sábado, 7 de janeiro de 2012

O DIA EM QUE A MORTE ESTEVE FRENTE A FRENTE COM A VIDA



Jefferson Magno Costa

     Quando lemos hoje a palavra bíblica Naim ou ouvimos alguém pronunciá-la, imediatamente a associamos ao cortejo fúnebre que conduzia para a sepultura o corpo de um rapaz, segundo a narração do evangelista Lucas.
      Porém, ao ser pronunciada pelos hebreus que viveram nos dias em que Jesus viveu como homem entre os homens, a palavra Naim era imediatamente associada a uma cidade que fazia jus ao significado desse nome: bela, amável, aprazível.

O CENÁRIO ONDE A MORTE IRIA ENCONTRAR A VIDA


     A cidade para onde a caravana liderada por Jesus — o Senhor da Vida — estava se dirigindo naquele dia, e em cuja porta iria encontrar a caravana liderada pela Morte, era realmente bela e de clima agradável. Estava situada em uma região circunvizinha aos bosques e às férteis planícies da Galileia, ao pé do monte Hermom.
      Ao norte, a três quilômetros e meio de seus muros ficava o monte Tabor. Dez quilômetros a sudeste localizava-se Nazaré, e a quatro quilômetros e meio ao sul estava Suném, a cidade natal da sunamita, cujo filho o profeta Eliseu ressuscitara oito séculos atrás.

CHORANDO A DOR DE VER O FILHO MORTO


     Era o mês de maio, segundo ano do ministério de Jesus, trigésimo segundo de sua vida. Mesmo distante quase dois mil anos desse episódio narrado tão-somente pelo evangelista Lucas (7.11-17), dá para imaginarmos detalhes daquele quadro de desespero e dor.  
       Dá para ver bem próximo do caixão uma mulher de olhar aflito, andando com dificuldade, amparada por outras mulheres que seguram seus braços e apóiam seus ombros. O seu pranto comove a todos. É a mãe do rapaz.
       Aquele moço era seu único apoio, aquele que a ampararia na velhice, o filho que lhe proporcionaria mais tarde a barulhenta e doce alegria dos netos. Mas a Morte, implacável e cruel, o arrebatara na flor de seus anos.
      O semblante daquela mãe desconsolada e disposta até a pedir que a enterrassem junto com o filho lembra a figura de outra mãe que dentro em breve, diante de uma cruz, também sentirá essa indescritível dor que é sem consolo. 
     Aquela mulher sensibilizará o próprio Filho de Deus, Jesus Cristo, que dentro de instantes, ao aproximar-se da cidade de Naim, passará a fazer parte daquela cena, e dentro daquele cenário entrará no território da Morte sem pedir licença, e ordenará que ela devolva uma de suas vítimas.

TALVEZ AQUELA MULHER JÁ TIVESSE PERCORRIDO AQUELE MESMO TRAJETO CONDUZINDO PARA A SEPULTURA O CORPO DO MARIDO


     Algum tempo atrás aquela mulher provavelmente fizera aquela mesma difícil viagem até as sepulturas que haviam sido escavadas na rocha fora dos muros da cidade. Ali os habitantes de Naim sepultavam seus mortos.
      Cadáveres eram considerados cerimonialmente impuros pelos hebreus. Quem os tocasse ficaria impossibilitado, durante sete dias, de adorar ao Senhor (Números 19.11,13-14). Os mortos contaminavam também o solo. Portanto, tinham de ser sepultados fora da cidade.
      E tinha sido para fora da cidade que ela, tempos atrás, provavelmente havia conduzido o corpo de seu marido. Talvez ao seu lado naquele dia estivesse agarrado à orla do seu vestido um meninozinho de olhar assustado, choramingando e sem entender por que aquelas pessoas estavam levando daquela maneira o seu pai para longe de casa.
      Aquele menino iria crescer, iria tornar-se rapaz, e certo dia, para espanto de todos e dor extrema de sua mãe, ele também morreria. 
     Grande parte daquela multidão estava ali para chorar com a mãe do rapaz cujo corpo estava sendo levado para a sepultura. Todos queriam ser solidários à sua imensa dor. 
      Quem não se sensibilizaria diante do pranto de uma mulher que além de viúva perdera o único filho? Haveria sofrimento maior que aquele?

SÓ EXISTE UM A QUEM A MORTE RESPEITA E OBEDECE: JESUS CRISTO


     A humanidade sempre considerou a Morte como o ponto final de tudo. O filósofo grego Aristóteles reconheceu que ela é a última das coisas terríveis que pode acontecer a um ser humano.
        Fisicamente falando, a morte iguala os grandes aos pequenos, os ricos aos pobres, os que governam aos que são governados.
      Ela não perdoa nem aquele sobre cuja cabeça está a coroa real, nem aquele que usa um simples chapéu de palha. Fere a todos com a lâmina afiadíssima de sua foice, conforme a cultura popular a tem imaginado nos contos folclóricos.
      Mata o professor e seus alunos, aquele que é bom e aquele que é mau, os grandes e os pequenos, o inculto e o letrado, os que ocupam os púlpitos e os que se assentam para ouvi-los.
     Mas existe alguém no universo a quem a Morte respeita, teme e obedece: Jesus Cristo.
      Mesmo quando ela o manteve durante três dias sob suas garras geladas, nem naquele momento a morte teve o controle da situação. Jesus continuou ditando as ordens, soberano e absoluto no controle de todas as coisas, inclusive dela.
      Foi o próprio Jesus quem deixou isto bem claro: “porque dou a minha vida para tornar a tomá-la. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar e poder para tornar a tomá-la. Esse mandamento recebi de meu Pai” (João 10.17,18).

O DEUS DA CONSOLAÇÃO PÁRA DIANTE DE UMA MÃE DESCONSOLADA


    E foi esse Jesus que parou diante daquela mulher desesperada, desconsolada, aflita. Sua dor era tão grande que ela permaneceu muda diante de Jesus. Há um provérbio popular que diz: “Mais pede quem nem sequer a pedir se atreve; e quem dá antes que lhe peçam, dá muito mais”.
     Movido de íntima compaixão por aquela mulher, Jesus disse: “Não chores” (Lc 7.13). Quantas vezes ela teria ouvido essa frase naquele dia? Talvez dezenas, centenas de vezes. Mas ninguém ali presente, ninguém em toda a Palestina, ninguém nos vastos domínios do Império Romano, ninguém no mundo inteiro teria poder de avançar além daquelas duas palavras: “Não chores”. Só Jesus!
      Só Ele tinha e tem o poder de transformar essas duas palavras que vêm sendo pronunciadas tantas vezes de maneira vazia diante da dor extrema dos seres humanos, em um hino de consolação, júbilo e triunfo diante da própria Morte, ao coroá-las com um gesto do seu poder, com um ato de sua onipotência!

O SENHOR DA VIDA DIANTE DA INDESEJADA DE TODOS NÓS, A MORTE


     Após dizer “não chores”, Jesus tocou o esquife, o caixão onde o corpo do rapaz estava sendo conduzido. As pessoas que o carregavam pararam. Conforme o costume judaico, o caixão era certamente feito de vime trançado. Não tinha tampa.
      O morto devia estar tanto com as mãos quanto com os pés unidos e amarrados. A cabeça estava enrolada por um pano que só deixava à mostra o rosto, e cujas pontas terminavam em um nó debaixo do queixo. O restante do corpo estava envolto em faixas e panos. Assim eram preparados para o sepultamento os cadáveres dos judeus de origem simples do tempo de Jesus.     Quem possuía recursos derramava substâncias aromáticas entre as faixas e panos no momento em que estivesse preparando o corpo para o sepultamento.
      Ao tocar naquele caixão, Jesus tornou-se cerimonialmente contaminado, impuro, conforme as leis judaicas. Mas acima daquelas leis pairava a sua misericórdia. Ali estava alguém que é maior do que a Lei e a Morte: o Senhor da Vida! 
        Com sua voz onipotente de Senhor e Deus, Jesus ordenou: “Jovem, eu te digo: Levanta-te” (v. 14). Enquanto o profeta Elias, no esforço para ressuscitar o filho da viúva de Sarepta rogara como servo: “Ó Senhor, meu Deus, rogo-te que torne a alma deste menino a entrar nele” (1 Reis 17.21), Jesus ordenou como Deus: “Jovem, eu te digo (o que equivale a dizer: eu te ordeno): Levanta-te”. (Veja também João 5.25,26; Romanos 4.17b).

QUANDO A VIDA CHEGA, A MORTE TEM QUE BATER EM RETIRADA


     Aquela mesma voz que ressoara no início dos tempos e poderosamente criara o universo, acabara de ressoar ali diante dos ouvidos surdos de um rapaz. E como um sol resplandecente de calor e vida, aquelas palavras invadiram as trevas pesadas e frias que a Morte usara para congelar o corpo daquele moço.
      Imediatamente aquele corpo, já em estado de rigidez cadavérica, estremeceu, visitado novamente pela vida! O sangue coagulado tornou-se morno e líquido, e passou a fluir outra vez pelas artérias, veias e vasos capilares do rapaz. Seu cérebro voltou a funcionar, a raciocinar e a comandar o corpo. Seu coração recomeçou a bater e a bombear o sangue, e seus pulmões voltaram a se encher e a se esvaziar de ar. O rapaz retornara à vida; a vida retornara ao rapaz!
        O moço abriu os olhos, sentou-se ainda dentro do caixão, e sem entender o que estava acontecendo, para onde o estavam levando e  por que ele e aquela multidão se encontravam ali, começou a falar, a fazer perguntas.
      Imediatamente Jesus o pegou pelo braço, fê-lo descer do caixão e o entregou à sua mãe. Maravilha das maravilhas! Medo, espanto, alegria, assombro total! Nunca ninguém vira algo semelhante em toda a Palestina.
     Esse milagre foi realizado diante do portão da cidade, de onde um grande número de pessoas estava saindo e uma outra grande multidão estava entrando (v. 11).
      Era nos portões das cidades da Palestina que as pessoas mais ilustres se reuniam para tratar de questões gerais, fazer negócios e atualizar-se com relação aos assuntos da comunidade (2 Samuel 15.2; Salmo 69.12).
     Portanto, a ressurreição do filho daquela viúva teve inúmeras testemunhas oculares.
         Esse acontecimento vem sendo narrado há vários séculos nos púlpitos das igrejas em muitos países.
      Alguns pregadores inspiradíssimos têm visto no rapaz a figura do pecador que adormeceu nos seus delitos e pecados e está sendo levado pelos companheiros à sepultura da condenação eterna. A mãe seria a Igreja. 
    É ela que derrama lágrimas pelo pecador; é ela que deseja ardentemente que ele ressuscite; é ela que se esforça para que ele conheça a vida verdadeira, para que ele tenha um encontro de salvação, de ressurreição com Jesus.

AS TRÊS PESSOAS RESSUSCITADAS POR JESUS E O SIGNIFICADO DESSES TRÊS MILAGRES

     Outros grandes pregadores dos primeiros séculos do cristianismo têm comparado as três pessoas ressuscitadas por Jesus, conforme registram os evangelistas (a filha de Jairo, o filho da viúva da cidade de Naim, e Lázaro) aos três tipos de pecadores que existem no mundo.
     Não que essas pessoas ressucitadas tenham sido terríveis pecadores; elas representariam, figuradamente, esses pecadores.
     PRIMEIRO TIPO:
     Jesus ressuscitou a filha de Jairo quando o corpo da menina ainda estava na casa de seus pais. Há pessoas que cometem discretamente seus pecados e ficam tranquilamente dentro de suas casas, achando que tudo está muito bem. Afinal de contas, ninguém sabe de nada.
      São discretíssimas. Evitam que seus pecados cheguem ao conhecimento dos outros. Até parecem santos, tal é o grau de dissimulação, de disfarce que alcançam. Mas não passam de pecadores mortos, necessitando de um encontro com Jesus.
     SEGUNDO TIPO:

     O filho da viúva moradora da cidade de Naim foi ressuscitado quando já estava a caminho do cemitério. Há pessoas que além de cometerem seus pecados, envolvem neles seus parentes, amigos e vizinhos. Levam seu estado de pecaminosidade para dentro de casa, e de lá a má fama de suas práticas sai para a rua, para a vizinhança, para o local de trabalho.
        E são exatamente aquelas pessoas que os apóiam, que participam, que os acham engraçados e que até procuram tirar partido da vida pecaminosa desses mortos, desses filhos de viúvas; são os parentes, amigos e vizinhos desses mortos que os fazem chegar mais cedo na sepultura, no inferno.
      TERCEIRO TIPO:
     Lázaro representa os pecadores no seu mais baixo grau de pecaminosidade. Por estarem sepultados na multidão de pecados, já cheiram mal, e por isso já foram abandonados por todos na sepultura, em seu estado de putrefação moral e espiritual.
      Jesus tem poder para ressuscitar esses três tipos de mortos, esses três tipos de pecadores. E foi o que Ele fez.
      Cristo já venceu a Morte e garante também a vida eterna a todos os que o aceitarem como Salvador. A esperança de todo crente, de todos os que hoje choram ou chorarão por se verem separados dos seus entes queridos está declarada no cântico de ação de graças do profeta Isaías:
      “E destruirá, neste monte, a máscara do rosto com que todos os povos andam cobertos, e o véu com que todas as nações se escondem. Aniquilará a Morte para sempre, e assim enxugará o Senhor Jeová as lágrimas de todos os rostos, e tirará o opróbrio do seu povo de toda a terra; porque o Senhor o disse” (Isaías 25.7-8).
      Esta esperança de um dia alcançarmos sobre a Morte a vitória total, absoluta, eterna – é nossa. É de todos aqueles que já confessaram, perante o mundo, Jesus Cristo como Salvador, e o servem com temor e fidelidade!

Jefferson Magno Costa

2 comentários:


Marcello de Oliveira disse...
Shalom! Como sempre, seus textos escritos com diáfana clareza, são verdadeiras pérolas para nossos corações. Ampliando a ideia exposta, vemos 3 encontros neste relato bíblico: 1) O encontro de dois grupos. O grupo da vida (Jesus) e o grupo da morte (o filho da viúva) 2) O encontro de dois filhos únicos. Um estava vivo (JESUS), mas destinado a morrer, o outro (filho da viúva) estava morto, mas destinado a viver. 3) O encontro entre dois inimigos. Jesus enfrentou a morte, o último inimigo. Ele apenas proferiu uma palavra e o menino voltou à vida. um abraço do seu amigo e confrade, Marcelo Oliveira
Jefferson Magno Costa disse...
Prezado amigo e confrade Marcelo Oliveira: Você é sempre surpreendente em suas observações. Obrigado pelo desdobramento e enriquecimento da matéria. De Oliveiras não podíamos esperar frutos menos ungidos. Um abraço, Pr Jefferson
 

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