sábado, 29 de maio de 2010

A TENDÊNCIA DO POVO BRASILEIRO PARA O FANATISMO RELIGIOSO

 Na madrugada do dia 21 de novembro de 1896, quase três mil homens armados de espingardas de caça, facões, foices, ferrões de vaqueiro e varas, caminhavam cantando ladainhas e rezando, rumo a um vilarejo no interior da Bahia, denominado Uauá. Marchavam com o propósito de enfrentar uma tropa do exército, composta de mais de 100 soldados.
À frente da multidão de fanáticos caminhavam vários cangaceiros, ladeados por homens conduzindo imagens de santos, palmas ressequidas retiradas dos altares de igrejinhas, a “bandeira do divino” e uma grande cruz de madeira. Eram os “beatos” de Antônio Conselheiro, um líder religioso que se dizia católico romano, e a quem os fanáticos veneravam como santo. Vinham do arraial de Canudos, o segundo maior reduto de fanáticos na história do Brasil, depois de Juazeiro do Norte, no Ceará (onde viveu o padre Cícero).
A luta travada naquela madrugada foi a primeira de quatro batalhas, que resultaram na morte de mais de 5.000 fanáticos, soldados e oficiais. Foi a Guerra de Canudos – a maior tragédia já produzida pelo fanatismo religioso no Brasil, que o escritor Euclides da Cunha, enviado na época pelo jornal O Estado de São Paulo para fazer a cobertura jornalística do conflito, imortalizaria no livro Os Sertões.
Por que as multidões se fanatizam? De onde vem essa força, esse poder, essa influência capaz de levar homens, mulheres e crianças a seguirem líderes religiosos que os dominam e exploram? O que leva as pessoas a se agruparem ao redor de homens tão humanos, tão carentes, tão limitados e falhos como as pessoas que os seguem, obedecem, crêem em suas promessas, tornam-se hipnotizadas pelo poder de sua oratória, e, em alguns casos, até se ajoelham para adorá-los como um deus?
Um dos estudiosos desse fenômeno, o sociólogo Pedro Vergara, salientou que “tanto no passado como em nossos dias, o fanatismo religioso oferece numerosos exemplos de delírios individuais e coletivos, em que os atos de ‘purificação’ ou de sacrifícios provocam massacres brutais. Tais paroxismos se caracterizam pela crueldade sanguinária, e pela ausência total de certos sentimentos que, noutras circunstâncias, teriam servido, só por si, de freio inibitório”.
Os dicionários definem o fanatismo como uma ilusão, um erro, um excessivo zelo religioso ou paixão levada ao exagero, uma espécie de delírio que leva o fanático a praticar atos criminosos em nome da religião. Além de ser um fenômeno social, o fanatismo é uma das mais graves manifestações da psicologia das massas.
Nos últimos trinta anos, sociólogos, psicólogos e historiadores das religiões têm-se debruçado com muita frequência sobre o tema, pois as populações de determinadas regiões do mundo estão se mostrando cada vez mais propensas ao fanatismo.

OS FANÁTICOS DO PADRE CÍCERO E OS FANÁTICOS DO “PASTOR” E JIM JONES
As hostes fanatizadas que se manifestam atualmente em alguns países do Oriente Médio e ameaçam a paz no mundo pouco diferem dos milhares de nordestinos que se reuniram ao redor do padre Cícero Romão Batista, na cidade do Juazeiro, no Ceará, no início do século passado, e combateram as tropas do Governador Franco Rabelo, usando rifles, mas também atirando sobre os soldados pedaços de chifres, contas de rosário, pregos retirados do interior de igrejas, pedaços de cera benta e ossos de defuntos, como objetos infalíveis para afugentar a tropa dos “soldados do cão”, que os atacavam.
O problema do fanatismo religioso torna-se mais difícil ainda de ser cientificamente explicado, quando nos deparamos com a trágica decisão dos 913 adeptos da seita “Templo do Povo”, que em 1978 cometeram suicídio coletivo nas Guinas, ingerindo cianureto em obediência à determinação de seu líder religioso, Jim Jones, o “pastor do diabo”. Haverá uma explicação para essa que é hoje considerada uma das maiores tragédias com motivação religiosa da história? Afinal, o que é o fanatismo religioso?

A OPINIÃO DE FREUD SOBRE O FANATISMO, E A “TRAGÉDIA DA PEDRA BONITA” EM PERNAMBUCO
Analisando a psicologia das massas fanatizadas, Freud escreveu: “Quaisquer que sejam os indivíduos que a compõem, e por diversos ou semelhantes que possam ser seus gêneros de vida, suas ocupações, seu caráter ou sua inteligência, o fato exclusivo de se acharem transformados numa multidão, torna-os possuídos por uma espécie de alma coletiva. Esta alma os faz sentir, pensar e agir de uma maneira inteiramente diferente de como se sentiria, pensaria e agiria cada um deles isoladamente. Exigem ilusões às quais não podem renunciar. Dão sempre preferência ao irreal, e o real age sobre elas com a mesma força do real. Como acontece no sonho e na hipnose, a prova da realidade sucumbe perante a energia dos desejos carregados de fantasias.”
Uma das maiores confirmações de que Freud tinha razão ao afirmar que as multidões fanatizadas preferem o irreal ao real ocorreu em 1838, em um lugarejo conhecido como Vila Bela, no Estado de Pernambuco. Ali, o fanatismo tocou as raias do horror e do delírio sanguinários, resultando no que ficou conhecida como “a tragédia da Pedra Bonita”.
Meses antes, o agricultor João Ferreira da Silva havia percorrido o sertão de Pernambuco dizendo ser ele o rei D. Sebastião, de Portugal, que finalmente voltara para tornar ricos e imortais a todos os que se unissem à sua pregação. (D. Sebastião foi o rei português que, em 1580, morreu lutando contra os espanhóis, na batalha de Alcácer-Quibir. Porém, os portugueses permaneceram acreditando que D. Sebastião não havia morrido, e que um dia iria voltar para não só libertá-los dos espanhóis, mas para torná-los ricos e poderosos sobre todas as nações do mundo. Surgiu então o Sebastianismo, que os colonizadores portugueses trouxeram para o Brasil, juntamente com inúmeras outras crendices.)
Após reunir um grande número de nordestinos ingênuos, fanáticos e crédulos em suas promessas, João Ferreira disse que estava desgostoso e triste com todos. Quiseram saber por que. Ele lhes disse que os considerava incrédulos, fracos e falsos, pois apesar de ele ter lhes falado que muita riqueza os aguardava “no seu reino”, ainda permanecia preso a um encantamento.
– Mas esse encantamento será quebrado se vocês me ajudarem a lavar com sangue as duas torres da catedral do meu reino, que se erguem próximas daqui. (Na floresta que ficava próxima ao local onde eles estavam reunidos havia dois enormes rochedos.) Após o meu encanto haver sido quebrado – continuou João Ferreira, no auge do seu delírio assassino – os “fiéis” que se tiverem sacrificado por mim, se forem pretos ressuscitarão brancos; se forem velhos ressuscitarão moços, e todos serão poderosos e imortais.
Imediatamente a multidão caminhou para o local onde se erguiam os dois rochedos, resolvida a provar sua lealdade ao “rei D. Sebastião”. As cenas que se registraram foram mais cruéis do que o suicídio coletivo dos adeptos da seita de Jim Jones.
Homens e mulheres agarram seus filhos que estavam com eles. Outros foram buscá-los em casa, para que seus pescoços fossem cortados com facões afiados, ou suas cabeças esmagadas ao se chocarem com os rochedos, lavando assim as “torres da catedral” com sangue. No auge do ritual assassino, um fanático agarrou seus dois netos, subiu com eles ao cume de um dos rochedos e pulou de lá, despedaçando-se em baixo sobre o chão de pedras, ele e as duas crianças. Quando a polícia foi chamada e conseguiu parar o delírio dos fanáticos suicidas e assassinos, os dois rochedos estavam lavados pelo sangue de 30 crianças, 12 homens, 11 mulheres e 14 cães.

O FANATISMO RELIGIOSO É INSPIRADO POR SATANÁS
Estamos convictos de que há uma participação direta de Satanás em todas as manifestações de fanatismo, pois as eclosões fanáticas sempre são acompanhadas de alienação, práticas imorais, assassinatos e suicídios – atitudes diametralmente opostas à lição de vida e à mensagem de salvação e paz que os verdadeiros seguidores de Jesus Cristo pregam ao mundo.
Em contrapartida, seitas como a do Reverendo Moon, os decadentes “Meninos de Deus”, e outros propagadores do fanatismo religioso, têm dado ao mundo exemplos de chantagens, imoralidade e práticas que levam seus adeptos à alienação e loucura. Porém, a estarrecedora decisão de matar entes queridos e oferecer-se para morrer, atendendo o apelo de um fanático em delírio de paixão assassina, tem levado quase todos os estudiosos do comportamento humano a admitirem que há a influência de uma força sobrenatural nessa decisão.
Eric Hoffer, estudando o fanatismo, diz que “morrer e matar parecem fáceis quando são parte de um ritual, cerimonial ou desempenho dramático. Portanto, é necessário uma espécie de ilusionismo, de força sobrenatural para que o indivíduo enfrente a morte com destemor. Por esse motivo, uma das primeiras providências daquele que conduz uma multidão de fanáticos é mascarar a amarga realidade de morrer ou matar, provocando em seus seguidores a ilusão de que estão participando de um espetáculo glorioso, solene, sobrenatural”.

A “VOCAÇÃO” BRASILEIRA PARA O FANATISMO
Já está mais do que provado que o brasileiro é potencialmente um indivíduo religioso. Billy Graham, o maior pregador do século 20, afirmou certa vez que “o Brasil é uma das maiores potências religiosas mundiais”. Porém, e infelizmente, essa tendência à religiosidade tanto tem sido um fator positivo como um fator negativo. Pois é no Brasil que se encontra o maior movimento pentecostal do mundo, liderado pelas Assembléias de Deus; mas é também no Brasil que as forças malignas que se manifestam em outros cultos atuam com um potencial maior do que em qualquer outro país.
As três raças que participaram da nossa formação – a branca, a negra e a indígena – trouxeram diversos elementos de crendices e superstição, para com eles formarem essa “tendência religiosa do brasileiro”. Quando os portugueses chegaram aqui para povoar o Brasil, estavam vivendo uma fase aguda de fanatismo em Portugal. Viam línguas de fogo misteriosas, combates entre cavaleiros no céu, e caixões de defuntos no pátio das igrejas. A Igreja Romana havia incutido no coração ingênuo do povo português (e ainda hoje milhões de adeptos do catolicismo seguem um conjunto de crenças muito parecidas às seguidas pelos portugueses daquela época) a crença no poder das lascas de madeira arrancadas da cruz de Cristo, dos retalhos do manto de Jesus, das cabeças de João Batista, veneradas em várias igrejas e conventos (o historiador Ludovico Lalane chegou à conclusão de existem nada menos do que 10 cabeças de João Batista espalhadas em igrejas e outras instituições católicas do mundo), das mechas de cabelo da Virgem, e até de um dedo do Espírito Santo!
O negro, por sua vez, trouxe da África seus rituais, mandingas e feitiçarias, estabelecendo no Brasil um culto aberto ao demônio. Porém, o branco e o negro já encontraram aqui o índio cheio de temor diante dos fenômenos da natureza, vendo almas em tudo, até nas folhas das árvores e nas formigas. O catolicismo português, o fetichismo africano e o animismo do índio fundiram-se na alma do povo brasileiro, criando dentro dele uma religiosidade que, na maioria das vezes, descamba para o fanatismo.

QUEBRANDO AS CORRENTES DO FANATISMO
Neste país que se diz religioso, mas que ainda tem uma grande parcela de sua população que desconhece a Verdade, que é Jesus Cristo (“E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”; “Se pois o Filho de Deus vos libertar, verdadeiramente sereis livres”, João 8.32,36), é necessário que nós, evangélicos, anunciemos a Palavra de Deus de maneira clara, honesta e corajosamente, não omitindo nem um til ou um jota do que nela está escrito, nem usando de subterfúgios para ocultar a verdade do conhecimento de muitos, conforme fez a Igreja Romana ao longo dos séculos, que no início da colonização brasileira lia durante as missas a Palavra de Deus em um idioma desconhecido do povo, o latim.
Neste país, cujo Congresso Nacional aprovou o projeto número 220 A/1979, da Câmara Federal, reconhecendo a imagem de uma santa encontrada por pescadores no fundo de um rio (“Nossa Senhora Aparecida”) como a Padroeira do Brasil, e diante da qual milhões de brasileiros se curvam, rezam e fazem suas promessas, é necessário que nós, os evangélicos, leiamos em todos os lugares públicos e privados deste país, o mandamento de Deus que se encontra em Sua Palavra, no livro de Êxodo, capítulo 20, versículos 3, 4 e 5: “Não terás outros deuses [ou deusas] diante de mim. Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima nos céus, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não as adorarás nem lhes darás culto, porque eu sou o Senhor teu Deus...”
(Em Santa Brígida, município baiano junto à divisa com Alagoas, milhares de fanáticos veneraram, nas décadas de 70 e 80, e muitos veneram ainda hoje, o retrato de Pedro Batista da Silva, um andarilho “iluminado” que chegou ao município em 1945, rodeado de fiéis esfarrapados e famintos, e ali morreu em 1967. Os adoradores do “Padrinho Batista” passaram a rezar e a fazer promessas diante de sua cadeira, que consideravam milagrosa).
Neste país, onde ao som de atabaques, e utilizando-se de sangue de bodes e de galinhas, acendendo-se velas pretas e utilizando-se de outros símbolos esotéricos, milhares de brasileiros rendem culto ao demônio, chegando ao extremo de espetar o corpo desses inocentes com agulhas, ou sacrificar essas crianças em rituais macabros e malignos, é necessário que nós, os evangélicos, anunciemos a todos o que está escrito na Palavra de Deus, em Apocalipse 21.8: “Mas quanto aos tímidos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos fornicários, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago que arde com fogo e enxofre; o que é a segunda morte.”
O fanatismo religioso sempre encontrará solo fértil entre aqueles que desconhecem a Palavra de Deus. Todas as vezes que o homem substituir o conhecimento da Bíblia pelo seu próprio conhecimento; todas as vezes que ele procurar ofuscar a pessoa de Jesus, e tentar promover sua própria pessoa; quando ele não mais pregar acerca do amor e da salvação que há em Cristo Jesus, e não gozar dessa salvação nem praticar esse amor; quando ele não mais respeitar a paz e a liberdade humanas, o fanatismo dominará suas idéias e convicções, e se alastrará por entre o povo incauto e ingênuo.
Portanto, é necessário que nós, os evangélicos, tenhamos sempre pronta uma resposta para a pergunta que Pedro fez a Jesus Cristo, pois essa mesma pergunta está sendo feita hoje por todos aqueles que andam sedentos da verdade: “Senhor, para quem iremos?” Para Antônio Conselheiro, ou “Padim Ciço”, ou Hitler, ou Jim Jones, ou Aiatolá Khomeine, ou José Wellington, ou Bento XVI, ou Padrinho Batista? A resposta foi dada pelo próprio Pedro, ao reconhecer Jesus como Salvador e Senhor, o único detentor da Verdade: “Tu tens as palavras de vida eterna; e nós temos crido e conhecido que és o Santo de Deus”, João 6.68,69.
Somos contrários ao fanatismo religioso, e reafirmamos aqui a nossa fé em Jesus Cristo, que está no Céu e reina em nossa vida. O verdadeiro Jesus, o nosso Jesus, não foi transformado em imagens nem está sendo venerado sobre altares. Nós não o conduzimos em crucifixos pendurados no pescoço, nem penduramos quadro com sua imagem na parede. Nosso Jesus habita dentro de nós. Ele mora em nosso coração.
Jefferson Magno Costa

quinta-feira, 27 de maio de 2010

MARIA SLESSOR, A PACIFICADORA DAS TRIBOS AFRICANAS

Jefferson Magno Costa
     É madrugada. A alguns quilômetros da orla marítima, uma mulher e seis crianças negras caminham para a margem de um rio. Chove. Homens e mulheres africanos perguntam:
     - Por que nos abandonas, mãe?
     Maria Slessor pára junto à canoa, volta-se, contempla aqueles semblantes escuros e fala docemente:
     - Não fiquem tristes. Sei que vou para o meio de um povo feroz, mas eles também precisam ouvir falar de Jesus. Alegrem-se. Eu voltarei. Mas se não voltar, nós nos encontraremos nas margens do Grande Rio, diante do Grande Pai. E ali seremos todos de uma só cor, alvos como o marfim.
     Em companhia das seis crianças, Maria entra na canoa, e parte, sob o olhar silencioso da tribo de Creek Town.
     Maria Slessor nasceu na Escócia, em 1848. Era loura, de cabelos lisos e olhos azuis. Aos onze anos de idade foi obrigada a trabalhar na tecelagem para ajudar financeiramente sua mãe, pois seu pai, alcoólatra inveterado, após a morte de Roberto, o filho mais velho, abandonou a senhora Slessor e os quatro filhos restantes.
      Aos 14 anos Maria já era considerada uma hábil tecelã. Não sabia ela que futuramente Cristo a incumbiria de tecer as vestes brancas da salvação no coração dos negros africanos.
     Sua mãe era evangélica, membro da igreja de Aberdenn, e costumava contar aos filhos alguns incidentes da Missão Africana, viasando despertar-lhes o interesse pela obra missionária.
     Atentos, eles ouviam a senhora Slessor falar-lhes de um rei africano e dos seus chefes de cor; das terras e das boas-vindas que costumavam oferecer aos missionários enviados; dos pretos de Calabar; de como Hope Waddell fora morar corajosamente no meio dos pântanos, e ali brilhar como uma luz, pregando aos selvagens o Evangelho de Cristo, e o quanto a Missão necessitava de obreiros e de manutenção.
     Às cinco da manhã, Maria se levantava e ia para a fábrica, onde permanecia até às dezoito horas. Levava sempre a Bíblia consigo, lendo-a no caminho, quando ia e quando voltava, e durante os intervalos do seu trabalho.
     Nessa época tornara-se membro da igreja de Wishart. Ali, pouco tempo depois, começou a dirigir uma classe bíblica para meninos rebeldes. Para atrair aqueles que se recusavam terminantemente a frequentar a classe, ela promovia reuniões ao ar livre.
     Certa vez um grupo de rapazes perversos resolveu acabar com uma dessas reuniões. O líder do grupo aproximou-se de Maria, sob o olhar dos demais, inclusive das crianças, e começou a girar uma corrente em cuja ponta estava presa uma bola de ferro. E a girava velozmente, avizinhando-a da cabeça de Maria, mas esta, encarando-o firmemente, não denunciava nenhum sinal de medo. 
     "Ela tem coragem" disse o rapaz, desistindo e abaixando o braço com que segurava a corrente. Em seguida sentaram-se todos, e juntamente com as crianças assistiram à reunião.
     Esse incidente contribuiu para mudar a vida daqueles moços, salientando também a coragem daquela que, não temendo lidar com garotos rebeldes nem enfrentar rapazes insubordinados, desafiaria, em plena selva, a agressividade e as lanças dos negros africanos.
     A missão de Calabar, na África Ocidental, tinha sido fundada no ano de 1846. Kurumã estava sendo evangelizado por Robertt Moffat, enquanto David Livingstone, "o fogo das mil aldeias", abria caminho através de todo o restante do Continente.
     O sonho da senhora Slessor era que Roberto, seu filho mais velho, fosse à África auxiliar o trabalho desses missionários. Mas a morte prematura do rapaz fê-la pensar que nunca teria um filho missionário.
     Quando, em 1874, Maria Slessor completou 26 anos, foi pedida em casamento. Mas neste mesmo ano o Império Britânico foi abalado com a notícia da morte de David Livingstone. Fizeram então apelo a voluntários para o continente africano, e Maria, decidindo entre a obra missionária e o casamento, optou pelo primeiro e ofereceu-se como missionária para Calabar.
     Nessa época, ela era aluna da Escola Normal de Edimburgo, e a coragem em seguir para um lugar conhecido como "sepultura dos brancos" deixou forte impressão em todos.
     Em agosto de 1876, no cais de Liverpool, Maria embarcava em um navio que a levaria a um continente que em nada se assemelhava à sua bela Escócia. Tornava-se então realidade o sonho da senhora Slessor.
     Pelas areias brancas de Cabo Verde, pelo Desembocadouro dos Escravos, pela Costa do Marfim e pela Costa do Ouro, a bordo do navio "Etiópia", dois olhos azuis deslizavam sua curiosidade pela misteriosa paisagem que delineia a navegação costeira.
     Maria Slessor, recebendo brandamente no rosto a aragem fresca das praias africanas, contemplava interessadamente aquelas florestas que se erguiam, hostis e impenetráveis, margeando toda a costa.
     Chegando a Calabar, desembarcou e foi conduzida a Duke Town, uma vila litorânea onde residiam alguns missionários. Ali ela viveu durante quatro anos, ajudando nos cultos e estudando a língua local e alguns dialetos nativos.
     Era madrugada ainda quando Maria se levantava para tocar o sino, convocando os crentes à oração. O seu espírito, entretanto, ansiava por um trabalho de maior alcance, a liberdade pioneira, o desbrava-mento daquele solo enegrecido pelo pecado.
     Muitas vezes ela caminhava para a mata fechada e contemplava demoradamente as árvores que se erguiam ao longe, indecifráveis, sumindo no horizonte além. Era ali que se travavam, entre tribos que praticavam a feitiçaria e o canibalismo, os choques mais horrendos e cruéis já contemplados pela natureza humana.
     E era ali que ela deveria estar, entre eles, modificando-lhes as práticas da ignorância e falando-lhes do amor de Jesus.
     Foi de um vilarejo chamado Cidade Velha que lhe veio o primeiro convite para ir evangelizar e morar entre os negros. Ela aceitou, agradecendo a Deus. Agora poderia expandir plenamente a sua vocação missionária.
     Seguiu para lá acompanhada de um guia e alguns carregadores. Quando a vereda por onde caminhavam se dividiu em duas, eles se depararam com um crânio humano enfiado em uma estaca. Ali estava designada a entrada da Cidade Velha.
     Durante mais de dois anos, Maria Slessor viveu naquele povoado como a única mulher branca entre negros, alegre por estar no meio deles, comendo na mesma mesa e falando-lhes da obra salvadora de Jesus.
     As paredes de sua casa eram de taipa e o teto de palha, e havia sempre várias crianças dormindo ali - órfãos e desprezados que Maria abrigava. Pensando nestas e nas outras crianças, fundou uma escola onde lhes ensinava não só o idioma deles, mas também a darem os primeiros passos nos caminhos eternos.
     Aos domingos pela manhã, dois meninos carregando um sino em um pau de bambu, percorriam toda a vila até o local da reunião, trazendo atrás de si um número sempre crescente de negros curiosos que se achegavam para ouvir a "Mãe Branca".
     E quando a noite se declinava sobre o povoado, recebia sempre em sua fronte escura a claridade do cântico daqueles nativos que cultuavam a Deus à luz das tochas vermelhas.
     Certa vez uma canoa pintada de vivas cores e conduzida por quatro negros de pele oleosa e rostos pintados de vermelho aproximou-se das margens do rio que banhava o vilarejo.
     Era a canoa do rei Ocon, chefe da tribo Ibaca, que a enviara juntamente com o convite para que Maria fosse morar em sua tribo. Ela aceitou. Esta seria uma grande oportunidade de evangelizar um povo que desconhecia Cristo.
     Logo, toda a Cidade Velha ficou alvoroçada e entristecida. Mas às três horas da madrugada, despedindo-se de todos, Maria era conduzida rio acima, sob a cobertura de uma esteira improvisada para protegê-la da chuva e da água levantada pelos remos.
     Por um longo espaço de tempo aqueles homens remaram, e quando a madrugada enrubescia as primeiras horas do dia, sob o latido de cães e o cantar dos galos, chegaram a Ibaca.
     Deram-lhe uma casa semelhante à outra onde morava anteriormente. Multidões vieram das vilas vizinhas para ver sua pele branca. Pela manhã e à noite realizava cultos; durante o dia dava remédios aos doentes, fazia curativos em suas feridas ou lhes aconselhava o que deviam fazer.
     Homens, ao natural ferozes e barulhentos, ficavam em completo silêncio ao verem Maria aproximar-se para lhes contar histórias. Ali, ela falou o Evangelho de Cristo a todos os que se achegaram para vê-la.
     Pelos fins de 1882, um tufão passou com extrema rapidez sobre a vila e derrubou a casa de Maria. Ela foi levada a Duke Town, mas o seu estado de saúde se agravou, fazendo-se necessária a sua volta à Escócia.
     Depois de três anos, recuperada e novamente pronta para enfrentar as dificuldades, voltou à África, desta vez dirigindo-se para a tribo de Creek Town.
     Viveu durante seis meses nesse povoado, até quando soube que o rei Eio, chefe da tribo Coiong, praticante da magia negra, a convidara para evangelizar sua tribo.
     Todos se opuseram à sua ida, alegando que aquela tribo não merecia confiança e que o convite era uma cilada. Mas ela não se impressionou, e, acompanhada de seis crianças e alguns carregadores, embarcou na canoa enviada pelo rei.
     Quando alcançaram a desembocadura de Equenque, a canoa foi abandonada, e, sob uma pesada chuva e o choro das crianças, iniciaram a jornada a pé, através de mais de uma légua de mata fechada.
     Sentindo no corpo as roupas encharcarem-se e os pés atolarem-se na lama, Maria avançava cantando trechos de hinos, a fim de encorajar as crianças. Mas em certos momentos era tão grande o seu cansaço que ela só conseguia pronunciar: "Pai, tem misericórda de mim!"
    Chegaram finalmente à tribo. Reinava ali um silêncio profundo. Maria gritou e dois escravos apareceram. Um deles acendeu o fogo e trouxe-lhe água, enquanto o outro correu com a notícia de que a "Mãe Branca" era chegada.
    É noite. Em uma área larga, no centro da tribo, há uma multidão de negros sentados, formando um grande círculo. As casas, distribuídas de modo a formar uma larga circunferência, erguem-se em volta dos ombros escuros. No centro da reunião há uma mesa coberta com uma toalha branca, e, em cima desta, acha-se aberta uma Bíblia.
     Quatro tochas presas a estacas se erguem de um lado e do outro da mesa. As chamas brilham nos rostos atentos. Junto à mesa há vários chefes sentados. E de pé, com os cabelos adquirindo tonalidade de ouro sob a vermelhidão das tochas, Maria Slessor prega ao maior ajuntamento de tribos negras já conseguido de uma só vez.
     O olhar azul contempla a multidão silenciosa e atenta. "Para alumiar os que estão no assento das trevas e na sombra da morte, para corrigir os nossos pés no caminho da paz" (Lucas 1.79), é o trecho lido naquela noite pelos lábios que ainda se abririam inúmeras vezes para pregar a Palavra da Vida.
     Maria Slessor viveu ainda muitos anos entre as tribos africanas. Através de sua voz, milhares de negros tomaram conhecimento de Jesus Cristo e milhares o aceitaram como o Salvador. Ela foi, depois de David Livingstone, a missionária que mais conduziu negros aos alvos caminhos da salvação.
     Em janeiro de 1915, cansada e ainda em plena África, ela foi ao encontro dAquele que, na grandiosidade do seu sacrifício, foi erguido no madeiro para constituir-se na esperança de todos os povos.
Jefferson Magno Costa
NELS JULIUS NELSON, O GIGANTE DA FÉ QUE EVANGELIZOU O NORTE E O NORDESTE DO BRASIL



Em dezembro do ano de 1912, vindo da Suécia, um jovem de cabelos lisos e escuros, ombros largos e andar firme, chegava à cidade norte-americana de Mineápolis, Estado de Minesota. Naquele seu modo decidido e seguro de andar, quem o observasse talvez o confudisse com um dos inúmeros adolescentes que transitavam pelas ruas, sedentos de aventura e de progresso. Mas aquele rapaz era diferente. Aos dezoito anos de idade, um metro e oitenta e seis de altura, Nels Julius Nelson viajara da terra natal - a Suécia - para os Estados Unidos, pelo simples fato de crer que Deus o chamava para realizar um grande trabalho - obra que envolveria toda a sua vida.
E foi isso que ficou patente após ser abraçado naquela manhã pelo seu tio - um homem bem estabelecido em Mineápolis, que, juntamente com sua família, servia ao Senhor.
Dois anos após sua chegada, Nelson tornou-se membro da Igreja Luterana, apesar de seu tio e seus primos insistirem em que aceitasse a fé pentecostal. Certa noite, porém, ao voltar a casa, seu tio o cumprimentou, como fazia de costume. Sem dar resposta à saudação, o moço recolheu-se aos seus aposentos, profundamente triste, sem ele mesmo saber o porquê daquela tristeza. Quando se preparava para dormir, sentiu-se subitamente invadido por uma grande inquietação, a maior que já experimentara até ali, semelhante àquele estado descrito pelo autor da carta aos Hebreus (10.27): "... uma certa expectação horrível de juízo e ardor de fogo, que há de devorar os adversários". Uma profunda convicção de seu estado de pecabilidade apossou-se de sua alma. Sim, era um pecador. De nada lhe adiantava pertencer a uma igreja, pois até aquele momento o seu coração ainda não havia sido habitado por Jesus Cristo.
Naquele mesmo instante, o Espírito Santo o encheu de convicção de que precisava ser salvo, e fê-lo levantar-se, sair rapidamente do seu quarto e acordar o tio, pedindo-lhe que orasse por ele. Após ser lida a Palavra de Deus, Nels Nelson recebeu Cristo como seu Salvador. A 15 de abril de 1915, já frequentando uma igreja pentecostal, foi batizado em águas e, em 19 de novembro de 1916, o Espírito do Altíssimo desceu sobre ele, como uma luz quente, límpida e serena, fazendo-o falar as línguas do Céu. Um transbordamento de júbilo e êxtase cobriu-lhe a face. Naquele momento recebia a virtude do Espírito Santo, e seria testemunha de Jesus Cristo, tanto na Suécia, como nos países circunvizinhos; entre seus familiares, e até nos confins da terra.
Não demorou muito a ser chamado para o trabalho missionário. Orando certa vez na casa do seu tio, o Senhor o chamou para evangelizar um país distante, mas não houve menção do nome do país. No entanto, uma circunstância curiosa veio esclarecer tudo: o tio e o primo do irmão Nelson, que também ali estavam presentes, tempos antes haviam sido chamados para o trabalho missionário no Brasil. Mas temendo deixar um país tão fértil como os Estados Unidos, e sobretudo por terem muitos bens, pai e filho não deram ouvidos à chamada do Senhor. Insistiria o Senhor, agora, na chamada missionária para esse país? Sim, Ele agora chamava para essa missão o irmão Nelson. Estava confirmado, e os que não obedeceram à visão celestial, perderam a sua oportunidade.
O irmão Nelson continuou trabalhando normalmente, mas tratando sempre dos preparativos para a viagem. Seus companheiros de trabalho, diante de sua resolução de abandonar um emprego onde estava bem colocado, e que lhe dava condições de tornar-se rico, perguntavam-lhe por que ele não desistia daquela viagem a um país inóspito e distante. Ali mesmo, nos Estados Unidos, poderia ele servir ao seu Deus. Mas Nelson respondia: 
- Eu recebi tanto, tanto, de Jesus Cristo, que tenho de obedecer-lhe e dar do que recebi àquele povo do distante Brasil!
Naqueles dias, vindo da Suécia, chegava a Mineápolis, para participar de uma convenção, o missionário Gustavo Nordlund. Ele nunca vira o irmão Nelson antes. Quando os dois se encontraram, o irmão Gustavo disse-lhe: "Irmão Nelson, Deus me revelou o teu nome e que vais para o Brasil". Não pensavam nessa ocasião que, futuramente, trabalhariam juntos, no mesmo país. A primeira grande prova de fé que o missionário Nelson enfrentou foi saber que sua igreja não o poderia manter no campo para onde ia. Não desanimou: começou imediatamente a orar e o Senhor logo tocou o coração de vários irmãos, fazendo-os prometer que o manteriam durante todo o tempo em que ele estivesse no Brasil.
Em 21 de março de 1921, desembarcando em Belém do Pará, Nels Julius Nelson chegava ao Brasil. Antes estivera na Suécia e falara aos seus pais do amor de Jesus. Com vinte e seis anos de idade, possuindo uma fé sempre crescente em Deus, o irmão Nelson iniciou um trabalho de evangelização no Brasil que seria considerado mais tarde como o alicerçamento das Assembléias de Deus no Norte e no Nordeste do País. Pregando, visitando, indicando pastores para assumir trabalhos em campos de norte a sul, ou ele mesmo assumindo algumas vezes a direção; viajando em embarcações fluviais, as "chatas", sobre o rio Amazonas; indo ao Maranhão, ao Piauí, ao Ceará, a Mato Grosso, aos territórios, ao arquipélago de Marajó, ele foi durante mais de quarenta anos, um dos maiores líderes espirituais que já atuaram no Brasil.
Com sua grande estatura, braços longos e fortes, e mãos do tamanho da sua bondade, era um verdadeiro gigante. Mas era um gigante humilde. Na sua grande simplicidade, jamais procurava sobrepor-se aos obreiros nacionais. A impressão que os pastores e evangelistas tinham quando recebiam aviso de que ele os visitaria, era de que uma grande autoridade celeste estava para chegar, para passar em revista as tropas do Senhor dos Exércitos. Resumamos o panorama dos seus quarenta e dois anos de atividade no Brasil:
Em 1921 iniciou o seu trabalho como auxiliar do missionário Samuel Nyströn, na direção da AD em Belém do Pará. Cinco anos depois, mudando-se o irmão Samuel para o Rio de Janeiro, o irmão Nelson tornou-se pastor Presidente da igreja em Belém; e ali continuou, durante vinte anos. Nesse espaço de tempo, fundou o jornal evangélico "Boa Semente" (depois transferido para o Rio, onde tomou o nome de "Mensageiro da Paz"); deu início às chamadas Escolas Bíblicas de curta duração, que grandes benefícios trouxeram a muitos obreiros em todo o Brasil; criou classes de estudos bíblicos nas igrejas, para treinamento da mocidade, e fez inúmeras viagens a diversos pontos do País.
Essas viagens lhe custaram muito. Foi durante uma delas que contraiu malária. Sofreu desse mal durante dezoito anos. Teve muitas crises no decurso de suas viagens no barco "Boas-Novas". Mas nem a doença, nem os percursos longos, nem as regiões de difícil acesso, nem as privações a que seria obrigado a passar, fizeram-no desistir daquele trabalho. Havia muita pobreza nas ilhas, tanto material como espiritual. Por isso, o irmão Nelson levava sempre a sua canoa repleta de boas-novas de salvação: folhetos, porções da Palavra de Deus e o poder do Espírito Santo, bem como peças de fazenda, roupa, sapatos, etc. Sempre um grande número de homens, mulheres, crianças e velhos o esperava nas margens dos rios para receberem algo de que necessitavam.
Quando já pastoreava, por dez anos, a igreja em Belém, o Senhor concedeu ao irmão Nelson uma companheira, a irmã Lídia Rodrigues, com quem se casou. Contava ele então quarenta anos de idade. Desta união nasceram Ester, Ruth e Samuel. No mesmo ano do seu casamento, o missionário Gustavo Nordlund, pastor da AD em Porto Alegre (RS), precisando ir à Suécia, convidou-o para substituí-lo enquanto estivesse fora. Ele aceitou o convi¬te, e durante um ano pastoreou a AD em Porto Alegre; em seguida voltou para Belém, a fim de continuar ali o seu ministério vasto e fecundo.
Naquela época a Casa Pubicadora das Assembleias de Deus não possuía os meios de difusão das Escrituras de que dispões hoje. Seu alcance era muito pequeno, quase que restrito ao Estado do Rio de Janeiro. Em Belém não havia livrarias evangélicas, nem mesmo um depósito de Bíblias. Por este motivo, o irmão Nelson, quando ia ao Rio de Janeiro ou a São Paulo, visitava as livrarias evangélicas à procura de obras recomendáveis, a fim de ter sempre em boas condições o estoque que ele mantinha na igreja, única fonte ali de livros evangélicos selecionados, e que atendia às necessidades dos obreiros. Costumava aconselhar seus auxiliares a ler sempre bons livros, a fim de progredirem em conhecimento, pois as igrejas localizadas nas grandes cidades cada dia iriam exigir deles muito mais do que poderiam dar. Para que não se sentissem deslocados em tais igrejas, ele aconselhava que procurassem crescer, tanto espiritual como culturalmente, pois não tardaria o tempo quando todos os obreiros incultos poderiam ser relegados a um plano secundário.
Em 1946 o irmão Nelson foi eleito Presidente do Conselho Administrativo da Casa Publicadora, e se tornou um incansável propagador dos ideais da Casa. Ele promoveu, em grande parte, a manutenção e o progresso dessa Editora. Com esse propósito, visitou não só quase todo o Brasil, mas também os EUA, a Finlândia, a Noruega e a Suécia, pleiteando ajuda de toda sorte em favor da Casa Publicadora. Dele foi que partiu a iniciativa da construção de um novo prédio e da compra de novas máquinas.
Em 1950 mudou-se para o Rio de Janeiro e pastoreou a AD em São Cristóvão até o ano de 1957. A partir desta data, passou a atender o trabalho em todo o Brasil, deslocando-se para as igrejas nas quais sua presença se fazia necessária. Mas nesse mesmo ano, o processo da doença que o levaria para a Glória começou a se desenvolver, obrigando-o a ficar em casa. Quando obreiros o visitavam, falava do amor que tinha ao trabalho no Norte do Brasil. Certa vez, confessou entre lágrimas: "Se eu viesse a saber da aproximação de minha morte, embarcaria e iria findar minha carreira lá na Amazônia, onde a comecei."
Em junho de 1962, iniciou-se o que podemos chamar de os seus últimos contatos com o trabalho que tanto amava. Esse foi o ano da Convenção Paraense, e aqueles que acompanharam o irmão Nelson admira-ram-se de sua atividade ininterrupta, pregando, dirigindo estudos bíblicos, visitando o interior do Estado, tudo com tal dinamismo que levou todos a pensarem que aquilo era uma verdadeira despedida. De Belém dirigiu-se ao Paraná, seguindo o itinerário que ditava o seu coração.
Era seu propósito percorrer todos os Estados onde havia trabalhado para fazer continuamente arder e brilhar a lâmpada da salvação nos caminhos noturnos e tenebrosos do pecado. Do Paraná, dirigiu-se a Manaus, de Manaus a Belém, de onde, com o estado de saúde cada vez mais abalado, quase viu-se impossibilitado de viajar ao Recife. Mesmo assim, chegou a essa cidade, e participou da Convenção Geral que ali se realizou no mês de novembro. Ao término da Convenção, rumou para o Rio de Janeiro.
O homem que Deus usara com tanto poder na evangelização do Norte e do Nordeste do Brasil, o homem cujo coração Deus enchera de paciência e de amor para com aquelas almas que habitavam regiões de dificílimo acesso, estava agora à morte. Já no fim, tinha saudade daquela gente pobre e faminta a quem falara do grande amor de Jesus, e que nunca poderia imaginar que Deus traria um homem da Suécia e o conduziria àqueles distantes lugares, cheio de bondade e de amor, para lhes falar da salvação oferecida por Jesus Cristo.
Os que estiveram com o irmão Nelson nos seus últimos instantes, puderam ver que em seus olhos ardia, em sereno e profundo brilho, a luz tranquila de um amor provado, seguro, que dera o quanto havia de dar, o quanto tivera para dar, o quanto Cristo lhe dera e lhe mandara que desse.
Eram quinze horas e quinze minutos do dia cinco de março de 1963, quando na CPAD todas as atividades foram paralisadas, e os telefones começaram a anunciar nas mais diversas partes do País, a notícia da partida para o LAR, do Apóstolo da Amazônia. Na madrugada daquele dia, a irmã Lídia Nelson ouvira, no Hospital Evangélico, na Tijuca, onde se encontrava fazendo companhia ao seu marido, ao som de violino a invadir o silêncio dos corredores escuros, tocando brandamente o hino "Oh! que doce lar!" Curiosa, não sabendo de onde vinha aquela melodia tão suave, aproximou-se do leito onde se encontrava o irmão Nelson. Ele dormia tranquilamente. A madrugada estava mergulhada em profunda paz. Havia anjos por ali!
O pastor Alcebíades de Vasconcelos, que esteve ao lado do pastor Nelson nos seus últimos momentos, escreveu: "Vi morrer um grande! vi morrer um forte! vi morrer um justo! E, ao vê-lo, um único pensamento subiu ao meu coração: o de agradecer a Deus por aquela vida que Ele graciosamente dera ao Brasil, como testemunho do seu amor para com os filhos deste grande País".
"Foi um sol que nasceu brilhando com muita intensidade e que desapareceu no ocaso", escreveu o irmão Emílio Conde, ao noticiar na revista "A Seara", o falecimento do missionário Nels Nelson. O corpo foi velado durante toda a noite no templo da AD em São Cristóvão e, pela manhã, acompanhado por uma grande multidão, foi conduzido ao Cemitério do Caju. Sobre a pedra do seu túmulo foi colocada uma pombinha de mármore de Carrara. Sua cabecinha triste e desolada, suavemente repousada sob as asas, parece demonstrar a atitude de quem está só, e espera...
Aquele corpo que ali está estendido na inevitável horizontabilidade da morte, parece um dos trinta valentes de Davi que resolveu descansar. O vento que suavemente sopra por cima daquela lápide, soprará sobre as asas de mármore daquela pombinha - símbolo de espera e de esperança -anunciando continuamente:
Breve virá! breve virá!
Breve Jesus voltará!
Integrado na perpétua serenidade de Deus, alto e belo como as estrelas, descansa Nels Julius Nelson, nosso irmão Nelson.
Jefferson Magno Costa

EMÍLIO CONDE, O APÓSTOLO DA IMPRENSA PENTECOSTAL NO BRASIL

Jefferson Magno Costa

    Naquele edifício residencial no bairro de Santa Tereza, aquela janela acesa em um dos seus apartamentos; aquela lâmpada amarela que avança nítida no tempo, através das horas frias e silenciosas da noite, não representa a vigília angustiada de algum enfermo, nem a insônia de um coração intranquilo, ou o próprio guardião da madrugada a velar o sono das criaturas. Não.
     É apenas um homem que escreve, um trabalhador solitário que, sob o olhar terno e sereno de Cristo, prepara artigos para ser divulgados no meio evangélico. No final de cada um deles o leitor lerá as iniciais E.C. - Emílio Conde.
    Enquanto esse homem solitário escreve, sua fronte se ilumina em enlevos de visitação ao Céu; sua mente percorre "as ruas de ouro e cristal da formosa Jerusalém", e, sobre o papel, seu punho se agita, e a página branca, ao toque da tinta negra, torna-se mais branca ainda, alva como a neve, porque nela estão sendo escritas palavras pronunciadas na Cruz.
    Emílio Conde nasceu no dia 8 de outubro de 1901, em São Paulo. Seus pais, João Batista Conde e Maria Rosa eram de origem italiana.
    Consequentemente, o primeiro contato de Emílio com o Evangelho foi na Congregação Cristã do Brasil, fundada por italianos. Ali, o futuro escritor evangélico creu em Jesus Cristo e se tornou membro da igreja no dia 21 de abril de 1919, sendo em seguida batizado com o Espírito Santo.
     Transferindo-se para o Rio de Janeiro, passou a frequentar a Assembleia de Deus na Rua Figueira de Melo, 232, em São Cristóvão, pastoreada na época pelo missionário Samuel Nyströn.
     Entusiasmado com o calor espiritual dos que ali se reuniam para cultuar a Deus, Emílio Conde transferiu-se de sua denominação e tornou-se membro dessa igreja.
    Os anos que se sucederam foram empregados na busca incansável dos meios, os melhores que fossem, de agradar a Cristo. Era necessário servi-lo com toda integridade de coração e amplitude de espírito. E Emílio Conde passou a empregar as suas horas vagas no estudo e meditação dos conhecimentos bíblicos e humanos.
     Eram necessárias bases sólidas para a construção do edifício espiritual que iria surgir de suas mãos.
    Principiou pelo conhecimento de sua língua, e depois de dominá-la satisfatoriamente, passou ao aprendizado de outras.
      Aprendeu o italiano, o inglês e o francês, sendo-lhe assim fácil o acesso à literatura desses idiomas, tão ricos em livros de inspiração evangélica. Leu boas obras ainda não traduzidas para o português.
     Foi um perfeito autodidata. Sua curiosidade abrangia vários ramos da cultura humana. Cabe porém salientar que estas leituras não o desviaram da Bíblia, pois era do seu conhecimento que "por abundantes que sejam os regatos, mais agradável é beber na fonte".
     Deste modo, dia a dia ele perseverava na oração e na leitura da Palavra de Deus, fazendo grandes progressos nos caminhos do Espírito. Era costume seu isolar-se para meditar e sentir "a largura, o comprimento, a altura, e a profundidade do amor de Cristo que excede todo o entendimento" (Efésios 3.18,19).
    Aonde chegava, dava seu testemunho de crente. E assim, pela intensidade de vezes que subiu ao púlpito, sua palavra foi pouco a pouco se delineando, tomando feições amplas, tanto pela soma de conhecimentos que apresentava, como pelo evidente toque do Espírito.
     "Era agradável ouvi-lo" - disse um antigo pastor acerca do seu testemunho - "pois ele somava à unção espiritual e ao profundo conhecimento bíblico, uma vasta cultura secular".
    Em 1937, o missionário Nils Kastberg encontrou-o trabalhando como intérprete em um restaurante do Rio de Janeiro. A Casa Publicadora começava a surgir nesse ano.  "Irmão Conde, necessitamos de alguém para atender ao expediente da redação de nosso periódico, o 'Mensageiro da Paz'. Sabemos que o irmão reúne em si todas as qualificações necessárias para tal cargo. O irmão aceita ser nosso redator?"
     Surpreso, antevendo a intervenção divina que se sobressaía naquele convite tão simples, e sentindo-se tocado em um dos pontos fundamentais de sua vida, a sua vocação, ceitou. Era o amanhecer do ministério do apóstolo da imprensa evangélica pentecostal no Brasil.
    Emílio Conde tratou de reunir então todo o material que havia acumulado durante anos e anos de estudos e pesquisas. Seus livros, seus cadernos de notas, trechos extraídos de muitas leituras, comentários feitos às margens das páginas dos inúmeros volumes que lera, esboços de obras em fase de conclusão, e, sobretudo, as revelações do Espírito Santo anotadas durante suas leituras bíblicas pela madrugada - tudo isso seria empregado na composição dos artigos que sairiam de suas mãos.
     Sua missão dali para frente seria produzir uma genuína literatura pentecostal, uma fonte de onde jorrassem as cristalinas palavras ditadas pelo Espírito Santo, fundamentadas em Cristo, aprovadas pelo Senhor dos senhores.
    Sua admissão oficial como funcionário da CPAD data de 15 de março de 1940. Desde o convite do missionário Nils Kastberg até aquela data, fora apenas colaborador do Mensageiro da Paz. Daí por diante, por mais de trinta anos Emílio Conde dedicaria à CPAD seu talento, sua cultura, sua impressionante capacidade de trabalho, sua mente clara e fecunda.
     Era um homem humilde, simples. Não costumava ostentar os conhecimentos que possuía. Entre os amigos, sua palavra despretenciosa e amena, dosada pelo bom humor e pela sinceridade, descontraía a todos os que a ele se achegassem.
     Para os que se viam angustiados ou confusos, procurá-lo era encontrar nele um apoio, uma palavra amiga, esclarecida, experimentada, confortadora.
    Seu trabalho na imprensa evangélica não foi uma profissão: foi um sacerdócio. Trabalhou para levar a semente da Palavra de Deus aos corações, e nisto empregou toda a sua vida. Deu-se a si mesmo, como está em 2 Coríntios 8.5: "... mas a si mesmo se deram, primeiramente ao Senhor e depois a nós, pela vontade de Deus."
     E era tão grande seu amor por esse trabalho, que chegou a rejeitar muitas propostas de empregos extra-evangélicos, pois se os aceitasse, tornar-se-ia inepto para o desempenho da função que exercia. Agindo assim, sempre esteve à altura da posição que ocupava, e sempre pronto a cooperar com a causa das Assembleias de Deus no Brasil.
    Graças à sua maneira sóbria e digna de se conduzir, foi, entre nós, uma espécie de representante mor de nosso movimento em todos os meios sociais e evangélicos. De 1946 a 1958 representou oficialmente as Assembleias de Deus do Brasil nas Conferências Mundiais Pentecostais, havendo estado em Estocolmo, Londres e Toronto.
     E foi também, durante muitos anos, nosso representante, não só na Diretoria, mas também em Comissões da Sociedade Bíblica do Brasil.
     Quando principiou a escrever em benefício do Evangelho, eram poucos os que entre nós podiam e se prestavam a tal ofício. Portanto, foi de sua caneta que fluiu a maioria dos artigos, das notícias e das reportagens usadas no jornal O Mensageiro da Paz, nas revistas, e também nos livros da CPAD e tudo mais que ia do Sul ao Norte do Brasil para as nossas igrejas - as mensagens escritas para edificação dos fiéis.
     Seu conhecimento e sua visão espiritual abrangiam toda a comunidade evangélica brasileira. Empenhou-se a fundo em obter dados do Movimento Pentecostal no Brasil e no mundo e, como resultado, escreveu os livros: O Testemunho dos Séculos e História das Assembleias de Deus no Brasil (este último, reescrito e ampliado pela CPAD). Escreveu também os seguintes livros: Asas do Ideal, O Homem, Pentecoste para Todos, Igrejas sem Brilho, Nos Domínios da Fé, Caminhos do Mundo Antigo, Flores do meu Jardim, Tesouro de Conhecimentos Bíblicos, e Estudos da Palavra.
    Era, sobretudo, um homem de oração. Foi orando que recebeu de Deus inspiração para compor 25 hinos da Harpa Cristã, e outros, sendo dois em parceria com o missionário Nils Kastberg, e cinco com a missionária Eufrosine Kastberg. Integrou, durante muitos anos, o Coral da Assembleia de Deus em São Cristóvão, tendo sido também organista e acordeonista. Gostava muito de cantar, e todos quantos o ouviam, sentiam vibrar as cordas de seu coração, pois ele estava sempre desejando "as ruas de ouro e cristal da formosa Jerusalém".
    Considerando o imenso e relevante trabalho por ele prestado à Assembleia de Deus no Brasil, foi-lhe oferecido certa vez, por um grupo de pastores, o acesso ao Ministério do Evangelho, através de ordenação, mas ele recusou definitivamente.
     Em janeiro de 1971, acometido de uma já antiga enfermidade, oriunda de complicações pós-operatórias, foi internado no Hospital Evangélico, na Tijuca. Uma semana antes a irmã Didi, enfermeira que cuidou dele nos seus últimos meses de vida, o encontrara dormindo com a caneta entre os dedos, debruçado totalmente sobre o trabalho inacabado. Seria sua última página escrita.
     Aplicadas todas as forças da alma e do corpo para servir a Cristo, toda sua vida não lhe fora suficiente; era-lhe necessário passar para a eternidade e continuar servindo "Àquele que é mais sutil que o ar, mais ligeiro que o relâmpago, e cujo olhar é mais belo que um alvorecer de primavera, e mais suave que a claridade das estrelas".
    "Vinde ver o mais egrégio espetáculo que pode haver na terra: Vinde ver como morre um justo." A noite lentamente se apossara do hospital, e as sombras, crescendo nos recantos menos favorecidos pela claridade desmaiada e última do crepúsculo, escalaram pouco a pouco as paredes externas do edifício, e, silenciosas e irreversíveis, foram-no revestindo de uma tonalidade cinza.
      Invadindo as vidraças, penetraram no quarto de Emílio Conde, que, deitado no seu leito de morte, pesava a sua vida, o que tinha sido, o que fizera, o que deixara de fazer.
     Ele não se sentia só, pois desde o dia em que o Senhor se apossara mansamente do seu coração e nele fizera morada, sua alma nunca mais fora presa do angustioso sentimento de solidão. O "Não te deixarei, nem te desampararei" cumprira-se fielmente em sua vida.
    Às 13.00 horas do dia 5 de janeiro de 1971, Emílio Conde dormiu no Senhor. Às 17.00 horas do mesmo dia seu corpo saía do Hospital Evangélico para ser velado no Templo da Assembleia de Deus em São Cristóvão, ficando próximo ao púlpito, aquele mesmo púlpito onde pregara tantas vezes e onde tantas vezes cantara. A Rádio Nacional, a Tupi e a Globo noticiaram com detalhes o seu falecimento.
     O seu compacto "Águas Vivas" foi tocado durante toda a noite, nos intervalos dos muitos que usaram da palavra.
    Pela manhã, às 9.30 horas, chegou o Vice-Governador do Rio de Janeiro, o doutor Erasmo Martins Pedro; usando da palavra, o Vice-Governador disse que Emílio Conde em vida "fazia o trabalho do acendedor de lampiões: entrava numa rua escura e ia deixando atrás de si luz".
     Representantes de instituições batistas disseram que Emílio Conde não pertencia somente às Assembléias de Deus, mas aos evangélicos de todo o Brasil.
    O pastor Túlio Barros pediu que todos os presentes abrissem suas harpas e cantassem juntos o hino 202: "Junto ao trono de Deus preparado..." Em seguida o pastor Alcebíades Pereira de Vasconcelos leu Apocalipse 14.13, e, enquanto falava, um ancião aproximou-se lentamente do corpo e contemplou aquela face pálida e serena, transfigurada pela beleza sagrada e espiritual da morte, afastando-se mansamente depois.
     Era o irmão Adrião Nobre, um dos pioneiros da obra pentecostal no Brasil, e o membro número um de São Cristóvão.
    Às 10.00 horas, os pastores Túlio Barros Ferreira, Alcebíades P. Vasconcelos, Geziel Nunes Gomes e o irmão Catarino Varjão empunharam as alças do caixão e se dirigiram à porta de saída do templo. No cemitério do Caju, o pastor Geziel Gomes, em nome de todos os obreiros do Campo de São Cristóvão, usou da palavra, despedindo-se de Emílio Conde.
     Ao concluir, disse: "Ele não gerou filhos materiais, mas os seus filhos na fé são tantos que não se podem contar."
    Em seguida os presentes cantaram o hino: "Pensa na celestial melodia." Por último, o pastor Túlio Barros orou. A multidão se afastou deixando atrás de si, na tumba 81.011, da quadra 81-A, do Cemitério do Caju, o corpo de um justo, o homem que soube honrar a Deus e servi-lo durante toda a sua vida.

     A tudo que é transitório soubeste dar, com a tua   grave melancolia, a densidade do eterno.
Mais de uma vez fizeste aos homens advertências terríveis.
    Mas a tua glória maior é ser aquele que soube falar a Deus nos ritmos de sua Palavra.

Jefferson Magno Costa

DANIEL BERG E GUNNAR VINGREN, OS MISSIONÁRIOS SUECOS QUE FUNDARAM A ASSEMBLEIA DE DEUS NO BRASIL

Jefferson Magno Costa






     Ao se aproximar do Oceano Atlântico, o rio Amazonas divide-se à direita e à esquerda. Nesse trecho alarga-se muito e recebe, à direita, o nome de rio Pará, formando o amplo espaço aquático da baía de Marajó, desaguando em seguida no oceano.
     Para alcançar Belém, capital do Estado do Pará, os navios vindos do Atlântico penetram a baía e navegam as águas em sentido contrário ao curso do rio, aproximando-se do porto da cidade pela margem esquerda.
     No dia 19 de novembro de 1910, dezenas de pessoas acompanhavam as manobras de navegação de um grande navio que se aproximava do Cais de Belém. A realização de várias atividades portuárias naquela manhã não permitiu que o navio Clement atracasse no cais.
     Por esse motivo, um barco foi enviado para transportar os passageiros do navio que chegara de Nova Iorque e acabara de lançar âncora ao largo do porto.
     Quando o barco proximou-se do cais trazendo os passageiros, um grupo de homens, mulheres e crianças começou a acenar, a sorrir, a gritar, a bater palmas, a pronunciar nomes, numa efusão de alegria autenticamente brasileira.
     Ao desembarcarem, os passageiros viram-se rodeados pelos parentes e amigos, que, entre palavras, sorrisos e abraços, ajudavam-nos a levar a bagagem.
     Quando quase todos já haviam desembarcado, dois homens, empunhando firmemente as alças de suas malas, pisaram solenemente na plataforma do cais. Não havia ninguém à espera deles. Porém, o desembarque desses dois estrangeiros em solo brasileiro, numa clara manhã de novembro, terá em breve um grandioso significado para a história do Movimento Pentecostal no Brasil.
     Nesse momento, os pés desses dois homens estão a pisar firmemente o solo de um país que eles ainda desconhecem, mas em breve aqueles pés tornar-se-ão cansados e feridos, porém formosos sobre os montes, pedras, selvas, espinhos e cidades brasileiras, quando os dois missionários saírem a anunciar as Boas-novas de salvação.
     Aqueles dois homens ainda não são capazes de pronunciar nenhuma palavra da língua portuguesa, mas são capazes de falar em mistérios com Deus. Ambos não refletem em seus semblantes a alegria que se vê estampada nos rostos amorenados dos homens, mulheres e crianças que falam alto, se abraçam e se afastam do cais, mas nos corações daqueles dois estrangeiros arde a chama do Espírito Santo, um fogo suficiente para produzir cânticos e júbilos tão intensos, que em breve irromperão nos lábios e nos corações das primeiras almas resgatadas das trevas para fazerem parte do grande rebanho da Assembleia de Deus no Brasil.
     Nascidos na Suécia, eles embarcaram em Nova Iorque naquele navio desconfortável que acabara de chegar a Belém. Além da grande fé que trazem nos corações, e da pouca bagagem, eles dispõem de uma quantia tão pequena de dinheiro, que não lhes permite aceitar que os carregadores transportem suas malas.
     Um deles é forte, a pele clara, os cabelos e bigodes escuros, o olhar sereno e decidido. O outro é loiro, alto, de olhos azuis, com as pontas do bigode dobradas para cima, a olhar com firmeza e curiosidade para todas as coisas. O de cabelos escuros chama-se Daniel Berg. O outro, Gunnar Vingren. Ambos foram enviados por Deus para trazer o Pentecoste ao Brasil.
     Quando ainda estavam em Nova Iorque, Daniel e Vingren haviam decidido comprar passagens de terceira classe, a fim de economizarem o pouco dinheiro de que dispunham.
     Consequentemente, quase não puderam se alimentar durante a viagem, pois a comida que serviam aos passageiros dessa classe era de má qualidade. Por esse motivo, ao se distanciarem do cais, a primeira resolução que tomaram foi localizar um restaurante, quando então, e pela primeira vez após muitos dias de viagem, puderam servir-se de uma refeição digna, e entrar em contato com o cardápio brasileiro.
     Após saírem do restaurante, Vingren perguntou a Daniel:
- E agora Daniel, para onde vamos?
- Vamos subir por esta rua, Vingren, e certamente Deus nos orientará sobre o que devemos fazer.

 A CIDADE ETERNA
     Carregando suas malas, os dois embaixadores do Deus Altíssimo começaram a subir lentamente a rua. Tudo o que viam ali era infinitamente diferente do que tinham visto nos Estados Unidos e na Suécia. As torres altas das belas casas em estilo colonial contrastavam com os casebres extremamente pobres que circundavam a cidade.
     Ruas pedregosas e poeirentas se ramificavam em várias direções perpendiculares ao rio. Transitando normalmente por essas ruas, vários leprosos, que haviam acorrido à Belém ao ouvirem dizer que naquela cidade fora descoberta a cura da lepra, expunham ao olhar dos transeuntes os seus corpos mutilados pela doença. Ao contemplarem esse quadro doloroso, um sentimento de compaixão e de amor invadiu os corações dos missionários.
     Enquanto caminhavam observando a paisagem que se estendia adiante dos seus olhos, é provável que Daniel Berg e Gunnar Vingren tenha-se lembrado de suas cidades natal. Certamente, pouca coisa havia de comum entre aquelas duas cidades da Suécia e a cidade de Belém.
     Porém, ao contemplarem aquelas ruas e aqueles homens e mulheres curiosos, muitos deles pobremente vestidos, a andarem para lá e para cá como ovelhas desgarradas que não têm pastor, os missionários devem ter-se lembrado dos montes, das fontes abundantes e dos lagos cristalinos existentes nas cidades onde nasceram, cidades montanhosas, lugares prediletos dos reis da Suécia para a realização de caçadas.
     E certamente naquela hora desejaram falar àquele povo da existência de um lugar muito diferente de Belém, e mais belo e infinitamente mais vasto do que toda a Suécia. Um lugar onde não há ruas pedregosas e acidentadas, nem casas mal iluminadas e pobres, ou pessoas sem mãos, sem orelhas, sem nariz e sem dedos a andar sem rumo.
      Eles lhes falariam da Jerusalém Celestial, a pátria eterna de todos os que aceitam a Jesus como Salvador, e guardam sua Palavra no coração. A Cidade das Doze Portas, em cujas ruas de ouro e cristal, em tempo sempre sereno e claríssimo, brilha o Sol da Justiça. Anunciariam a existência das amplíssimas regiões celestiais, onde, quando se iniciar o jubileu das eternas bem-aventuranças, os salvos e remidos pelo sangue do Cordeiro viverão eternamente contemplando a Face adorada de Jesus.

 O PRIMEIRO INDÍCIO DA EXISTÊNCIA DE UM EVANGÉLICO EM BELÉM
     Após andarem durante algum tempo, os missionários resolveram sentar-se em um banco de jardim, e ali fizeram uma oração, pedindo a Deus que os fizesse encontrar um evangélico.
     Ao concluírem a oração, sentiram desejo de voltar na direção do porto. Uma família que também viajara no navio Clement, e falava inglês, os encontrou e lhes indicou um hotel. Ali os missionários entraram em contato com outra pessoa que também falava inglês, e esta informou que conhecia um evangélico naquela cidade, mas não sabia onde morava.
     Já era noite. Os missionários trataram então de arranjar um quarto naquele hotel. Ao fazerem um balanço de suas finanças, descobriram que só dispunham de quatro dólares e alguns cêntimos. Não ficaram nada surpresos ao saber que um quarto para duas pessoas custava 16 mil réis (o equivalente, na época, a quatro dólares).
     Com o restante pagariam a passagem de bonde no dia seguinte.
Ao se recolherem para dormir, Vingren deparou-se com um jornal jogado no chão. Certamente o hóspede anterior o esquecera ali.
     Apesar de não entender nada da língua portuguesa, o missionário passou a folheá-lo assim mesmo. Súbito, gritou para Daniel:
- Aqui está, Daniel, a resposta de Deus! O redator deste jornal é o irmão Justus Nelson, um pastor metodista que eu conheci na América do Norte. Amanhã nós iremos procurá-lo, e ele certamente nos dará as orientações de que necessitamos.
     Aquela noite Daniel Berg e Gunnar Vingren elevaram suas vozes em oração ao Onipotente e misericordioso Deus, e agradeceram-lhe o cuidado e o amor que Ele estava tendo com suas vidas, e a direção e a paz que enchia os seus corações. Confiantes em Jesus, o sublime e seguro guia de suas almas, adormeceram.

 HOSPEDADOS NO PORÃO DA CASA DO PASTOR BATISTA
     No dia seguinte, após pedirem que Deus os conduzisse, tomaram o café da manhã e saíram à procura do pastor metodista. Ao chegarem à casa do irmão Justus Nelson, este os recebeu alegremente. Após contar-lhes as muitas experiências que vivera ali, o irmão Nelson tratou de conduzir os missionários ao pastor batista local, irmão Erik Nilson, também de origem sueca.
     Erik Nilson recebeu alegremente os seus compatriotas e irmãos na fé. Quando soube que estavam hospedados em hotel, convidou-os a morar no porão da igreja, e a auxiliá-lo nos trabalhos da Igreja Batista, em Belém, situada na Rua João Balby, no. 406.
     Daniel e Vingren aceitaram o convite. Voltaram para apanhar a pouca bagagem que lhes pertencia, e passaram a morar em um corredor escuro e abafado.
     A notícia de que dois missionários haviam recentemente chegado dos Estados Unidos alcançou rapidamente as quatro igrejas evangélicas existentes em Belém. E logo Daniel e Vingren passaram a visitar essas igrejas, pois todos os irmãos queriam vê-los e ouvi-los.
     Em uma dessas igrejas, os missionários cantaram em duas vozes o hino Jesus Christ is made to me, all I need, all I need (Jesus Cristo é tudo para mim, tudo o que eu necessito, tudo o que eu necessito), e o poder de Deus caiu maravilhosamente sobre os irmãos!
     Já em suas primeiras pregações, Daniel e Vingren passaram a falar acerca do batismo no Espírito Santo. Este assunto era novidade para quase todos os crentes batistas, e para os das outras denominações também. Porém, alguns deles já tinham ouvido ou lido anteriormente acerca do assunto, mas não sabiam que a promessa do batismo com o Espírito Santo era também para eles. Após a chegada dos missionários, o número de ouvintes da Palavra de Deus aumentou rapidamente.
     Antes, nem os cultos aos domingos conseguiam encher a metade do templo. Quando Vingren e Daniel Berg passaram a tomar parte ativa nos trabalhos, o templo da igreja Batista encheu de tal maneira que muita gente teve de assistir aos cultos em pé.
CONHECENDO OS SEGREDOS DA SELVA

     Um mês após haverem chegado ao Pará, os missionários foram convidados pelo irmão Adriano Nobre, que era membro da Igreja Presbiteriana em Belém, para uma viagem à casa dos seus pais. Os pais de Adriano moravam em uma localidade chamada Boca do Ipixuna. Ali os seringueiros extraíam a borracha.
    Durante três dias seguidos, Vingren e Daniel viajaram de barco por diversos rios. Foi então que puderam entrar em contato com aquela selva imensa, com árvores que pendiam seus frondosos galhos para dentro dos rios; com belíssimas orquídeas e grandes cipós arqueados como arcos de triunfo, a saudar o avanço dos dois servos de Deus pelos mistérios da selva!
     Árvores arrancadas pelas águas desciam lentamente na correnteza. Derivando-se dos rios maiores, dezenas de afluentes abriam-se em leque, serpenteando por entre a floresta, formando ilhas, alagadiços e igapós. Abrindo o vôo, bandos de pássaros cortavam o límpido e sereno céu sobre as selvas.
     No alto das árvores, subitamente, macacos pulavam com agilidade de um galho para outro. Havia crocodilos nas margens dos rios, borboletas coloridas que, aqui e ali, voavam no ar onde se respirava o perfume agreste das flores tropicais.
     Mas também havia as pragas. O carapanã (mosquito) atacava ao anoitecer e só dava tréguas pela manhã, quando era substituído pela mutuca (espécie de mosca sanguessuga).
     Curiosos e maravilhados diante do mundo de beleza e mistério que se estendia diante dos seus olhos, os missionários ouviam, durante o dia, cantos, silvos, urros e estalidos que contrastavam com o silêncio que, à noite, caía sobre os animais adormecidos e ocultos entre as gigantescas árvores.
      Viajando por rios estreitos e largos, os missionários puderam contemplar a beleza daquelas noites sossegadas, noites em que, no plenilúnio, o majestoso luar se apossa do escuro azul do céu, e as estrelas brilham à flor dos rios como um bando de aves de prata.
     Quando se aproximaram da localidade onde moravam os pais de Adriano Nobre, Vingren e Daniel viram, às margens dos rios, casas erguidas sobre pilares de madeira - as palafitas. Ficaram felizes ao saber que no interior de algumas delas moravam famílias evangélicas.
     Ali participaram de pequenas reuniões de oração, onde puderam pregar a Palavra de Deus e cantar em português alguns hinos decorados. Os missionários comeram do que havia de melhor no interior daqueles humildes lares: farinha, arroz, feijão sem sal, carne seca e café sem leite. No final de um mês e meio, retornaram a Belém.

A PRIMEIRA PESSOA NO BRASIL BATIZADA COM O ESPÍRITO SANTO
     Para obterem dinheiro e poderem pagar um professor de português, ficou combinado que Daniel voltaria a exercer o ofício de fundidor que aprendera nos Estados Unidos, enquanto Vingren estudaria durante o dia. À noite, Vingren ensinaria a Daniel o que aprendera.
     E assim, com muito esforço, aprenderam o português. O salário de 12 mil réis por dia proporcionou aos missionários condições de se manterem relativamente bem e poderem comprar Bíblias e Novos Testamentos nos Estados Unidos.
     Os irmãos passaram a visitar a moradia de Vingren e Berg, e no decorrer do tempo, comprovaram que eles eram homens de oração e de fé, e viviam o que pregavam. Nessa ocasião, os missionários ficaram sabendo que muito antes de sua chegada a Belém, os diáconos da igreja Batista estavam orando todos os sábados, pedindo a Deus que enviasse mais missionários ao Brasil.
     Portanto, Daniel e Vingren eram considerados por esses irmãos como resposta às suas orações. Além do mais, o fato de os dois missio¬nários viverem naquele porão em condições tão precárias e continuarem sadios e dispostos a pregar a Palavra de Deus a qualquer hora do dia ou da noite, era uma indiscutível prova de que Deus os enviara.
     Os irmãos que se reuniam na moradia dos missionários passaram a receber com mais assiduidade ensinamentos acerca do batismo com o Espírito Santo e da cura divina. No quartinho existente naquele porão, e nos lares de alguns crentes da Igreja Batista, vários cultos passaram a ser realizados.
     Num desses cultos, Gunnar Vingren perguntou a uma irmã que sofria de câncer nos lábios, se ela estava disposta a abandonar todos os remédios que usava e crer que Jesus a podia curar naquele momento. Ela respondeu que sim. Os irmãos oraram e o Senhor a curou imediatamente!
     Aquela irmã chamava-se Celina de Albuquerque, e nos cultos de adoração que se seguiram, ela começou a pedir a Jesus o batismo com o Espírito Santo.
     Naquela mesma semana, após o culto de quinta-feira, acompanhada da irmã Nazaré, ela continuou buscando a face do Senhor, e à uma hora da madrugada, Jesus a batizou com o Espírito Santo e com fogo, e ela falou durante mais de duas horas em outras línguas com Deus! Segundo o que documentou Gunnar Vingren, "foi a primeira operação do batismo com o Espírito Santo feita pelo Senhor Jesus Cristo em terras brasileiras".
     No outro dia, a irmã Nazaré, que vira a irmã Celina ser batizada, relatou aos demais membros da igreja tudo o que testemunhara.
      Naquele mesmo dia, orando em companhia de outras irmãs no local onde os missionários realizavam cultos de oração, a irmã Nazaré também foi batizada com o Espírito Santo, e cantou um hino no Espírito!
     Com exceção de um evangelista e da esposa de um diácono, todos os demais irmãos que testemunharam a manifestação do poder de Deus na vida daquelas duas irmãs, creram que tudo aquilo era obra do Espírito Santo.

A VISITA DO PASTOR BATISTA E SUAS CONSEQUENCIAS

     Certa noite, quando vários irmãos reunidos no porão onde moravam os missionários, oravam e cantavam hinos de louvor a Deus, o pastor Erick Nilson, para surpresa de todos, ali apareceu. Gunnar Vingren e Daniel Berg já sabiam que ele não apoiava a doutrina do batismo com o Espírito Santo.
     Nem ele nem Raimundo Nobre, que estava estudando para evangelista. Sabiam também que o pastor Nilson, logo que chegara ao Brasil, começara a pedir que Deus cumprisse nele essa promessa.
     Depois de catorze dias buscando o batismo, suplicando em todas as horas disponíveis do dia e da noite que o Senhor o revestisse de poder, finalmente Deus começou a derramar poder sobre ele, porém sua esposa, amedrontada, pediu-lhe que parasse com ''aquilo", e não permitiu que ele recebesse a grandiosa promessa. A partir de então, Nilson tornou-se inimigo da doutrina pentecostal.
     Quando o pastor entrou no recinto, os irmãos se levantaram para saudá-lo. Fez-se total silêncio no porão. Os missionários convidaram-no a participar do culto improvisado, mas ele recusou. Diante da surpresa e do ligeiro temor de alguns irmãos, o pastor identificou com o olhar a cada um dos crentes ali presentes, e disse:
- Vejo que chegou a hora de tomar uma decisão. Há algum tempo venho observando discussões acerca de certas doutrinas que não admito como certas. Isto nunca aconteceu desde que comecei a pastorear a igreja aqui em Belém. Sei, contudo, que os responsáveis por essa situação são os irmãos Gunnar Vingren e Daniel Berg, que, possuídos de um sentimento separatista, têm semeado dúvidas e inquietação no seio da igreja.
- Irmão Erik Nilson - respondeu imediatamente Gunnar Vingren - Deus é testemunha de que não estamos aqui possuídos de nenhum sentimento separatista, e nem desejamos a desunião dos irmãos. Pelo contrário, queremos que todos sirvamos a Deus unidos no mesmo Espírito. Porém, queremos aproveitar também este momento para tornar a afirmar que, se todos alcançarmos a experiência do batismo com o Espírito Santo, jamais nos dividiremos; seremos mais do que irmãos, seremos uma só família.
- Sei que a Bíblia fala acerca do batismo com o Espírito Santo e da cura divina - respondeu o pastor Nilson, já alterando o timbre da voz. - Porém, essas coisas foram para aquele tempo. Seria um absurdo que pessoas bem informadas viessem a acreditar que isso possa acontecer em nossos dias. Hoje, temos que ser realistas e procurar não nos envolver com sonhos e falsas profecias. Quanto aos senhores missionários, se não vos corrigirdes e reconhecerdes que estais errados, é meu dever comunicar a todas as igrejas Batistas o que está acontecendo, para que se previnam contra as vossas falsas doutrinas.
     Gunnar Vingren e Daniel Berg ouviram tudo aquilo com a serenidade que os caracterizava. Após todos ficarem em silêncio por alguns instantes, Vingren tornou a falar. Afirmou lamentar muito que assuntos de tal importância estivessem motivando uma discussão de caráter pessoal. Falou também que todos ali eram servos de Deus, e pregavam acerca do mesmo Deus. E finalmente, concluiu:
- Na minha opinião, somos colegas, e não concorrentes. Saber quem leva as almas a Deus é coisa secundária. O que importa é que o número de almas salvas aumente cada vez mais. Não direi que o irmão não esteja na verdade, mas afirmo que não achou toda a verdade. Nós pregamos a verdade do batismo com o Espírito Santo e da cura divina, que Jesus pode realizar ainda em nossos dias.
     Após ouvir o que Vingren dissera, o pastor Erik Nilson encarou os presentes. Todos os irmãos permaneciam em silêncio absoluto. Fitando os rostos impassíveis e serenos, o pastor olhou firmemente para um diácono - um dos mais antigos membros da Igreja Batista em Belém - e esperou encontrar nele o apoio que até então não encontrara em nenhum dos irmãos presentes. Mas foi para surpresa do pastor Nilson que esse irmão, em nome dos demais, disse:
- Agora somos pentecostais!
     Pedindo inicialmente que o pastor Nilson não os considerasse traidores do Evangelho, o diácono afirmou que os irmãos reunidos ali jamais tinham tido tanta fé. A explicação para aquela mudança era que eles haviam encontrado a fé e o poder do Espírito Santo!
- Não temos queixa, pastor - falou o diácono - de antes o irmão não nos haver falado acerca destas verdades, pois o senhor as desconhece e, não as conhecendo, não nos poderia ensiná-las. Porém desejaríamos que o irmão também recebesse estas bênçãos de Deus, a fim de nos entendermos melhor, e podermos sentir a mesma comunhão uns com os outros.
    Todos os irmãos aqui presentes encontram-se em um plano mais elevado, e mais perto do Céu. O irmão disse que é realista; pois bem, vou citar agora alguns casos reais ocorridos entre nós, algumas provas concretas do poder de Deus em nosso meio.
     O diácono passou a relatar vários casos de cura ocorridos entre os irmãos. Certa irmã, que andava amparada por duas muletas, ouvia a pregação dos missionários acerca da cura divina, e, orando com fé, fora completamente curada!
     A irmã ainda usava as muletas, mas dependuradas na parede de sua casa, em local bem visível, para que todos vissem de que modo maravilhoso Jesus a curara! O caso da irmã Celina também foi citado, juntamente com outros.
- Caro pastor, - concluiu o diácono - não queremos nem podemos acusá-lo de nada. O irmão tem trabalhado a fim de ganhar almas para Jesus, tem orado para que Deus dê força aos enfermos, para que eles possam suportar suas enfermidades, mas não orou para que Jesus os curasse; tampouco nos doutrinou acerca do batismo com o Espírito Santo, porque o senhor não crê nestas verdades. Porém, o irmão é testemunha ocular de alguns casos que acabei de citar.
     Após ouvir as surpreendentes palavras do diácono e concluir que não encontraria ali o apoio de ninguém, o pastor Nilson dirigiu-se a Vingren e Daniel, e lhes disse:
- Já tomei a decisão que tinha de tomar. A partir deste momento, os senhores não podem mais ficar morando aqui. Procurem outro lugar; depois de tudo o que aconteceu, não os quero mais neste porão.
     Em seguida, dirigiu-se ao pequeno grupo de crentes e perguntou:
- Quantos estão de acordo com essas falsas doutrinas?
     Dezoito pessoas levantaram suas mãos, e foram avisadas de que seriam imediatamente excluídas de comunhão da igreja. Essa exclusão foi ilegalmente efetivada pelo seminarista Raimundo Nobre.
     Vingren e Daniel Berg agradeceram ao pastor Erik todos os favores que este lhes havia prestado, e desejaram que em breve ele fosse também alcançado pela bênção do batismo com o Espírito Santo. Sem dizer palavra, o pastor virou-lhes as costas e retirou-se.

 SURGE A IGREJA ASSEMBLEIA DE DEUS 
     Os dois missionários estavam agora sem ter para onde ir. Porém não se abalaram diante daquela situação. O Senhor Jesus, que os tinha dirigido até aquele momento, certamente continuaria com eles e os conduziria triunfalmente na gloriosa jornada que iniciavam.
     Antes mesmo de Daniel e Vingren expressarem qualquer palavra com relação ao futuro que lhes aguardava, um irmão se adiantou e falou em nome dos demais.
- Irmão Vingren e irmão Daniel, compreendemos a vossa preocupação. Quero dizer, porém, que tenho à vossa disposição uma grande sala em minha casa, que pode ser utilizada para realização de cultos. Quanto ao problema da moradia, minha casa tem espaço suficiente para ambos.
     Felizes diante da imediata providência de Deus, os missionários aceitaram o convite. Naquela mesma noite, na casa da irmã Celina de Albuquerque, na rua Siqueira Mendes, 67, no dia 18 de junho de 1911, sob a direção de Vingren e Daniel, foi realizado oficialmente o primeiro culto pentecostal no Brasil.
     A igreja foi organizada com o nome de Missão de Fé Apostólica.
     E assim, sob o límpido céu equatorial, como trigo semeado entre pedras e espinhos, alva e resplandecente como um lírio, começou a florescer nas cidades e nas selvas do Pará e do Amazonas, a igreja que, em 11 de janeiro de 1918, seria denominada Assembléia de Deus.
     E nada, nada conseguiu deter seu avanço. Ataques, acusações e folhetos caluniosos só serviram para aumentar o número de pessoas que vinham assistir aos cultos pentecostais e ouvir Gunnar Vingren e Daniel Berg falarem acerca do batismo com o Espírito Santo e da cura divina, e sobretudo verem a manifestação do poder de Deus entre os irmãos.

COLPORTANDO AS SEMENTES DE VIDA ETERNA

     Quando as Bíblias e os Novos Testamentos, pedidos por Daniel Berg, chegaram dos Estados Unidos, iniciou-se então em Belém o que podemos denominar de a primeira atividade de colportagem dos pentecostais. Para desenvolver a colportagem a contento, Daniel Berg deixou o emprego na fundição, e logo constatou que não era difícil vender sua preciosa mercadoria, pois, naquela época, Bíblias e Novos Testamentos em português eram raridade no Brasil.
     Ele saía pela manhã com sua maleta de colportor, caminhando por ruas e estradas, batendo em dezenas de portas, oferecendo Bíblias e Novos Testamentos, e ao mesmo tempo convidando as pessoas a comparecerem ao culto, à noite.
     Os frutos daquela semeadura começaram a surgir. Após crerem no Evangelho de liberdade e transformação, homens que negociavam com cigarros e bebidas alcoólicas queimavam essas mercadorias e passavam a negociar em outro ramo de comércio.
     Ao crerem no poder de Jesus Cristo, enfermos eram alcançados pela cura divina.
     Para intensificar suas atividades de evangelismo e colportagem, Daniel resolveu seguir ao longo da estrada de ferro Belém-Bragança, onde dezenas de cidades e vilas jamais haviam sido evangelizadas. Após despedir-se da igreja e de Gunnar Vingren, o qual estava desenvolvendo em Belém um considerável ministério como pregador, dirigente e fundador de trabalhos, Daniel Berg partiu, levando consigo duas malas cheias de Bíblias, e no coração a poderosa chama do Espírito Santo.
     Partiu pouco antes do amanhecer, quando pelos caminhos ainda soprava a brisa suave da madrugada, e os pássaros saudavam docemente a pálida luz da aurora, que pouco a pouco inundava a vastidão do céu.
     Sabedores de que a Palavra da Verdade caminharia junto com aquele homem destemido, e em breve resplandeceria em milhares de corações, os padres daquelas cidades e vilas ordenaram que ninguém conversasse nem acolhesse em suas casas um homem alto, forte, que carregava consigo duas malas contendo livros e insistia sempre em conversar com aqueles a quem se dirigia.
     Daniel entendeu rapidamente a situação. Ao andar pelas ruas do primeiro lugarejo que encontrou no início de sua viagem, observou que todos o olhavam, curiosos e apreensivos.
     Após caminhar por algumas horas, o missionário resolveu descansar sob uma frondosa árvore. Era quase meio-dia, e o calor se intensificara. Na limpidez do céu azul, o sol brilhava implacável. Sob aquela sombra acolhedora, Daniel pediu a Deus que interferisse poderosamente em seu favor, esmiuçando as muralhas da descrença e penetrando na dureza dos corações.
     Fez uma ligeira refeição e esperou que a leve brisa da tarde começasse a soprar.
     Deus o conduziu, da sombra daquela árvore a uma casa onde uma senhora idosa jazia sobre o leito, gravemente enferma. E ali, entre velas e algumas pessoas que rezavam ajoelhadas diante de uma imagem, Deus manifestou o seu poder através de Daniel Berg. Ajoelhado à cabeceira da cama daquela mulher que momentos antes havia sido desenganada pelo médico, o missionário começou a conversar com a enferma.
- A senhora tem fé em Deus e em seu Filho Jesus Cristo?
     Ela não pronunciou nenhuma palavra, mas acenou afirmativamente com a cabeça.
- Afirmo-lhe que Jesus se encontra presente neste quarto e está pronto a curá-la - continuou Daniel. - A única coisa que a senhora tem a fazer é crer nele. Desprenda-se da contemplação desta imagem, afaste o seu pensamento dela e dirija-o a Jesus, agora. Foi para dar salvação e paz a todos, sobretudo a pessoas como a senhora, que Ele morreu na cruz. Creia nestas verdades, e será curada e liberta do pecado.
     Todos os presentes estavam admirados, ouvindo atentamente as palavras que aquele estranho, ajoelhado ao lado da cama, dizia à enferma.
- Mas isto parece ser coisa muito simples! - respondeu a mulher. - Será possível chegar a Jesus tão facilmente?
- Sim, é absolutamente possível. Nós, os seres humanos, costumamos colocar obstáculos no caminho de Deus, e, consequentemente, impedimos que Ele faça a obra em nossa vida. Porém, se a senhora quiser, eu posso pedir a Ele que a cure e que escreva o seu nome no Livro da Vida.
      A enferma aceitou. Daniel Berg então pediu que todos curvassem a cabeça reverentemente, e, orientando a enferma a acompanhá-lo em oração, ergueu sua voz aos céus. Após a oração, confessando estar sentindo um indizível refrigério em sua alma, a senhora adormeceu.
     Ao sair daquela casa, o missionário deixou ali uma nova criatura em Jesus Cristo. Tempos depois, vários parentes daquela senhora se converteram ao Evangelho, e o seu lar foi transformado em um templo da Assembléia de Deus!


RESGATANDO ALMAS PARA JESUS
     Muitas foram as experiências vividas por Daniel Berg durante sua longa caminhada margeando a estrada de ferro Belém-Bragança. Por ele ter sido perseverante, e acreditado que a chama pentecostal em breve irromperia em inúmeros pontos do Brasil, e por não se ter entristecido com as afrontas e agressões físicas, as sementes plantadas germinaram e floresceram.
     E os frutos do seu labor perseverante estão sendo colhidos há quase 100 anos em todo o território brasileiro.
     Evangelizando as cidades e os lugarejos que encontrava ao longo da Belém-Bragança, "o estrangeiro que vendia Bíblias" caminhava anunciando a Luz Eterna que redime vidas e transforma os corações. E era ouvindo a Palavra de Deus que muitos adversários do Evangelho se convertiam e saíam por sua vez, a levar a outros a mensagem de salvação.
     Como fruto daquela dificultosa viagem, em pouco tempo vinte templos da Assembléias de Deus surgiram entre Belém e Bragança.
     Apesar das barreiras erguidas por todos os lados; apesar das perseguições e das agressões físicas (certa vez jogaram lama no rosto de Daniel, quando ele estava pregando), a obra de Deus cresceu portentosamente, avivada pela chama do Espírito Santo.
     De Bragança, Daniel partiu para levar o Evangelho aos moradores de centenas de casebres construídos em plena selva. Deixou ruas e estradas para trás, e passou a caminhar por veredas estreitas, por caminhos desconhecidos, por trilhas abertas na floresta tropical.
     Ali, gigantescas árvores erguiam possantemente, formando, no alto, em todas as direções da selva, um teto de folhagem que só permitia, num e noutro lugar, a filtragem de alguns raios solares. Não existe sol do meio-dia nas florestas.
     A fraca luminosidade sob as árvores dá a impressão de se estar sempre em pleno entardecer.
     Conduzindo duas malas repletas de Novos Testamentos e Bíblias, Daniel caminhou pela selva à procura de almas para o reino de Deus. Logo aprendeu que os moradores daquela região costumavam construir suas casas nas proximidades de clareiras e nas margens dos rios.
     No meio daquelas humildes casas de palha, certa vez ele se deparou com um grupo de crianças que brincavam. Depois de conquistar-lhes a confiança, Daniel ficou sabendo, através delas, que a mãe de um rapazinho ali presente havia morrido naquele dia.
     Conduzido por esse rapaz, Daniel entrou naquela casa onde algumas pessoas choravam ao redor da morta. Leu um trecho da Bíblia sobre a ressurreição; orou; confortou o dono da casa e ganhou aquela família para Jesus.
     Antes de se afastar daquela localidade, Daniel foi vítima de um atentado, mas o Senhor fez com que hso homens sanguinários o confundissem com um morador da região. Porém, apesar das perseguições e da neutralidade da autoridade policial local, uma pequena congregação da Assembleia de Deus surgiu ali.
     Após certificar-se de que a igreja que por ele fora estabelecida estava firmada em Jesus Cristo e cheia do poder de Deus, Daniel despediu-se dos irmãos e partiu, seguindo a direção que o Espírito Santo lhe indicava. Para atingir o lugarejo mais próximo, era necessário alugar um barco e atravessar o rio Amazonas em um dos trechos onde ele é muito grato.
     Na outra margem erguia-se a selva e seus inumeráveis perigos.

DANIEL BERG FRENTE A FRENTE COM UMA SUCURI

     Conversando com o barqueiro que o conduzia à outra margem do rio, Daniel foi informado de que naquela região havia cobras gigantescas, onças pintadas e muitos jacarés. O missionário comentou com o barqueiro:
- Não conheço esta região, mas nada do que o senhor citou me causa medo, pois Jesus está comigo - e em seguida o Danial passou a fazer uma apresentação mais detalhada Jesus, seu melhor amigo.
     No final daquela conversa, o barqueiro aceitou a Cristo como seu Salvador. Sentados diante um do outro, dentro do barco, Daniel leu um trecho da Bíblia e pediu que o Senhor resgatasse aquela alma do pecado e da ignorância.
     Quando chegaram à outra margem, o dia começava a escurecer. Os sons característicos da selva saudaram Daneil Berg, que desembarcou rapidamente, pegou suas duas malas, rejeitou as armas que o barqueiro lhe ofereceu (ele argumentou que estava levando a mais possante de todas as armas - a Bíblia) despediu-se do barqueiro e rumou para o estreito caminho que se iniciava ali e se perdia no interior da selva.
     Começou a andar apressadamente, pois em breve seria noite, e ele sabia que teria de atravessar um pântano. À medida que avançava, a vereda tornava-se mais estreita. Cipós cruzavam de uma árvore a outra, e havia galhso e torncos no chão, que lhe dificultavam os passos.
     Mas Daniel Berg caminhava sob a luz do Altíssimo, e seu coração descansava na confiança depositada em Deus.
     Alcançou o pântano, tirou os sapatos, arregaçou a bainha da calça e iniciou a dificultosa travessia, atolando-se aqui, caindo ali, até chegar ao outro lado. Lavou-se rapidamente, calçou os sapatos e continuou sua difícil caminhada pela floresta.
      Os sapatos começaram a calejar-lhe os pés. Ele os tirou imediatamente. Foi picado pelas formigas, pisou em cactus, tentou livrar-se dos espinhos maiores, mas teve de continuar caminhando, pois a penumbra sob as árvores tornava-se cada vez mais densa, e havia os perigos noturnos da selva.
     Sentia agulhadas finas e dores fortes nas plantas dos pés, mas não podia mais calçar os sapatos, pois os pés incharam. Subitamente estranhou que uma vala dividia o caminho. "Quem teria interesse em cavar uma vala no meio da selva?" pensou.
     Mas parou imediatamente de caminhar ao lembrar-se do aviso dos irmãos e do barqueiro: "Quando encontrar uma vala na estrada, principalmente se for em terra mole, afaste-se dela, pois é o caminho da sucuri."
     Ele ainda estava sob o efeito da lembrança dessas palavras, quando a gigantesca cobra apareceu à sua frente. A uma distância de menos de dois metros, a sucuri ergueu a cabeça até a altura do rosto de Daniel, e começou a fazer movimentos com o corpo, tentando hipnotizá-lo, como fazia com todas as suas vítimas, antes de atacá-las.
     Paralisado pelo medo, o missionário começou a clamar angustiosamente em espírito, pedindo que o Senhor o livrasse daquele monstro pavoroso. O tempo parecia haver parado em toda a selva. Um suor frio descia lentamente da testa e ao longo da espinha dorsal de Daniel, e ele permanecia ali, parado diante da morte, clamando insistentemente a Deus.
     Súbito, todo o corpo da sucuri estremeceu; como se tivesse visto algo que a amedrontara, a cobra desviou a cabeça para o lado, movimentou rapidamente seu enorme corpo desviando-se do seu caminho habitual, e sumiu velozmente por entre as árvores.

SALVO DE SER DEVORADO POR UMA ONÇA

     Daniel glorificou o nome do Senhor por aquele grande livramento, e reiniciou sua viagem, sentindo a alma leve e o coração cheio de júbilo e de gratidão a Deus!
     Quando conseguiu alcançar uma vereda um pouco mais larga, a noite já se apossara completamente da floresta, e a escuridão era total. Caminhando descalço, Daniel temia pisar em algum inseto venenoso ou ser picado por uma cobra.
     De repente o urro de uma onça cortou o silêncio da noite. O missionário parou e esperou que a fera desse outro sinal. A onça urrou outra vez, em um lugar mais próximo dali. Subitamente começaram a ser ouvidos os latidos de um cão, mas logo transformaram-se em ganidos, e em seguida silenciaram.
     Daniel continuou a caminhar, os olhos prescrutando a densa escuridão da selva, os ouvidos atentos aos ruídos noturnos, esperando a onça urrar a qualquer momento.
     Inesperadamente, uma pequena luz movimentou-se por entre as árvores, e começou a se aproximar dele. Era uma lamparina de querosene. O homem que a conduzia olhou desconfiado para Daniel, mas logo recobrou a confiança ao ser cumprimentado pelo missionário.
     Após trocarem algumas palavras, o homem ergueu a lamparina acima de sua cabeça e apontou para os restos sanguinolentos de um animal que jazia morto há alguns metros dali, e disse:
- Era o meu cachorro. Ele nunca enfrentou antes a onça diretamente. Semore a temeu. Mas hoje algo o levou a enfrentar a fera até a morte.
     Imediatamente Daniel entendeu que Deus usara aquele cachorro para livrá-lo das garras assassinas da onça. Após convidar o missionário a hospedar-se em sua casa, o caboclo falou:
- O senhor deve ter uma arma bem possante, pois só estando bem armado alguém teria coragem de andar por esses lados, cheios de cobras e onças.
- Sim, realmente eu ando bem armado. A minha arma é esta - respondeu Daniel, mostrando-lhe a Bíblia.
     Caminharam até chegar diante de uma casinha humilde, de paredes de barro e de varas (taipa), com teto de palha. Ali morava aquele homem com a esposa e filhos. Eles arranjaram água para o missionário lavar os pés, ajudaram-no a se livrar dos espinhos maiores (no outro dia, o ajudariam a tirar os menores), prepararam-lhe uma rápida refeição e providenciaram um lugar onde ele pudesse repousar aquela noite.
     Naquela casa o Senhor mais uma vez livrou Daniel de ser picado por uma cobra. No dia seguinte, após presentear o caboclo com uma Bíblia, Daniel prosseguiu sua viagem, sabendo que deixara a semente do Evangelho plantada naqueles corações.
     Daneil caminhou pela floresta até o anoitecer, quando parou para dormir em uma cabana sem teto. A chuva que caiu naquela madrugada deu-lhe a impressão de que a água arrastaria a cabana. Porém seu coração estava tranquilo, pois ele sabia que as Bíblias estavam bem protegidas dentro da mala.
     Mas as roupas que usava só secaram algumas horas depois, quando ele reiniciou a viagem até chegar a um lugarejo, onde um pequeno grupo de irmãos o recebeu.
     Naquele vilarejo, Daniel realizou cultos ouvindo urros de onças e gritos de outros animais bem próximo da casa onde os irmãos se reuniam. Segurando em uma das mãos a lamparina de querosene e empunhando a Bíblia com a outra, Daniel Berg lia a Palavra de Deus diante da pequena congregação. Por não dispor das mãos livres, os mosquitos picavam o seu rosto, pescoço e braços.
     Foi em um desses cultos que ele contraiu malária. Debilitado e sentindo febre e calafrios por todo o corpo, o missionário ficou acamado durante vários dias. No intuito de reanimá-lo, os irmãos chegaram até a preparar-lhe um jantar especial, cujo prato principal era uma das iguarias da selva: um macaco cozido!
     Agradecendo a gentileza dos irmãos, o missionário confessou estar sem apetite...
     Alguns dias depois, Daniel foi reconduzido a Belém em companhia de dois irmãos (um deles fora enviado por Gunnar Vingren, que dias antes recebera uma carta de Daniel, onde este lhe falava do seu estado de saúde).
Os três viajantes atravessaram a selva, foram transportados pelo mesmo barqueiro que fizera a travessia de Daniel Berg, chegaram em terra firme e caminharam até a estrada de ferro onde Gunnar Vingren os esperava.
     Daniel foi conduzido à casa de Vingren, e lá ficou, tendo crises de febre até que o Senhor o curou. (Alguns meses depois, o missionário tornou a contrair a doença, mas, então o Senhor o curou de uma vez por todas.)

OS CAÇADORES DE ESMERALDAS RESGATADAS PARA O TESOURO DO CÉU

     Deus ainda usou inúmeras vezes o seu servo no meio dos perigos da selva, dos rios caudalosos e de homens sanguinários, até chamá-lo, em 1963, para as mansões eternas. Mas nem o naufrágio que sofreu, pela correnteza de um perigoso rio, ao navegar em uma pequena canoa, nem as dificuldades enfrentadas durante as viagens no barco Boas-Novas, nem as palavras e os gestos ameaçadores que lançaram sobre ele e Vingren, quando visitavam a ilha de Marajó, fizeram-nos desistir do empreendimento maravilhoso de levar a Palavra de Deus aos corações de muitos daqueles que viviam em pequenas cidades e entre rios e florestas daquelas regiões longínquas.
     Na condição de evangelistas e primeiros colportores pentecostais no Brasil, Daniel Berg e Gunnar Vingren avançaram pelas cidades e pelas selvas adentro, alcançando casas isoladas e lugarejos de difícil acesso; caminharam centenas de quilômetros a pé, navegaram pelos rios do Amazonas e do Pará, sob o sol, sob a chuva, de noite e de dia, por veredas estreitas e mato fechado, enfrentando os mosquitos transmissores da malária, os perigos e as surpresas da floresta e do coração do homem mau, realizando um trabalho superior ao de Fernão Dias Paes Leme, o bandeirante caçador de esmeraldas, pois pescavam almas preciosas para o reino de Deus.
     À semelhança do grande bandeirante, aqueles dois missionários também desbravaram o desconhecido, mas tão-somente à procura de almas, de "esmeraldas" resgatadas das impurezas do mundo para serem conduzidas ao Tesouro do Céu. E deles pode-se dizer o mesmo que Olavo Bilac disse de Fernão Leme:
     "Cada passada sua era um caminho que surgia." Pelas veredas do Evangelho dificultosamente abertas, germinaram, como sementes férteis, as gotas de suor de Daneil Berg e Gunnar Vingren, suas lágrimas, a fome, as vigílias. E hoje, sob as mãos abençoadoras de Cristo, quando a Assembleia de Deus cresce em todo o Brasil e neste ano de 2011 comemorará o seu centenário, o Espírito Santo  reascende continuamente nos corações de todos os pentecostais do Brasil, a esperança de, um dia, nas ruas da Jerusalém Celestial, podermos nos encontrar e abraçar os nossos irmãos Daniel Berg e Gunnar Vingren, que, para levarem a semente de vida eterna ao coração de milhares de brasileiros, enfrentaram corajosamente os imensos desafios das cidades e os grandes perigos das selvas amazônicas.
Jefferson Magno Costa












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