos inegável vocação para o estudo específico da língua, conforme tiveram os pastores Eduardo Carlos Pereira e Vittorio Bergo, autores de gramáticas e de outros trabalhos de natureza filológica nacionalmente reconhecidos.
"Dicionarista e gramático não são sinônimos de bom escritor. Tem-se observado, por exemplo, que os grandes dicionaristas, os grandes gramáticos, embora conhecendo todos os recursos da palavra, todos os processos que levam uma pessoa a escrever bem, raramente são grandes escritores”, foi o que nos lembrou o filólogo português Cândido de Figueiredo.
É um fato que todas as histórias das literaturas confirmam. Escrever bem requer algo mais do que sólidos conhecimentos linguísticos. Requer sensibilidade, imaginação e um toque pessoal de arte (também conhecido como originalidade). Em uma palavra: talento.
Portanto, ninguém adquire capacidade e sensibilidade literárias lendo tão-somente gramáticas. O estudo da gramática não é a melhor forma de alguém aprender a amar ou dominar o seu idioma. O estudo da gramática não faz escritor, faz filólogo. Só os grandes escritores são capazes de nos ensinar a escrever bem.
O melhor, o mais agradável e fecundo caminho para alguém familiarizar-se e passar a amar o seu idioma é lendo os melhores livros dos melhores escritores da literatura que esse idioma produziu. Mas fazer essa leitura não significa que devemos dar um mergulho em milhares de obras; o essencial é que leiamos as melhores.
Para quem já é ou deseja tornar-se escritor, o amor ao idioma materno é fundamental. O poeta português António Ferreira (1528-1569), grande apaixonado pela língua portuguesa, numa época em que muitos escritores portugueses escreviam em espanhol por se envergonharem do seu idioma ou ambicionarem maior notoriedade, deixou-nos a seguinte estrofe de uma ode:

Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
a portuguesa língua, e já onde for,
Senhora vá de si, soberba e altiva;
Se até aqui esteve baixa e sem louvor
Culpa é dos que a exercitam,
Esquecimento nosso e desamor.

Nós, brasileiros, que produzimos um soneto de exaltação à língua portuguesa, como este belíssimo e perfeito, escrito pelo poeta carioca Olavo Bilac:

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura;
Ouro nativo que na ganga impura
a bruta mina entre os cascalhos vela.

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura.

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo:
Amo-te, ó rude e doloroso idioma!

Em que da voz materna ouvi: “Meu filho”,
Em que Camões chorou no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho.

Nós que temos um lastro, uma herança tão rica e tão bela composta de obras literárias que vêm sendo escritas por exímios artistas da palavra, estamos hoje, em muitos aspectos, em uma situação de vergonhoso desconhecimento das riquezas do nosso idioma.
O jornalista maranhense Lago Burnett, que durante muitos anos chefiou a redação de O Jornal do Brasil, descreveu num momento de desabafo no seu livro A Língua Envergonhada, a atitude de muitos brasileiros para com essa que é considerada a segunda língua mais rica em sonoridades, a segunda dotada de maior musicalidade, entre todas as que se derivaram do Latim. (Só para os curiosos: a primeira é o italiano). Eis o texto, veemente e irônico, do jornalista:
"O brasileiro não suporta a sua língua. Se lhe fosse permitido escolher, preferiria qualquer outro idioma, até mesmo o sânscrito, o latim, o hebraico, o iídiche, o patoá, o banto. Conquanto não fosse o português, pouco importaria que se tratasse de língua morta, extinta ou dialeto. Por força do colonialismo cultural, acentuado pela linguagem mercadológica dos veículos de comunicação, de muito bom-grado a opção brasileira recairia sobre o inglês – não o de Oxford, mas o da Praça Mauá.
"Coramos de pudor, criando situações embaraçosas para nós próprios, toda vez que não conseguimos atinar, de público, com o significado de uma expressão anglo-saxônica, e nos mortificamos de despeito por não conseguir recitar com sotaque nova-iorquino uma ode olímpica à alienação de Ipanema. Não por veneração reverenciamos o idioma de Shakespeare, mas por mera subserviência ao sentimento mercantil do multinacionalismo linguístico." (A Língua Envergonhada. 3a Ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1991, p. 15).
E essa situação de vergonha e descaso pela língua portuguesa demonstrados por muitos dos que a usam não é tão recente, conforme alguns poderiam imaginar. De tanto a ultrajarem, a aviltarem, a envilecerem pelo uso desleixado e vergonhoso, os intelectuais de Portugal reagiram e passaram a patrulhar e censurar os maus usuários dessa língua outrora enobrecida por Antônio Vieira, Eça de Queiroz, Machado de Assis e outros grandes autores. E foram tão severas as recriminações dos intelectuais portugueses, que o romancista carioca Lima Barreto, em um de seus quatro grandes romances, o Triste Fim de Policarpo Quaresma, publicado em 1915, levou seu personagem principal a redigir o seguinte e irônico requerimento:
"Policarpo Quaresma, cidadão brasileiro, funcionário público, certo de que a língua portuguesa é emprestada ao Brasil; certo também de que, por esse fato, o falar e o escrever em geral, sobretudo no campo das letras, se veem na humilhante contingência de sofrer continuamente censuras ásperas dos proprietários da língua; sabendo, além, que, dentro do nosso país, os autores e os escritores, com especialidade os gramáticos, não se entendem no tocante à correção gramatical, vendo-se, diariamente, surgir azedas polêmicas entre os mais profundos estudiosos do nosso idioma – usando do direito que lhe confere a Constituição, vem pedir que o Congresso Nacional decrete o Tupi-Guarani como língua oficial e nacional do povo brasileiro. Cônscio de que a Câmara e o Senado pesarão o seu alcance e utilidade, pede e aguarda deferimento. "
Quando o jornalista Giovanni Ricciardi foi ao apartamento do escritor Miguel Jorge a fim de entrevistá-lo para o livro Auto-retratos (que reúne 23 entrevistas com escritores brasileiros contemporâneos, e foi publicado pela Editora Martins Fontes em 1991), viu este lembrete na parede da sala de trabalho de Miguel Jorge:

Refazer, refazer sempre.
Refazer, custe o que custar.
Refazer cada página, parágrafo, frase, palavra...

Apesar de o lembrete parecer um tanto ingênuo, não podemos ignorar que este é um dos segredos praticados por todos os grandes escritores. Eles escreveram muito para eles mesmos, antes de escrever para os outros.
Todos os livros sobre arte de escrever aconselham a não nos contentarmos com a primeira redação de um texto. Devemos aperfeiçoar esse texto, reescrever suas frases, corrigir, corrigir, até que pareça impossível fazer melhor.
O romancista francês Gustave Flaubert costumava reescrever cinco ou até seis vezes uma única página ou um único parágrafo de suas obras. Escrevendo numa época em que era comum os escritores publicarem de 20 a 50 livros (Balzac, por exemplo, só para o famoso conjunto de romances intitulado A Comédia Humana, escreveu 89 obras), Flaubert só escreveu seis. Mas são seis obras-primas. Seu romance Madame Bovary é considerado, no aspecto técnico e estilístico, uma obra de arte tão perfeita como uma sinfonia de Beethoven, a pintura da Capela Sistina realizada por Michelangelo, ou o quadro da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci.
Na arte de escrever, há muito mais transpiração que inspiração. Porém entre nós, escritores evangélicos, essa proporção de inspiração e transpiração não é exatamente aquela referida pelo inventor norte-americano Thomas Alva Edson, de 90% de transpiração e 10% de inspiração. O escritor evangélico é um canal sensível à inspiração que nos é dada por Deus, mas ninguém deve ficar estática e ingenuamente aguardando que a inspiração desça do Céu.
Sentindo-se inspirado ou não, o escritor terá que se sentar todos os dias diante de sua mesa de trabalho, mesmo que seja para escrever uma única frase aproveitável. É do hábito de sentar-se todos os dias diante de uma folha de papel em branco ou de um teclado de computador, que o nasce livro. Portanto, a obra de arte literária nasce do trabalho artesanal, perseverante do escritor.
Nunca será demais reafirmar que os maiores escritores brasileiros e estrangeiros foram incansáveis aperfeiçoadores do seu estilo, do seu texto. Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da moderna poesia brasileira, alcançou a riqueza expressiva e a perfeição que o destacaram dentre os demais poetas de sua geração, graças ao fato de ter sido um incansável domador de palavras. Em um de seus poemas, O Lutador, ele confessa o quanto lhe era difícil trabalhar com elas:

Lutar com palavras
É a luta mais vã.
Entanto lutamos
Mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
Como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
O poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
Apareço e tento
Apanhar algumas
Para meu sustento
Num dia de vida.
............................

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhe-ei escravo
De rara humildade.
Guardarei sigilo
De nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
De zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
Perpassam levíssimas
E viram-me o rosto.
Lutar com palavras
Parece sem fruto.
Não têm carne e sangue.
Entretanto, luto.


O escritor português Antônio Lopes Vieira adverte que “há uma dignidade de sintaxe, assim como há uma educação de maneiras; cometer certos erros gramaticais pode ser o mesmo que cuspir no chão.” A arte de escrever tem regras que não devemos infringir se não quisermos passar por mal educados.
No seu famoso Discurso sobre o Estilo, o Conde de Buffon, escritor francês, afirmou que “somente as obras bem escritas passam à posteridade, visto que as novas descobertas e os fatos novos fazem com que os livros mais científicos se tornem obsoletos, ultrapassados.”
O que permanecerá interessante nesses livros será o estilo, a beleza, a arte, a originalidade com que suas páginas foram escritas. Portanto, um livro, antes de ser publicado, tem de ser revisado, polido, aperfeiçoado, com paciência e cuidado, durante meses, ou até durante anos. É o que têm feito os grandes escritores, tanto seculares quanto evangélicos. Tenho dito.
Acadêmico Jefferson Magno Costa
(Discurso pronunciado na Academia Evangélica de Letras do Brasil, em 08 de Agosto de 2016)

sexta-feira, 29 de julho de 2016

OS MAIORES FILÓSOFOS DA HUMANIDADE RECONHECEM: DEUS EXISTE!

Jefferson Magno Costa

     Ao contrário do que muitos ateus pensam, as maiores inteligências que o mundo já viu, os gênios que deixaram as marcas mais profundas de sua passagem sobre a face da terra, reconheceram a existência de Deus.
   Conforme comentou um apologista cristão, "estas frontes iluminadas pelos esplen­dores do gênio, aureoladas pelas glórias do saber, consagradas e abençoadas pela memória dos homens, curvaram-se humil­des e reverentes ante o nome de Deus." 
 Com muita razão, o filósofo inglês Francis Bacon (1561-1626) observou que "pouca ciência afasta o homem de Deus, porém muita ciência a Deus o conduz".


SÓCRATES CONFESSA SUA CRENÇA NA EXISTÊNCIA DE UM SÓ DEUS
 Consideremos o período da história humana em que a filosofia atingiu o seu esplendor.
 Entre os gregos, precisamente em Atenas, existiu um filósofo pagão, cuja agudeza de raciocínio e método de ensinar filosofia aos seus alunos o colocou entre os mais profundos pensadores de todos os tempos: Sócrates. 
    Por não ter concordado com a crença politeísta dos gregos, Sócrates foi julgado e condenado à morte. (Aliás, este foi um dos motivos de sua condenação). Mas eis o que esse pensador declarou sobre Deus:
"Acredito na existência de um só Deus todo-poderoso, dotado de sabedoria e bondade absolutas, provadas com a sublime harmonia do universo e com a maravilhosa orga­nização do corpo humano.
 "Relativamente à fé na existên­cia de Deus, há nos diversos povos um acordo unânime que faz a humanidade como que uma só família. 
 "A fé religiosa é anterior a toda civilização; os viajantes não descobrem povo algum sem lhe reconhecerem pelos menos um culto grosseiro; a história vê por toda parte Deus associado geralmente tanto às alegrias como às lágrimas da huma­nidade. Esta crença, quaisquer que sejam os erros que a tenham obscurecido, longe de favorecer em si mesma as paixões, combate-as; só pode ter, portanto, como origem, os princípios que o próprio Deus gravou no espírito huma­no."
Isto foi dito por um filósofo pagão! Foi diante de posiciona­mentos como este que o filósofo cristão Clemente de Alexandria chegou a declarar que a filosofia dos gregos não continha toda a verdade, "mas em todo caso era um fragmento da verdade eterna". 
 Além de Sócrates, dois outros filósofos tornaram a filosofia grega digna das palavras elogiosas de Clemente. Seus nomes: Platão (429-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.)

PLATÃO TATEIA NAS TREVAS EM BUSCA DO CRIADOR
De todos os filósofos pagãos que falaram sobre Deus antes da Era Cristã, Platão foi o maior. O orador e teólogo francês Bossuet chamava-o de "divino", e outros teólogos chegaram a compará-lo a Moisés. 
 "Era Moisés escrevendo em grego", diziam, cheios de admiração diante das obras desse célebre filósofo.
Nascido em Atenas, Platão, ainda bem moço, tornou-se aluno de Sócrates, e foi sob a influência e os ensinamentos desse célebre pensador grego que ele se tornou filósofo, criando, entre outras coisas, o Idealismo — sistema das ideias, onde a mais importante de todas elas é a ideia da  existência de Deus. Para nós, apologistas (defensores) do Cristianismo, é muitissimamente importante sabermos o que a genialidade de Platão descobriu sobre o Criador do universo. 
   Comparando a verdade à luz, e Deus ao próprio sol (séculos mais tarde, o escultor e pintor italiano Miguel Ângelo escreveria: "O sol é a sombra de Deus"), Platão declarou:
"Se tu abres os olhos, vês a luz, mas o teu olhar seguinte eleva-se para cima, para a origem de onde toda a luz é oriunda, para o sol; e quando os olhos do espírito se abrem, vê-se a verdade; mas o segundo olhar volta-se para onde nasce toda a verdade, para o sol dos espíritos, para Deus."
Platão costumava afirmar que existe na alma um ponto central, uma região onde Deus se manifesta ao ser humano "tocando-o neste ponto e suspendendo-o a Ele". 
  A isto Platão chamava "Voz da consciência" ou "lei natural gravada no cora­ção". Ele também dizia que todos os homens deveriam esforçar-se para corrigir em si, mediante a contemplação da harmonia do Todo, "esses movimentos pessoais e desordenados que a natureza humana semeou no foco de nossa alma ao sermos gerados, a fim de que o contemplador recobre sua primeira natureza e, através dessa semelhança divina, torne-se apto a possuir finalmente a vida perfeita que Deus oferece aos homens para o tempo presente e para a eternidade".
Ora, não são perfeitamente visíveis, nas palavras desse filósofo pagão, a doutrina do pecado original e a necessidade de o homem experimentar a regeneração e voltar ao seu antigo bom relacionamento com Deus? 
  Se o mundo no tempo de Platão estava mergulhado no pecado, e a humanidade (com exceção da Nação escolhida) procurava conviver pacificamente com a idolatria e a corrupção moral, o que teria levado o aluno de Sócrates a detectar entre os seus contemporâneos, quase 500 anos antes do nascimento do nosso Salvador Jesus Cristo, a necessidade de regeneração, a não ser o Deus da justiça, da pureza e da verdade? "Filosofar é amar a Deus", reconhece o grande filósofo.

ARISTÓTELES: DEUS É O MOTOR QUE MOVE O MUNDO
Nascido em Estagira, Grécia, em 384 a.C, Aristóteles é o terceiro grande nome da filosofia pagã. Mudando-se para Atenas aos 18 anos de idade, começou a frequentar a escola de Platão, com quem aprendeu filosofia durante 20 anos. 
   Mais tarde tornou-se professor de Alexandre, o Grande, e fundou sua própria escola. Suas idéias sobre Deus marcaram profunda­mente o pensamento dos teólogos cristãos, surgidos cinco sécu­los após sua morte. O gigantesco edifício de ciência e cultura criado por Aristóteles permanece nos séculos e milênios como um monumento imperecível do seu potente gênio.
Para provar a existência de Deus, Aristóteles criou o argu­mento do motor. Diz ele que tudo o que está em movimento é movido por outra coisa. Tomemos o Sol como exemplo. 
   Ele está em movimento; portanto, outra coisa o movimenta. Essa coisa que move o Sol, ou está também em movimento ou está imóvel. Se está imóvel, o argumento de Aristóteles fica demonstrado, ou seja: que é necessário afirmar a existência de algo que tudo move e que não é movido por nada: Deus. Porém, se o que move o Sol está também em movimento, isto significa que ele está sendo movido também por outra força. 
  Aristóteles mostra que é impossível continuarmos recuando até o infinito. Faz-se, portanto, necessário afirmar a existência do causador de todos esses movimentos, que não é outra pessoa senão Deus. Ele é o motor que movimenta tudo.
Alguém já comentou que se há alguma verdade no ensino dos filósofos e dos cientistas, deve ela vir do próprio Deus da verdade. Esse comentário está de acordo com o que Aristóteles pensava sobre Deus. 
  No seu livro Metafísica, Aristóteles ad­mite a existência de um Deus distinto do mundo, um Deus vivo, onipotente, Causa Primeira, motor imóvel (que move tudo e não é movido por nada fora de si mesmo), vivente, eterno e perfeito; um Deus que é soberano, infinitamente inteligente, invisível em si mesmo, mas visível em suas obras, que a tudo governa por sua ação e por sua Providência, como um general governa um exército.
 Um Deus justo, que castiga o homem livre e violador de sua lei imutável, e recompensa com a felicidade, agora e no porvir, aos que se unem à justiça.
Falando dessa maneira sobre Deus, Aristóteles confirma aqui perfeitamente a frase de Platão: "Todos os sábios não têm mais que uma voz." 
  Há uma filosofia universal, uma sabedoria natural e comum; ela é a mesma em todos os homens dóceis à luz da razão; é ela que os conduz ao reconhecimento da exis­tência de Deus. Todos os pensadores de primeira ordem chegam à esta conclusão: Deus existe. Porém, hoje estamos inseridos no século do ateísmo. 
  Milhões de seres humanos vivem separados da fé universal na existência de Deus: são como "estrelas errantes, para as quais tem sido eternamente reservada a escuridão das trevas" (Judas v.13).
  Vimos que os três maiores pensadores da filosofia grega (e, podemos dizer, de toda a filosofia pagã antes do advento do cristianismo), reconheceram a existência de Deus, apesar de não terem obtido o conhecimento de sua essência, conforme o próprio Deus revelou a Moisés no monte Horebe (Êxodo 3.14).
  Porém, todos os grandes gênios da humanidade sofreram a influência de uma espécie de iluminação natural acerca da existência de Deus. Através da imensa capacidade de raciocínio de que foram dotados (a chamada razão humana), eles conseguiram obter sólidas provas da existência do Criador.
      Fica evidenciado deste modo que, através do trabalho da mente humana (fazendo-se uso da razão, portanto), o homem pode descobrir pelo menos uma parte da verdade sobre Deus. É o que se chama "conhecimento natural". Porém, esse conhe­cimento é incompleto. 
     Foi necessário que Deus se revelasse à humanidade através de sua Palavra para que todos pudessem conhecê-lo.
     Essa revelação alcançou a sua plenitude no seu Filho Jesus Cristo.
       Devemos considerar também o fato de que o "conhecimento natural" que o ser humano pode obter de Deus é insuficiente para levá-lo ao reconhecimento da necessidade de ele ser alcançado pela salvação proporcionada por Jesus Cristo. 
     Admitir a existência de Deus não é a mesma coisa que reconhecer a necessidade de salvação. Foi o que faltou a todos os homens que alcançaram um conhecimento natural da exis­tência do Criador, sem terem passado a caminhar, a partir de então, através da fé. É nesse aspecto que podemos constatar a grande diferença entre os filósofos pagãos e os teólogos cristãos.

Jefferson Magno Costa

 

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