terça-feira, 31 de janeiro de 2012

LUGAR: QUEM O FAZ MELHOR OU PIOR SOMOS NÓS

Jefferson Magno Costa

     No mundo há muitos lugares, muitas posições profissionais, ministeriais, espirituais, sociais. Porém, em si mesmo, nenhum lugar é bom ou ruim. Ser um bom lugar ou um mal lugar depende da pessoa que o ocupa.
      Por mais elevado ou por mais baixo que seja o lugar ou posição ocupados por você, se você é bom, esse lugar será bom, e se você é excelente, esse lugar será excelente.
      Da mesmo forma, se você for mau, o lugar que você ocupar será mau, e se você for péssimo, esse lugar será péssimo.
      Jesus disse certa vez que sobre a cadeira de Moisés estavam assentados os escribas e fariseus (Mt 23.2). E quem foi Moisés, e quem foram os escribas e fariseus?
      Moisés foi o maior e melhor homem do seu tempo, e os escribas e fariseus foram os mais baixos e piores homens do tempo deles.
        Pois se os escribas e fariseus estavam assentados na cadeira de Moisés, por que não eram como Moisés?
     Por que são os homens que transmitem a melhoria e a excelência aos lugares, e não os lugares aos homens.
      Se você for bom, ainda que a cadeira seja dos escribas e fariseus, o seu lugar será bom. Mas se você for mau, ainda que a cadeira seja de Moisés, o seu lugar será mau.
      Será que houve na terra melhor lugar que o Paraíso? Não. Haverá no universo melhor lugar que o Céu? Não.
        Pois nem o Paraíso manteve bom a Adão, que era inclinado à desobediência, nem o Céu manteve bom a Lúcifer, que era inclinado à soberba. A índole de ambos era má.
     Jeremias, mesmo estando preso e atolado na lama dentro de um calabouço (Jr 38.6), continuou sendo aquele mesmo homem sincero, íntegro e temente a Deus que atuara como profeta diante dos reis Josias, Jeoaquim e Zedequias (Jr 1.1-3).
        Jó, mesmo assentado sobre a cinza e se coçando com um caco de telha (Jó 2.8), continou sendo o homem a quem o próprio Deus elogiara diante dos filhos de Deus e de Satanás (Jó 1.8).
     O melhor lugar para se estar no mar durante uma tempestade é em um navio, e não no ventre de uma baleia. Pois Jonas foi melhor no ventre da baleia, onde orou (Jn 2.1), do que no porão do navio, onde só dormiu (Jn 1.5).
       Portanto, os lugares por si mesmos não são maus nem bons, nem há lugar melhor ou pior. Entre os Doze Apóstolos, o lugar que passou a ser ocupado por Matias não tinha sido antes ocupado por Judas? (At 1.15-26).
      Se você for como Judas, não se tornará um homem bom só por estar ocupando o lugar que foi de Matias; e se for como Matias, não se tornará um homem mau só por estar ocupando o lugar que foi de Judas.
       Se você quer ocupar o melhor lugar entre todos, esforce-se para ser a melhor pessoa entre todas. Então o seu lugar, seja ele qual for, será também o melhor.

Jefferson Magno Costa

domingo, 29 de janeiro de 2012

ESCREVER É PRECISO (Conclusão da palestra)

Jefferson Magno Costa

A UTILIDADE DA LEITURA DE POESIA E DA LEITURA EM 
GERAL EM NOSSA FORMAÇÃO COMO ESCRITORES
       Portugal é a pátria universal da poesia. Quem diz isto são os ingleses, os alemães, os franceses, os norte-americanos. A grande romancista belga de expressão francesa Marguerite Younenar costumava vir a Portugal algumas vezes só para conversar com o maior poeta de sua admiração, Eugênio de Andrade.
     Mas será que a poesia tem alguma importância na aprendizagem da escrita em prosa? Sim. Através dela se enriquece e se torna mais variado o nosso tesouro de harmonia interior. As literaturas de todas as épocas e de todas as nações nos pertencem.
     Aliás, em matéria de leitura, seja de prosa ou de poesia, é preciso saber ler e assimilar convenientemente o que se lê. O convívio com os altos espíritos, através da leitura, é uma necessidade. Infelizmente a vida é demasiado curta para lermos todos os livros que merecem ser lidos.
     Por isso devemos ler aqueles autores que, por haverem alcançado uma grande beleza em sua expressão, são considerados como modelos ou clássicos.

     Eles têm a novidade da expressão em cada frase que escrevem. Eles nos ensinarão muitas maneiras de nos expressarmos, cabendo a nós eleger as que forem adequadas ao nosso temperamento ou ao nosso propósito. Um escritor é grande não porque escreveu muito, mas porque escreveu bem.
     Todos os manuais sobre arte de escrever aconselham a não nos contentarmos com a primeira redação de um texto. Devemos aperfeiçoar esse texto, reescrever suas frases, corrigir, corrigir, até que pareça impossível fazer melhor.
     O romancista francês Gustave Flaubert costumava reescrever cinco, ou até seis vezes uma página ou um parágrafo de suas obras.      Escrevendo numa época em que era comum os escritores publicarem de 20 a 50 livros (Balzac, por exemplo, só para o famoso conjunto de romances intitulado A Comédia Humana, escreveu 89 obras), Flaubert só escreveu seis. Mas são seis obras-primas.
     Seu romance Madame Bovary é considerado, no aspecto técnico e estilístico, uma obra de arte tão perfeita como uma sinfonia de Beethoven ou um quadro de Michellangelo.
     Na arte de escrever, há muito mais transpiração que inspiração. Porém, entre nós, escritores evangélicos, essa proporção de inspiração e transpiração não é exatamente aquela referida pelo inventor norte-americano Thomas Alva Edson, de 99% de transpiração e 1% de inspiração.

      O escritor evangélico é um canal sensível à inspiração que nos é dada por Deus, mas ninguém deve ficar estática e ingenuamente aguardando que a inspiração desça do alto.
     Sentindo-se inspirado ou não, o escritor terá que se sentar todos os dias diante de sua mesa de trabalho, mesmo que seja para escrever uma única frase aproveitável.
      É do hábito de sentar-se todos os dias diante de uma folha de papel em branco, de uma máquina de datilografia ou de um teclado de computador, que nasce o livro. Portanto, a obra de arte literária nasce do trabalho artesanal, perseverante.
     Nunca será demais reafirmar que os maiores escritores brasileiros e estrangeiros foram incansáveis aperfeiçoadores do seu estilo, do seu texto. Carlos Drummond de Andrade, o maior poeta da moderna poesia brasileira, alcançou a riqueza expressiva e a perfeição que o destacaram entre os demais poetas de sua geração, graças ao fato de ter sido um incansável “domador” de palavras. 

       Em um de seus poemas, O lutador, ele confessa o quanto lhe era difícil trabalhar com elas:

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento
num dia de vida.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

     Convém ler devagar, tomando notas e sublinhando o que de mais importante encontrarmos nos livros. A leitura só é verdadeiramente proveitosa quando conseguimos torná-la fecunda através desse processo.

ESCREVENDO UM LIVRO

       A preparação de um livro passa por cinco fases:
1-    Escolha do tema, do assunto.
2-    Preparação do esboço.
3-    Pesquisa e meditação em cima de todo o material recolhido.
4-    Primeiro rascunho. O livro será escrito parágrafo após parágrafo, capítulo após capítulo.
5-    Por último, correção, que poderá conduzir à redação de vários outros rascunhos.
     O assunto tem que ser bem escolhido. Deve-se dar preferência a temas atuais, de auto-ajuda, polêmicos ou qualquer outro que interesse o leitor moderno.
     O esboço é de valor imenso e ajuda indispensável ao escritor, principalmente para os que ainda não adquiriram o difícil hábito de escrever bem. 

      O esboço põe claramente diante dos nossos olhos o plano que temos de executar. Mostra-nos, como num mapa, o caminho a ser percorrido. Apresenta-nos a planta do edifício que será levantado. Ele estabelecerá nossos limites de busca de material, e evitará de cairmos na armadilha de ficar lendo eternamente sobre o tema, sem nunca colocarmos um ponto final na pesquisa.
     Ao prepararmos um esboço, devemos evitar dois extremos: a escassez de divisões, ou o excesso de subdivisões. Devemos evitar o inútil e o dispensável. 

     Muitas subdivisões distraem a atenção do leitor do ponto principal, chamando sua atenção para outros assuntos.
     O processo de meditação, ou “o período de gestação”, é muitíssimo importante. O escritor norte-americano Angus Wilson comentou que é nesse momento que ele procura convencer a si mesmo da verdade do que ele quer dizer, pois não acredita que conseguirá convencer seus leitores se não conseguir convencer primeiro a si mesmo.
    O primeiro rascunho é geralmente escrito às pressas, a todo vapor. Talvez seja essa a melhor maneira de escrevê-lo.
     Só não devemos cometer o erro que cometeram dois ilustres padres espanhóis. Os franciscanos Rafael Rodriguez Mohedano e Pedro Rodriguez Mohedano começaram em 1766 uma História Literária da Espanha, uma obra tão grande que no décimo volume, publicado em 1791, os autores ainda não tinham acabado a introdução.

     A romancista Dorothy Canfield Fisher comparou certa vez a redação de um primeiro rascunho a uma descida de esqui por uma encosta íngreme, que ela não tinha a certeza de ser bastante hábil para poder realizar.
     “Sentada, certa manhã, à minha mesa –diz ela- dei a largada e, tomada de alarma e de uma agitação não muito agradável, senti-me ir. Segui, quase tão precipitadamente como fazem os esquiadores, por uma longa e alva encosta, escrevendo tão depressa como o meu lápis o permitia, indicando palavras inteiras com um traço e rabiscos, enchendo de garatujas página após página.”
     Há outros escritores, porém, que abrem caminho laboriosamente, revendo o que escreveram à medida que vão escrevendo. 

      William Styron comentou: “Parece que tenho alguma necessidade neurótica de melhorar cada parágrafo - até mesmo cada frase- à medida que prossigo.” Dorothy Parker declarou que levava seis meses para escrever um conto: “Imagino-o todo e, depois, escrevo frase por frase – em um primeiro rascunho. Não consigo escrever cinco palavras sem que modifique sete.”
     O’Connor não se põe a mudar palavras enquanto o primeiro rascunho não está terminado, mas depois reescreve tudo, conforme ele afirma, “infindavelmente, infindavelmente, infindavelmente”.

O EXEMPLO DO GRANDE ROMANCISTA PORTUGUÊS EÇA DE QUEIRÓS

      O sublime romancista português Eça de Queirós também levava aos últimos extremos o hábito de emendar, de corrigir. A transparência, a rara elegância, a admirável precisão de sua prosa, devem-se à laboriosa perseverança com que ele polia e repolia suas frases. A arte de escrever não é outra coisa senão a arte de emendar, de cortar palavras inúteis, de eliminar o que está ambíguo ou obscuro.
     De edição para edição, Eça de Queirós emendava quase sempre os seus romances, sempre no intuito de simplificar sua redação. Vejamos, como exemplo desse magistral trabalho, como ficou a descrição da figura do cônego Dias, no romance O Crime do Padre Amaro.
     Na primeira edição, de 1875, o perfil do personagem é assim traçado:
     “O cônego Dias não era simpático aos liberais de Leiria. Era um homem redondo e baixo, com um ventre saliente que lhe enchia a batina, as pernas curtas e esquias, e fortemente pousado nuns pés chatos, onde reluziam as fivelas: a cara era mole e cheia de um pálido baço, as olheiras papudas, e o beiço descaído e espesso -  e todo o seu aspecto com um cabelinho curto e grisalho, fazia pensar nas anedotas de frades lascivos, enfartados de pecados.”
     Em 1889, o retrato ficou eternizado nesta síntese breve:
     “O cônego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre enchia-lhe a batina, e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, o beiço espesso, faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutões.”
     Como podemos constatar, a simplicidade caminha paralela com a exatidão. O escritor português teve a preocupação de não dizer nem de mais nem de menos, mas apenas o necessário.

     Tanto os que dizem de menos como os que dizem de mais empobrecem a expressão.

É DEVER DO ESCRITOR SABER SE EXPRESSAR COM CLAREZA

      Portanto, os escritores que quiserem alcançar e conquistar seus leitores não deverão complicar os seus processos literários. Não podemos nos tornar escritores lidos pelo grande público se escrevermos livros de difícil compreensão. 
     Certos livros da atualidade exigem quatro ou cinco leituras para serem entendidos. O resultado é que ninguém os lê, pois hoje todo mundo tem pressa.
   O escritor português Lopes Vieira adverte que “há uma dignidade de sintaxe, assim como há uma educação de maneiras; cometer certos erros gramaticais pode ser o mesmo que cuspir no chão.”

     A arte de escrever tem regras que não devemos infringir se não quisermos passar por mal educados.
     No seu famoso Discurso Sobre o Estilo, o Conde de Buffon afirmou que “Somente as obras bem escritas passam à posteridade, visto que as novas descobertas e os fatos novos fazem com que os livros mais científicos se tornem obsoletos, ultrapassados.”

     O estilo funciona sobre a ideia como o esmalte funciona sobre o dente: protege-o contra a cárie e a corrosão do tempo, mantendo-o sempre eficiente e saudável.
     O que permanecerá interessante nesses livros será o estilo, a beleza, a correção com que suas páginas foram escritas. As ideias, como as pessoas, são julgadas pela aparência. Até os cães ladram para indivíduos maltrapilhos, esfarrapados. 

      Os pensamentos mais profundos ou mais elevados não atingirão ou sensibilizarão ninguém se forem expressos desalinhadamente, confusamente. 
     Só as obras que nasceram com a graça do estilo continuarão sendo lidas, mesmo quando os ossos dos seus autores já se tiverem transformado em cinzas. Tenho dito.

Jefferson Magno Costa

sábado, 28 de janeiro de 2012

ESCREVER É PRECISO

Jefferson Magno Costa

(Palestra proferida em 1998, em Lisboa, em um seminário para escritores e editores portugueses. Eu e o presidente da Editora Mundo Cristão, Mark Carpenter, fomos os preletores).

Ilustres editores e escritores, legítimos herdeiros do talento de Vieira e de Camões:  
     Na introdução à Obra Poética de Fernando pessoa, publicada no Brasil em 1960, lemos algumas palavras escritas pelo grande poeta português, que funcionam hoje como pórtico à sua obra.  A beleza e a concordância de sentido dessas palavras com o objetivo deste seminário nos levam a citá-las como abertura:
    Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
     “Navegar é preciso; viver não é preciso.”
     Quero para mim o espírito desta frase,
     transformada a forma para a casar com o que
     sou: Viver não é necessário; o que é necessário é
     criar.
     Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la
     penso. Só quero torná-la grande, ainda que para
     isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma)
    lenha desse fogo.
         Só quero torná-la de toda a humanidade;
    ainda que para isso tenha de a perder como
    minha.

     Hoje, as navegações por aqueles mares bravios e nunca dantes navegados se encerraram, e Fernando Pessoa cumpriu o seu propósito de direcionar sua vida para o ato único de criar a mais bela e profunda poesia da modernidade portuguesa.
E agora cabe a nós, escritores evangélicos portugueses e brasileiros, a conscientização de que nos resta cumprir o lema que justifica a nossa vocação de escritores: Escrever é preciso. Sim, mas escrever com arte, com clareza, com propriedade, com eficiência. Escrever como um ato de gratidão a Deus por tudo o que ele fez por nós, e também como um ato de patriotismo.

LÍNGUA PORTUGUESA, NOSSA PÁTRIA
     “A minha pátria é a língua portuguesa”, disse certa vez Fernando Pessoa. Foi pátria dele e é pátria nossa. Somos um só povo, o povo luso-brasileiro-africano dessa grande pátria que é a língua portuguesa.
     O poeta português Antônio Ferreira (1528-1569), grande apaixonado pelo nosso idioma, numa época em que muitos escritores portugueses escreviam em espanhol por se envergonharem do português, ou ambicionarem maior notoriedade, deixou-nos a seguinte estrofe de uma ode:
       Floresça, fale, cante, ouça-se e viva
         A portuguesa língua, e já onde for,
         Senhora vá de si, soberba e altiva;
         Se até aqui esteve baixa e sem louvor
         Culpa é dos que a exercitam,
         Esquecimento nosso e desamor.

     Escrever é preciso. A língua portuguesa necessita hoje de mais e mais embaixadores que a enobreçam, que a prestigiem e a divulguem pelo mundo inteiro através de obras-primas de interesse universal. Nós, escritores evangélicos de Portugal e do Brasil, estamos em dívida para com a nossa língua. É necessário que produzamos obras que ultrapassem as fronteiras de interesse dos leitores evangélicos, e alcancem o grande mar de interesse dos leitores não-evangélicos.
     Porém, jamais produziremos obras de total relevância se não nos conscientizarmos de que, além de embaixadores de Cristo, devemos nos tornar também embaixadores da língua que herdamos de nossos pais, como embaixadores dela têm sido os escritores Vitorino Nemésio, Vergilio Ferreira, José Saramago, Miguel Torga, Fernando Namora, Herberto Helder, José Gomes Ferreira, Augustina Bessa Luis, Eugenio de Andrade e tantos outros grandes nomes das letras contemporâneas portuguesas, como também foram embaixadores no passado Fernão Lopes, Azurara, João de Barros, Frei Luís de Souza, Frei Amador Arrais, Frei Heitor Pinto, Antônio Vieira, Manuel Bernardes, João de Lucena, Almeida Garret, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, e dezenas de outros grandes mestres.
     Escrever é preciso. Aliás, saber escrever é mais necessário ainda. Devemos ter certeza de que estamos na atividade certa e desempenhando nossa verdadeira vocação, pois só assim poderemos apresentar a Deus os nossos talentos e esforços como uma perpétua ação de graças.
 A ARTE DE ESCREVER PODE SER APRENDIDA?
      Quanto às pessoas, presentes ou não neste seminário, que não têm certeza de que foram verdadeiramente vocacionadas para o ministério da palavra escrita, mas assim mesmo gostariam de servir a Deus escrevendo e publicando livros, cabe aqui uma pergunta: A arte de escrever pode ser aprendida?
     Sim – é a resposta –, mas dentro de certos limites. Pois há algo que não pode ser ensinado, que não se aprende em nenhuma escola ou universidade: o talento. Este, o estudo pode desenvolver, mas não criar.
     No ato de escrever há um lado inconsciente, que está diretamente ligado ao talento, à vocação, e outro consciente. Este último pode ser conquistado ou aperfeiçoado pelo estudo de técnicas que estão à altura de todas as inteligências, e pela leitura dos grandes mestres da palavra escrita.
     Portanto, não basta também só a vocação, o talento literário. É necessário estudar as técnicas, ler os melhores modelos e se exercitar todos os dias, escrevendo. Aprende-se a escrever escrevendo, assim como se aprende a nadar nadando, e não lendo unicamente livros que ensinam a nadar.

COM QUE OBJETIVO DEVEMOS ESCREVER?
     Além de escrevermos sem jamais esquecer o nosso papel de divulgadores das verdades evangélicas, devemos levar também em conta o que o grande escritor argentino Jorge Luis Borges falou sobre o objetivo de escrevermos. Disse ele que todo escritor deveria escrever para “proporcionar alegria ao leitor”. E o escritor também deveria sentir essa alegria ao escrever.
     Borges afirmava que a literatura é uma forma de alegria. Se lemos algum texto com dificuldade, o autor fracassou. Por isso ele achava que um escritor como James Joyce tinha fracassado, já que sua obra (especialmente o romance Ulisses) requer muito esforço para ser lida.
     Borges também dizia que tudo o que nos acontece de bom ou de ruim – inclusive humilhações, desastres e infelicidades – deve ser tratado como barro, como matéria-prima utilizada em nossos livros. Essas coisas nos foram dadas para ser transformadas.
     “Devemos fazer com que as circunstâncias adversas de nossa vida se tornem coisas eternas ou em vias de eternidade”, comentava Borges.   
     Isto tendo sido dito por um contista, ensaísta e poeta universalmente célebre e genial, aos 80 anos de idade, que ficara completamente cego aos 56, e que não teve o privilégio de conhecer a Cristo como nós o conhecemos, adquire um peso todo especial, não acham?
     Portanto, só conseguimos conquistar a atenção, o interesse e a alegria do leitor se escrevemos de forma bela e clara.

A BUSCA DA EXPRESSÃO IDEAL
       A expressão clara, insubstituível, bela: eis tudo o que devemos almejar e perseguir incansavelmente. É ela que distingue um autor medíocre de um grande autor. Moisés, Homero, Platão, Virgílio, Camões e Vieira estão acima dos outros escritores por suas expressões e imagens belas e claras.
     E nesta nossa luta diária em busca de claridade e beleza, muitas vezes nos surpreendemos ao constatar que a expressão que há muito buscávamos sem a encontrar, mas que finalmente a encontramos, era a mais simples e natural entre todas as que poderíamos ter escolhido. 
     Tão simples que deveria nos ter ocorrido imediatamente, sem qualquer esforço ou dispêndio de tempo. Mas o simples em literatura não significa que seja fácil de ser alcançado. É, na maioria das vezes, resultado de um esforço imenso e perseverante.
     Um livro, para ser publicado, tem que ser trabalhado, corrigido, polido, durante meses, durante anos, com paciência e cuidado. Existem atualmente no Brasil e em Portugal livros quase totalmente ilegíveis, que só podem ser lidos (e nem sei se entendidos) por uns poucos “iniciados”.
     Não é fácil ser claro, não é fácil ser simples. E não devemos confundir clareza e simplicidade com pobreza e mediocridade. O poeta Zé Gomes disse certa vez em uma entrevista que só atingia a simplicidade em seus poemas à custa de muito trabalho. É fácil ser obscuro. O difícil é ser claro.
     Um escritor nunca deve esperar que o leitor adivinhe aquilo que ele teve desejo de dizer mas não conseguiu por falta de habilidade no uso das palavras. O leitor não fará pelo escritor o que este não foi capaz de fazer por si próprio. E só será bem escrito aquilo que for bem pensado.
     Neste particular, o filósofo alemão Arthur Schopenhauer distinguia três tipos de escritores: os que escrevem e depois pensam, os que pensam à medida que escrevem, e os que só escrevem depois de ter pensado. Mas eu descobri um quarto tipo de escritor: os que não pensam nunca.

NECESSIDADE DE CONHECERMOS A GRAMÁTICA
      O escritor brasileiro Mário de Andrade comentou que “para um artista em plena posse de sua capacidade, a gramática deixa de existir. Porém, o escritor que não conhecer a fundo e preliminarmente a gramática, jamais será um artista digno de sua profissão.”
     Porém, tanto em Portugal como no Brasil, os gramáticos são legião, e isto é um sintoma de pobreza intelectual. Quem não sabe fazer, ensina; quem sabe, faz. Falando assim estaremos nós a insinuar que o escritor deva ignorar a norma culta de sua língua? De maneira nenhuma. Ele tem que estudá-la permanentemente, com aquela persistência que o poeta francês François Coppé demonstrou ao responder a uma norte-americana que lhe perguntou se ele falava inglês: “Não, minha senhora... continuo a aprender francês.”  
      Todavia, na arte de aprender a escrever, o que conta não é o insípido convívio com gramáticos – homens cujo sangue, visto ao microscópio, dizia George Elliot, só revela vírgulas e parênteses. “O gramático vive do escritor, mas não o escritor do gramático”, comentou veementemente o escritor português Cruz Malpique.
“Definir impecavelmente a costura não é costurar. Ora, o gramático é geralmente um homem que sabe de cor a técnica da costura, mas é incapaz de dar um ponto sem picar os dedos. Não há, pois, que fugir disto: águias não saem das capoeiras, e a capoeira, no caso presente, é a gramática. Os grandes autores, eis o convívio recomendável para os escritores em formação. Eles é que são o dicionário vivo e a gramática eloquente. O mais é luar empalhado”.
     A norma deverá ser esta: aprender a gramática sem dar por isso, na língua viva dos escritores, e não inversamente.
(Término da primeira parte da palestra)

Jefferson Magno Costa

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

EMÍLIO CONDE, O APÓSTOLO DA IMPRENSA PENTECOSTAL NO BRASIL

Jefferson Magno Costa


      Naquele edifício residencial no bairro de Santa Tereza, aquela janela acesa em um dos seus apartamentos; aquela lâmpada amarela que avança nítida no tempo, através das horas frias e silenciosas da noite, não representa a vigília angustiada de algum enfermo, nem a insônia de um coração intranquilo, ou o próprio guardião da madrugada a velar o sono das criaturas. Não.
      É apenas um homem que escreve, um trabalhador intelectual solitário que, sob o olhar terno e sereno de Cristo, prepara artigos que serão divulgados no meio evangélico. 
     No final de cada um deles o leitor lerá as iniciais E.C. - Emílio Conde.
      Enquanto esse homem solitário escreve, sua fronte se ilumina em enlevos de visitação ao Céu; sua mente percorre "as ruas de ouro e cristal da formosa Jerusalém", e, sobre o papel, seu punho se agita, e a página branca, ao toque da tinta negra, torna-se mais branca ainda, alva como a neve, porque nela estão sendo escritas palavras pronunciadas na Cruz.
      Emílio Conde nasceu no dia 8 de outubro de 1901, em São Paulo. Seus pais, João Batista Conde e Maria Rosa eram de origem italiana.
      Consequentemente, o primeiro contato de Emílio com o Evangelho foi na Congregação Cristã do Brasil, fundada por italianos. Ali, o futuro escritor evangélico creu em Jesus Cristo e se tornou membro da igreja no dia 21 de abril de 1919, sendo em seguida batizado com o Espírito Santo.
      Transferindo-se para o Rio de Janeiro, passou a frequentar a Assembleia de Deus na Rua Figueira de Melo, 232, em São Cristóvão, pastoreada na época pelo missionário Samuel Nyströn.
      Entusiasmado com o calor espiritual dos que ali se reuniam para cultuar a Deus, Emílio Conde transferiu-se de sua denominação e tornou-se membro dessa igreja.
      Os anos que se sucederam foram empregados na busca incansável dos meios, os melhores que fossem, de agradar a Cristo. Era necessário servi-lo com toda integridade de coração e amplitude de espírito. Emílio Conde passou a empregar as suas horas vagas no estudo e meditação dos conhecimentos bíblicos e humanos.
     Eram necessárias bases sólidas para a construção do edifício espiritual que iria surgir de suas mãos.
     Principiou pelo conhecimento de sua língua, e depois de dominá-la satisfatoriamente, passou ao aprendizado de outras.
      Aprendeu o italiano, o inglês e o francês, sendo-lhe assim fácil o acesso à literatura desses idiomas, tão ricos em livros de inspiração evangélica. Leu boas obras ainda não traduzidas para o português.
     Foi um perfeito autodidata. Sua curiosidade abrangia vários ramos da cultura humana. Cabe porém salientar que estas leituras não o desviaram da Bíblia, pois era do seu conhecimento que "por abundantes que sejam os regatos, mais agradável é beber na fonte". 
     Deste modo, dia a dia ele perseverava na oração e na leitura da Palavra de Deus, fazendo grandes progressos nos caminhos do Espírito. Era costume seu isolar-se para meditar e sentir "a largura, o comprimento, a altura, e a profundidade do amor de Cristo que excede todo o entendimento" (Efésios 3.18,19).
      Aonde chegava, dava seu testemunho de crente. E assim, pela intensidade de vezes que subiu ao púlpito, sua palavra foi pouco a pouco se delineando, tomando feições amplas, tanto pela soma de conhecimentos que apresentava, como pelo evidente toque do Espírito.
      "Era agradável ouvi-lo" - disse um antigo pastor acerca do seu testemunho - "pois ele somava à unção espiritual e ao profundo conhecimento bíblico, uma vasta cultura secular".
      Em 1937, o missionário Nils Kastberg encontrou-o trabalhando como intérprete em um restaurante do Rio de Janeiro. A Casa Publicadora começava a surgir nesse ano.
     "Irmão Conde, necessitamos de alguém para atender ao expediente da redação de nosso periódico, o 'Mensageiro da Paz'. Sabemos que o irmão reúne em si todas as qualificações necessárias para tal cargo. O irmão aceita ser nosso redator?"
     Surpreso, antevendo a intervenção divina que se sobressaía naquele convite tão simples, e sentindo-se tocado em um dos pontos fundamentais de sua vida, a sua vocação, aceitou. Era o amanhecer do ministério do apóstolo da imprensa evangélica pentecostal no Brasil.
      Emílio Conde tratou de reunir então todo o material que havia acumulado durante anos e anos de estudos e pesquisas. Seus livros, seus cadernos de notas, trechos extraídos de muitas leituras, comentários feitos às margens das páginas dos inúmeros volumes que lera, esboços de obras em fase de conclusão, e, sobretudo, as revelações do Espírito Santo anotadas durante suas leituras bíblicas pela madrugada - tudo isso seria empregado na composição dos artigos que sairiam de suas mãos.
     Sua missão dali para frente seria produzir uma genuína literatura pentecostal, uma fonte de onde jorrassem as cristalinas palavras ditadas pelo Espírito Santo, fundamentadas em Cristo, aprovadas pelo Senhor dos senhores.
      Sua admissão oficial como funcionário da CPAD data de 15 de março de 1940. Desde o convite do missionário Nils Kastberg até aquela data, fora apenas colaborador do Mensageiro da Paz. Daí por diante, por mais de trinta anos Emílio Conde dedicaria à CPAD seu talento, sua cultura, sua impressionante capacidade de trabalho, sua mente clara e fecunda.
      Era um homem humilde, simples. Não costumava ostentar os conhecimentos que possuía. Entre os amigos, sua palavra despretenciosa e amena, dosada pelo bom humor e pela sinceridade, descontraía a todos os que a ele se achegassem.
      Para os que se viam angustiados ou confusos, procurá-lo era encontrar nele um apoio, uma palavra amiga, esclarecida, experimentada, confortadora.
      Seu trabalho na imprensa evangélica não foi uma profissão: foi um sacerdócio.
     Trabalhou para levar a semente da Palavra de Deus aos corações, e nisto empregou toda a sua vida. Deu-se a si mesmo, como está em 2 Coríntios 8.5: "... mas a si mesmo se deram, primeiramente ao Senhor e depois a nós, pela vontade de Deus."
      E era tão grande seu amor por esse trabalho, que chegou a rejeitar muitas propostas de empregos extra-evangélicos, pois se os aceitasse, tornar-se-ia inepto para o desempenho da função que exercia.
     Agindo assim, sempre esteve à altura da posição que ocupava, e sempre pronto a cooperar com a causa das Assembleias de Deus no Brasil.
      Graças à sua maneira sóbria e digna de se conduzir, foi, entre nós, uma espécie de representante mor do movimento pentecostal em todos os meios sociais e evangélicos.
     De 1946 a 1958 representou oficialmente as Assembleias de Deus do Brasil nas Conferências Mundiais Pentecostais, havendo estado em Estocolmo, Londres e Toronto.
      E foi também, durante muitos anos, nosso representante, não só na Diretoria, mas também em Comissões da Sociedade Bíblica do Brasil.
      Quando principiou a escrever em benefício do Evangelho, eram poucos os que entre nós podiam e se prestavam a tal ofício.
     Portanto, foi de sua caneta que fluiu a maioria dos artigos, das notícias e das reportagens usadas no jornal O Mensageiro da Paz, nas revistas, e também nos livros da CPAD e tudo mais que ia do Sul ao Norte do Brasil para as nossas igrejas - as mensagens escritas para edificação dos fiéis.
      Seu conhecimento e sua visão espiritual abrangiam toda a comunidade evangélica brasileira. Empenhou-se a fundo em obter dados do Movimento Pentecostal no Brasil e no mundo e, como resultado, escreveu os livros: O Testemunho dos Séculos e História das Assembleias de Deus no Brasil (este último, reescrito e ampliado pela CPAD). Escreveu também os seguintes livros: Asas do Ideal, O Homem, Pentecoste para Todos, Igrejas sem Brilho, Nos Domínios da Fé, Caminhos do Mundo Antigo, Flores do meu Jardim, Tesouro de Conhecimentos Bíblicos, e Estudos da Palavra.
      Era, sobretudo, um homem de oração. Foi orando que recebeu de Deus inspiração para compor 25 hinos da Harpa Cristã, e outros, sendo dois em parceria com o missionário Nils Kastberg, e cinco com a missionária Eufrosine Kastberg. Integrou, durante muitos anos, o Coral da Assembleia de Deus em São Cristóvão, tendo sido também organista e acordeonista.
     Gostava muito de cantar, e todos quantos o ouviam, sentiam vibrar as cordas de seu coração, pois ele estava sempre desejando "as ruas de ouro e cristal da formosa Jerusalém".
      Considerando o imenso e relevante trabalho por ele prestado à Assembleia de Deus no Brasil, foi-lhe oferecido certa vez, por um grupo de pastores, o acesso ao Ministério do Evangelho, através de ordenação, mas ele recusou definitivamente.
     Em janeiro de 1971, acometido de uma já antiga enfermidade, oriunda de complicações pós-operatórias, foi internado no Hospital Evangélico, na Tijuca. Uma semana antes a irmã Didi, enfermeira que cuidou dele nos seus últimos meses de vida, o encontrara dormindo com a caneta entre os dedos, debruçado totalmente sobre o trabalho inacabado. Seria sua última página escrita.
      Aplicadas todas as forças da alma e do corpo para servir a Cristo, toda sua vida não lhe fora suficiente; era-lhe necessário passar para a eternidade e continuar servindo "Àquele que é mais sutil que o ar, mais ligeiro que o relâmpago, e cujo olhar é mais belo que um alvorecer de primavera, e mais suave que a claridade das estrelas".
      "Vinde ver o mais egrégio espetáculo que pode haver na terra: Vinde ver como morre um justo." A noite lentamente se apossara do hospital, e as sombras, crescendo nos recantos menos favorecidos pela claridade desmaiada e última do crepúsculo, escalaram pouco a pouco as paredes externas do edifício, e, silenciosas e irreversíveis, foram-no revestindo de uma tonalidade cinza.
      Invadindo as vidraças, penetraram no quarto de Emílio Conde, que, deitado no seu leito de morte, pesava a sua vida, o que tinha sido, o que fizera, o que deixara de fazer.
      Ele não se sentia só, pois desde o dia em que o Senhor se apossara mansamente do seu coração e nele fizera morada, sua alma nunca mais fora presa do angustioso sentimento de solidão. O "Não te deixarei, nem te desampararei" cumprira-se fielmente em sua vida.
      Às 13.00 horas do dia 5 de janeiro de 1971, Emílio Conde dormiu no Senhor. Às 17.00 horas do mesmo dia seu corpo saía do Hospital Evangélico para ser velado no Templo da Assembleia de Deus em São Cristóvão, ficando próximo ao púlpito, aquele mesmo púlpito onde pregara tantas vezes e onde tantas vezes cantara.
     A Rádio Nacional, a Tupi e a Globo noticiaram com detalhes o seu falecimento.

      O seu compacto "Águas Vivas" foi tocado durante toda a noite, nos intervalos dos muitos que usaram da palavra.
      Pela manhã, às 9.30 horas, chegou o Vice-Governador do Rio de Janeiro, o doutor Erasmo Martins Pedro. No seu breve discurso, ele disse que Emílio Conde em vida "fazia o trabalho do acendedor de lampiões: entrava numa rua escura e ia deixando luz atrás de si".
      Representantes de instituições batistas disseram que Emílio Conde não pertencia somente às Assembléias de Deus, mas aos evangélicos de todo o Brasil.
      O pastor Túlio Barros pediu que todos os presentes abrissem suas harpas e cantassem juntos o hino 202: "Junto ao trono de Deus preparado..."
      Em seguida, o pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos leu Apocalipse 14.13, e, enquanto falava, um ancião aproximou-se lentamente do corpo e contemplou aquela face pálida e serena, transfigurada pela beleza sagrada e espiritual da morte, afastando-se mansamente depois.
      Era o irmão Adrião Nobre, um dos pioneiros da obra pentecostal no Brasil, e o membro número um de São Cristóvão.
      Às 10.00 horas, os pastores Túlio Barros Ferreira, Alcebíades P. Vasconcelos, Geziel Nunes Gomes e o irmão Catarino Varjão empunharam as alças do caixão e se dirigiram à porta de saída do templo. No cemitério do Caju, o pastor Geziel Gomes, em nome de todos os obreiros do Campo de São Cristóvão, usou da palavra, despedindo-se de Emílio Conde.
      Ao concluir, disse: "Ele não gerou filhos materiais, mas os seus filhos na fé são tantos que não se podem contar."
     Em seguida os presentes cantaram o hino: "Pensa na celestial melodia." Por último, o pastor Túlio Barros orou. A multidão se afastou deixando atrás de si, na tumba 81.011, da quadra 81-A, do Cemitério do Caju, o corpo de um justo, o homem que soube honrar a Deus e servi-lo durante toda a sua vida.


A tudo que é transitório soubeste dar,
com a tua grave melancolia,
a densidade do eterno.
Mais de uma vez fizeste aos homens
advertências terríveis.
Mas a tua glória maior foi ser
aquele que soube falar a Deus
nos ritmos de sua Palavra.

(Do livro de minha autoria Eles Andaram com Deus, publicado em 1985 pela CPAD, e atualmente esgotado).


Jefferson Magno Costa


1 comentários:

  1. Lucivaldo de PaulaJan 27, 2012 02:17 PM
    Querido Pastor,


    o seu trabalho, o modo como escreve, a sua humildade é parecido com o Saudoso Pastor Emilio Conde.
    Agradeço a Deus pela sua vida e de sua familia. Apaz do Senhor!

    RESPOSTA AO COMENTÁRIO:
    Prezado pastor e amigo Lucivaldo, não sou digno desse paralelo. Mas, em todo caso, muito obrigado por ter-me comparado a um homem de uma estatura intelectual e espiritual tão grande quanto a do pastor Emílio Conde. Fiquemos na paz.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

PECADO: ADÃO E EVA PECARAM COM OS CINCO SENTIDOS; PARA NOS REDIMIR, CRISTO PADECEU NOS CINCO SENTIDOS

Jefferson Magno Costa

      Eva, que depois foi acompanhada de Adão, em um só pecado, pecou com os cinco sentidos.
Pecou com a audição, ouvindo a serpente (Gn 3.1-2); pecou com a visão, olhando desejosa para o fruto proibido (Gn 3.6); pecou com o tato, ao pegar o fruto para comê-lo (Gn 3.6); pecou com o olfato, ao sentir o cheiro do fruto proibido, quando o aproximou do nariz, no momento de comê-lo (Gn 3.6); e pecou com o paladar, ao comer o fruto (Gn 3.6).
      Portanto, nossos primeiros pais, ao pecarem contra Deus desobedecendo sua ordem (Gn 2.16,17), pecaram com os cinco sentidos.
      E como Cristo veio ao mundo a fim de nos redimir dos pecados dos nossos primeiros pais e dos nossos pecados (Rm 4.25; 1 Pe 3.18; 1Jo 2.2), padeceu nos cinco sentidos para realizar essa redenção.
      Jesus padeceu no sentido da audição, ao ouvir a frase “Eu te saúdo Rabi”, com a qual Judas o traiu e o entregou aos homens que o vieram prender (Mt 26.49); padeceu nesse sentido quando ouviu as duas falsas testemunhas deporem contra ele (Mt 26.59-62); padeceu ao ouvir aqueles que pouco antes o aclamavam, e agora pediam sua morte (Jo 19.5,60).
     Padeceu ao ouvir Pilatos reconhecer que Ele era justo, mas em seguida o entregar aos judeus para ser crucificado (Mt 27.24); padeceu ao ouvir ser acusado de malfeitor (Jo 18.29,30) e de pervertedor do povo (Lc 23.140). Padeceu ouvindo as blasfêmias e os escarnecimentos do povo e dos príncipes dos sacerdotes contra ele (Mt 27.39-43); e padeceu ouvindo os malfeitores o insultarem (Mt 27.44).
      E em nenhum momento Aquele que com palavras e obras havia consolado tanta gente, ouviu uma única palavra de consolo.
      Jesus também padeceu no sentido da visão, ao ver todos os seus discípulos fugirem (Mt 26.56). Ele viu que um o entregou traiçoeiramente (Mt 26.14,15). Viu que outro o negou três vezes vergonhosamente (Mt 26.69-75). Viu-se ser atado e levado preso pelas ruas de Jerusalém (Jo 18.12-14). Viu quando vendaram os seus olhos para o insultarem e o espancarem (Lc 22.64). Viu quando o despiram no Pretório para o açoitarem (Mc 15.20). Viu quando o despiram no Calvário, e ele ficou exposto durante várias horas à vista de todos os que estavam ali (Jo 19.23). Viu a sua desconsolada mãe ao pé da cruz, em cujo coração e em cujos olhos estava outra vez crucificado (Jo 19.26). Finalmente, viu os meus e os seus pecados, e o quanto nós havíamos de ser ingratos diante de todo aquele amor que ele expressou por nós.
      Jesus padeceu no sentido do tato, não ficando parte alguma em todo o seu corpo sagrado que não fosse martirizada com terrível tormento.
     Padeceu com as cordas e correntes com as quais o amarraram; padeceu no rosto as bofetadas; padeceu na cabeça a coroa de espinhos; padeceu nos ombros o peso da cruz; padeceu nas costas as centenas de açoites; padeceu nas mãos e nos pés a aguda e indescritível dor dos cravos com os quais o fixaram no madeiro. E em todos os seus ossos, em todos os seus nervos, em todas as suas veias, em todas as suas artérias, ele padeceu o estiramento, a agonia quando foi suspenso, e a violência mais do que mortal de estar várias horas pendurado na cruz, até expirar nela.
      Jesus padeceu no sentido do olfato, porque morreu entre os terríveis maus cheiros do monte Calvário. Esse monte tinha esse nome por causa das caveiras e dos ossos dos malfeitores que eram crucificados ali. Por terem sido enterrados de qualquer jeito pelos algozes, ou porque depois os cães os desenterravam, os restos mortais dos crucificados ficavam espalhados por todo o monte. O fedor de carniça era insuportável.
     Misturados com o sangue que apodrecia sobre as pedras, tornavam aquele lugar asqueroso, de embrulhar o estômago de qualquer um.
      Em virtude de Aquele que nos remiu dos nossos pecados ter-se submetido ao mais aviltante gênero de morte que existia naquela época (aconselho o leitor a ler o mais esclarecedor e impressionante livro já escrito até hoje sobre esse assunto, Um Médico Descreve a Crucificação de Cristo), ele também, para nos redimir, submeteu-se às circunstâncias do lugar onde morreria, respirando com grande dificuldade os terríveis odores da podridão daquele lugar.
      Finalmente, Jesus padeceu no sentido do paladar, sofrendo aquela ardentíssima sede que ele sentiu enquanto esteve pendurado na cruz. A sede revelou-se um tormento incomparavelmente mais terrível que todos os outros tormentos, porque só ela obrigou o pacientíssimo Redentor a pedir alívio (Jo 19.28).
     Ele provou o azedo do vinagre e o amargo do fel como parte do preço que pagou por nós.
      E se foi desta maneira que tão amorosamente Cristo padeceu por mim e por você, será muito justo que eu e você em algum sentido também padeçamos alguma coisa por amor a ele.
      Em Filipenses 2.5 está escrito: ”De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus.” Os cinco sentidos através dos quais Cristo sofreu por amor a nós, nós devemos consagrá-los por amor a Ele.
     Mortifiquemos nossa audição. Fujamos das más conversações, não só das ilícitas e ociosas, mas também até de algumas consideradas lícitas.
     Troquemos o ouvir pelo ler, lendo a Palavra de Deus, na qual Deus nos fala e nós o ouvimos. Na oração, nós falamos com Deus, e na leitura de sua Palavra, Deus fala conosco.
      “E disse-me o Senhor: Filho do homem, pondera no teu coração, e com os teus olhos, e ouve com os teus ouvidos, tudo quanto eu te disser de todos os estatutos da casa do Senhor, e de todas as suas leis...” (Ez 44.5).
     Mortifiquemos nossa visão. “Não porei coisa má diante dos meus olhos” (Sl 101.3), disse o salmista. Os nossos olhos têm duas funções: Ver e chorar. E parece que Deus os criou mais para chorar do que para ver, pois os cegos não veem, e choram.
     Chorem, portanto, os nossos olhos pedindo perdão pelos nossos pecados, e chorem muito mais por nunca terem se voltado para contemplar os sofrimentos do nosso Deus na cruz.
      Devemos mortificar o nosso tato ajoelhando-nos diante do Senhor para pedir-lhe que nos perdoe os nossos pecados, mortificando o nosso corpo, buscando estreitar nossa comunhão com Ele através do sacrifício.
     A cama na qual o nosso Jesus dormiu o último sono da morte, nós bem sabemos qual foi. Pois seria justo que enquanto ele teve por cama o duro madeiro da cruz, nós permanecêssemos preguiçosamente deitados no conforto das nossas camas?
      Mortifiquemos o nosso olfato. “E andai em amor, como também Cristo vos amou, e se entregou a si mesmo por nós, em oferta e sacrifício a Deus, em cheiro suave” (Ef 5.2). Os que conhecem ao Senhor, onde chegam exalam a fragrância desse conhecimento, o que nos leva a deduzir que quem não conhece ao Senhor, por mais intelectual, interessante e "descolado" que pareça, exala o fedor do diabo (2Co 2.14):
     "E graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Cristo, e por meio de nós manifesta em todo o lugar a fragrância do seu conhecimento".
      E finalmente, mortifiquemos o nosso paladar através do jejum (2Co 11.27). "Porque o reino de Deus não é comida nem bebida, mas justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo" (Rm 14.17).

     Jefferson Magno Costa

 3 comentários:


  1. Inajá Martins de AlmeidaMar 9, 2011 03:16 AM
  2. Pastor Jefferson graça e paz.
    Linda mensagem. Infelizmente a maioria das pessoas está com os cinco sentidos desarraigados para as coisas de Deus, para a exuberância da Sua criação. Pensar no sacrifício que Jesus dispôs a fazer por nós, há dois mil anos está de nós! Muitos ao menos conseguem perceber o acontecido. Que bom que Deus está a levantar suas trombetas e podemos nos deparar com textos tão bem estruturados, elaborados e fundamentados como este que temos oportunidade de receber em nossos lares, quando a tecnologia compactua a nosso favor - não há desculpas para alegar desconhecimento. Obrigada

    ResponderExcluir

  3. Jefferson Magno CostaMar 9, 2011 05:21 AM

    Realmente, prezada irmã Inajá. Diante de todas as fontes que proclamam hoje o Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, e a urgência que a humanidade tem em aceitá-lo como Salvador, não haverá desculpas para ninguém naquele Grande Dia.
    ResponderExcluir

  4. Marcello de OliveiraMar 9, 2011 05:33 AM
    Shalom!

    Linda mensagem meu amigo!
    att, Pr Marcelo

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